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Cicero e a Escolha Pública

There were four respectable ways for a prominent Roman to gain wealth: land-owning, booty from war, money lending and bribery. Cicero pocketed over two million sesterces (three times the sum he had previously quoted to illustrate ‘luxury’) from his governorship of Cilicia in 51 and 50 BC – and he had a reputation as an especially honest governor. (The Rational Optimist)

Vida boa esta a dos senadores…romanos em 50 AC. Não me entendam mal. Agora, cá para nós, heim, dizer que a Escolha Pública é “invenção neoliberal para falar mal do governo” é a maior mentira do mundo. Podem existir imbecis aqui e acolá, claro, mas vir com este papo de que o senador quer um mundo melhor, que ele é altruísta, bondoso, mais preocupado com os homens do que os empresários malvados…não, não dá. As evidências históricas (e eu diria: arqueológicas) são mais fortes.

Foi mal, gente. James Buchanan e Gordon Tullock estão certos.

UPDATE: E vejam o Cícero, em grande momento:

O que mais se deve evitar, portanto, é a vida desleixada e preguiçosa. E, se o luxo e os prazeres parecem mal em qualquer idade, com mais razão, se fazem abomináveis na gente velha  (…). Nem é fora de propósito falar sôbre as obrigações dos magistrados, das pessoas particulares e dos estrangeiros. Quem governa deve compreender que representa a pessoa da cidade e que está obrigado a sustentar a dignidade e o decôro da mesma, a conservar as leis, a fazer a justiça, e lembrar-se de que tudo está entregue à sua fidelidade e ao seu zêlo [Gonçalves, M.A. “De Officiis” de Cícero, Livraria H. Antunes Ltda., Editora, Rio de Janeiro, p.210]

É, realmente o homem era um “humilde” servidor público…

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Simples assim, senadora!

Occam’s razor applies to this science, just as it does to all sciences: do not invoke a complicated hypothesis to explain the observations, if a simple hypothesis will suffice.

Assim nos explica Gary Taubes em seu livro. Certamente, o ponto importante é aqui é a lâmina do Occam, né? Eis a história do termo. Neste ótimo resumo encontramos o sempre importante Karl Popper:

Karl Popper argues that a preference for simple theories need not appeal to practical or aesthetic considerations. Our preference for simplicity may be justified by its falsifiability criterion: We prefer simpler theories to more complex ones “because their empirical content is greater; and because they are better testable” (Popper 1992). The idea here is that a simple theory applies to more cases than a more complex one, and is thus more easily falsifiable. This is again comparing a simple theory to a more complex theory where both explain the data equally well.

A simplicidade, no sentido descrito acima, portanto, é uma questão de humildade, mas não de burrice. O falecido prof. Simonsen nos mostra exatamente onde Popper queria chegar:

A lição mais importante da teoria de Popper é que um modelo que não seja passível de falseamento empírico simplesmente não é uma ciência. Pode, na melhor das hipóteses, suprir uma crença. O alvo escolhido por Popper nesse sentido foi o determinismo histórico, segndo o qual a história seguia suas leis inexoráveis, da mesma maneira que os corpos celestes dançavam segundo as leis da astronomia, que permitiam até a previsão dos eclipses solares e lunares com extrema precisão. (Ensaios Analíticos, cap.1, p.17, 1994)

A metodologia da Ciência Econômica deve muito à idéia do Occam e também à idéia de que devemos testar hipóteses. Nem todos concordam com isto, mas este blogueiro é simpático à idéia de Occam e também à de Popper.

Eu estaria muito feliz em continuar esta conversa sobre humildade científica e testes de hipóteses, mas aí eu leio que uma senhora política resolveu mostrar quem é quem tem a moral no mundo. Poderíamos aplicar as idéias acima aqui? Vejam só que bombástico:

A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) anunciou, nesta terça-feira (18), que apresentará no Plenário do Senado voto de censura a uma avaliação do Federal Reserve (FED), banco central americano, que classifica a economia brasileira como a segunda mais vulnerável de uma lista de 15 países emergentes, à frente apenas da Turquia. O anúncio da senadora foi debatido na reunião desta terça da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).

