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Simples assim, senadora!

Occam’s razor applies to this science, just as it does to all sciences: do not invoke a complicated hypothesis to explain the observations, if a simple hypothesis will suffice.

Assim nos explica Gary Taubes em seu livro. Certamente, o ponto importante é aqui é a lâmina do Occam, né? Eis a história do termo. Neste ótimo resumo encontramos o sempre importante Karl Popper:

Karl Popper argues that a preference for simple theories need not appeal to practical or aesthetic considerations. Our preference for simplicity may be justified by its falsifiability criterion: We prefer simpler theories to more complex ones “because their empirical content is greater; and because they are better testable” (Popper 1992). The idea here is that a simple theory applies to more cases than a more complex one, and is thus more easily falsifiable. This is again comparing a simple theory to a more complex theory where both explain the data equally well.

A simplicidade, no sentido descrito acima, portanto, é uma questão de humildade, mas não de burrice. O falecido prof. Simonsen nos mostra exatamente onde Popper queria chegar:

A lição mais importante da teoria de Popper é que um modelo que não seja passível de falseamento empírico simplesmente não é uma ciência. Pode, na melhor das hipóteses, suprir uma crença. O alvo escolhido por Popper nesse sentido foi o determinismo histórico, segndo o qual a história seguia suas leis inexoráveis, da mesma maneira que os corpos celestes dançavam segundo as leis da astronomia, que permitiam até a previsão dos eclipses solares e lunares com extrema precisão. (Ensaios Analíticos, cap.1, p.17, 1994)

A metodologia da Ciência Econômica deve muito à idéia do Occam e também à idéia de que devemos testar hipóteses. Nem todos concordam com isto, mas este blogueiro é simpático à idéia de Occam e também à de Popper.

Eu estaria muito feliz em continuar esta conversa sobre humildade científica e testes de hipóteses, mas aí eu leio que uma senhora política resolveu mostrar quem é quem tem a moral no mundo. Poderíamos aplicar as idéias acima aqui? Vejam só que bombástico:

A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) anunciou, nesta terça-feira (18), que apresentará no Plenário do Senado voto de censura a uma avaliação do Federal Reserve (FED), banco central americano, que classifica a economia brasileira como a segunda mais vulnerável de uma lista de 15 países emergentes, à frente apenas da Turquia. O anúncio da senadora foi debatido na reunião desta terça da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).

Cada um tem o direito de falar o que quiser e também ouvir o que não quer e isto não vale apenas para os analistas do FED que, convenhamos leitores(as), fizeram um ótimo trabalho técnico. Vale também para a senadora, que quer invocar “sabe-se-lá-qual-moralidade” para pedir um voto de censura do Senado contra o FED.

Ciência não é religião, e não se deve censurar resultados científicos. Eu poderia, diante de tamanha indignação com um trabalho técnico do FED, de forma similar, pedir um voto de censura contra o Senado Federal por não educar seus membros explicando-lhes a diferença de um trabalho gerado no FED e um panfleto do sindicato dos bancários de Pindorama que acusa os EUA de tentarem dominar o mundo.

Há quem admire o trabalho de gente estranha que, como na Argentina, culpa os economistas ou os consultores por medirem a inflação sem escondê-la dos eleitores. Merece voto de censura da Bauducco (que não me patrocina) aquele ranking da revista do final de semana encartada no jornal que não deu ao seu ótimo panetone o primeiro lugar?

Enquanto o Parlamento britânico teve a honra de ter, em sua composição, William Ewart Gladstone, que desenvolveu uma original teoria sobre o uso das cores na Odisséia e na Ilíada de Homero (*) – que inveja! – nossos políticos preferem ocupar o tempo para o qual são pagos para debater problemas nacionais com apelos por votos de censura para uma ou duas páginas de um informe do Banco Central dos EUA (que, aliás, eu comentei aqui).

Parece-me que a senadora quer enveredar por um caminho complexo demais para mim, para vocês e para ela, que envolve uma visão politizada do trabalho alheio. Tenho uma sugestão mais simples que poupará recursos ao Itamaraty e que também nos permitiria testar a hipótese semi-implícita (ora, não podem eles falar de meias-verdades?) no discurso revoltado da representante do povo paranaense. Ei-la: ao invés de um voto de censura ao FED, vamos financiar o nosso Banco Central do Brasil (que, devo dizer, também não me patrocina) para que seus técnicos nos forneçam uma resposta técnica ao relatório do FED.

Muito mais simples, econômico e, convenhamos, faz mais sentido, não faz? E olha que eu não sou pago pelo povo brasileiro para dar sugestões aos nossos políticos. Não mesmo. Aliás, esta aqui é por pura generosidade e pelo meu desejo de ver nossos representantes justificando melhor o pagamento que lhes fazemos mensalmente em seus contracheques.

p.s. (*) Ver o cap.1 de Through the Language Glass – why the world looks different in other languages do Guy Deutscher. Editora Pincador, 2010.

2 comentários em “Simples assim, senadora!

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