Cada um tem o direito de falar o que quiser e também ouvir o que não quer e isto não vale apenas para os analistas do FED que, convenhamos leitores(as), fizeram um ótimo trabalho técnico. Vale também para a senadora, que quer invocar “sabe-se-lá-qual-moralidade” para pedir um voto de censura do Senado contra o FED.

Ciência não é religião, e não se deve censurar resultados científicos. Eu poderia, diante de tamanha indignação com um trabalho técnico do FED, de forma similar, pedir um voto de censura contra o Senado Federal por não educar seus membros explicando-lhes a diferença de um trabalho gerado no FED e um panfleto do sindicato dos bancários de Pindorama que acusa os EUA de tentarem dominar o mundo.

Há quem admire o trabalho de gente estranha que, como na Argentina, culpa os economistas ou os consultores por medirem a inflação sem escondê-la dos eleitores. Merece voto de censura da Bauducco (que não me patrocina) aquele ranking da revista do final de semana encartada no jornal que não deu ao seu ótimo panetone o primeiro lugar?

Enquanto o Parlamento britânico teve a honra de ter, em sua composição, William Ewart Gladstone, que desenvolveu uma original teoria sobre o uso das cores na Odisséia e na Ilíada de Homero (*) – que inveja! – nossos políticos preferem ocupar o tempo para o qual são pagos para debater problemas nacionais com apelos por votos de censura para uma ou duas páginas de um informe do Banco Central dos EUA (que, aliás, eu comentei aqui).

Parece-me que a senadora quer enveredar por um caminho complexo demais para mim, para vocês e para ela, que envolve uma visão politizada do trabalho alheio. Tenho uma sugestão mais simples que poupará recursos ao Itamaraty e que também nos permitiria testar a hipótese semi-implícita (ora, não podem eles falar de meias-verdades?) no discurso revoltado da representante do povo paranaense. Ei-la: ao invés de um voto de censura ao FED, vamos financiar o nosso Banco Central do Brasil (que, devo dizer, também não me patrocina) para que seus técnicos nos forneçam uma resposta técnica ao relatório do FED.

Muito mais simples, econômico e, convenhamos, faz mais sentido, não faz? E olha que eu não sou pago pelo povo brasileiro para dar sugestões aos nossos políticos. Não mesmo. Aliás, esta aqui é por pura generosidade e pelo meu desejo de ver nossos representantes justificando melhor o pagamento que lhes fazemos mensalmente em seus contracheques.

p.s. (*) Ver o cap.1 de Through the Language Glass – why the world looks different in other languages do Guy Deutscher. Editora Pincador, 2010.

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Eleitores medianos, profissionais de marketing e políticos: qual a relação entre eles?

Diante destes últimos resultados divulgados pelo Gallup, você já imagina onde está o eleitor mediano dos EUA em termos do assunto “China”, não é? Por exemplo, digamos que a análise seja em torno da dimensão “poder militar”. Segundo a pesquisa:

Though Gallup last year found that most Americans regard China as more friend than foe, many Americans regard China’s military strength and economic power as a threat to the vital interests of the U.S. Americans are more likely to perceive China’s economy (52%) than its military (46%) as a “critical” threat to U.S. vital interests over the next 10 years, suggesting that, for now, U.S. residents see China’s growing influence through more of an economic lens.

Então temos 46% dos entrevistados imaginando que o poder militar chinês é uma ameaça aos interessos dos EUA. Obviamente, aqueles que já ouviram falar em Teorema do Eleitor Mediano não podem deixar de pensar no tema. Afinal, o que um político norte-americano fará ao perceber que 46% dos seus potenciais eleitores temem o poder militar chinês? Aliás, você conhece o teorema?

O eleitor mediano

É muito interessante pensar no significado do eleitor mediano em termos das preferências. Um exemplo disto está aqui. Na verdade, é um resultado bem interessante. Duncan Black fez sua prova nos anos 50. Você já viu o Teorema? Eis aqui a tradução do mesmo, tal como em Ordeshook (1986):

Se todos os cidadãos têm preferências de pico único em uma única dimensão, então a preferência ideal mediana é um vencedor de Condorcet e a ordenação da preferência social sob a regra de maioria simples é transitiva, com o seu ponto máximo na mediana. (p.162)

A dimensão única a que ele se refere nos diz que esta versão do teorema é a mais simples, ou seja, ele é demonstrado apenas em uma única dimensão. Digamos que a dimensão em discussão seja o valor mensal a ser pago como subsídio para blogueiros de economia que escrevem poesias e elogios para governantes do Brasil. Imagine que estes valores são contínuos no intervalo [0, 100]. Pronto. Então estamos discutindo os subsídios para estes sicofantas.

Imagine que existam diversos políticos, cada qual com um ponto máximo de utilidade. Por exemplo, o político Zé Cirneu prefere acha ideal que que estes blogueiros tão simpáticos ao seu governo recebam R$ 100,00 mensais. Este é o ponto que lhe dá maior utilidade. Já Zelúbio estará mais satisfeito se seus amigos receberem R$ 50,00. Há também a Narima Selva, que não vê com muitos bons olhos este programa. Para ela, o ideal são R$ 10,00. Há mais políticos na mesa de negociação, digamos, com propostas de valores menores do que R$ 10.00 e outros, mais gastadores, com propostas de valores maiores do que R$ 100,00.  Digamos que R$ 50,00 seja a mediana destas propostas.

Narima, que prefere R$ 10,00, sabe que R$ 50,00 é a proposta mediana, ou seja, aquela que divide os votos dos parlamentares em 50% para cada lado. Assim, se ela votar em R$ 10,00, ela atrai votos dos outros deputados que preferem dar pouco subsídio aos blogueiros, mas perde os votos daqueles que desejam pagar mais do que R$ 10,00. Caso Narima resolva fazer um sacrifício e votar por R$ 100,00, junto com Zé Cirneu, ela perde votos na outra ponta. Note que o mesmo raciocínio vale para Zé Cirneu e para todos os outros deputados.

Isto acontece porque a regra de votação é a de maioria simples (ganha quem tiver 51% dos votos). Então, se a proposta mediana é R$ 50,00, a tendência é que todos votem muito perto de R$ 50,00. A proposta de R$ 50,00, aliás, é o vencedor de Condorcet.

Aqueles que já estudaram um pouco de Ciências Econômicas percebem que estamos trabalhando com uma preferência do tipo ponto de saciedade (que é o ponto de maior satisfação gerado para uma dada cesta, no caso, uma cesta de um único bem chamado “bolsa para blogueiros sicofantas”). E o que acontece quando as preferências não têm pico único? Simplesmente não será possível construir uma preferências social, que agregue as preferências individuais destes políticos.

Preferências com mais de um pico

Fiquemos apenas com nossos três candidatos para facilitar. Assim , usaremos a letra “P” para denotar a relação de preferência. Por exemplo, 10 P 3 será lido como “10 é preferido à 3”. Então, para Zé Cirneu, as preferências são: {100 P 10 P 50}. Para Zelúbio, as preferências são {50 P 100 P 10}. Finalmente, Narima ordena suas preferências como {10 P 50 P 100}.

O ponto importante é que cada um dos políticos envolvidos neste debate possuem, cada qual um único valor de subsídio ao qual atribuem a sua maior utilidade. Ou seja, cada um tem preferências de pico único (o pico máximo de utilidade). Repare o que acontece quando estes três políticos negociam. Digamos que eles se falam ao telefone. Como são políticos, são desconfiados e negociam separadamente.

Assim, numa negociação estratégica, qual seria o acordo entre Zé e Zelúbio? Repare que 50 e 10 são as piores opções para Zé e Zelúbio. Então, um acordo entre eles seria possível com 100 que é a melhor opção de Zé e a segunda melhor de Zelúbio. 

Como ficaria a negociação entre Zé e Narima? Seguindo a mesma lógica do exemplo anterior, 50 e 100 provavelmente serão descartadas e o resultador seria 10, a primeira opção de Narima e segunda de Zé. Finalmente, Zelúbio e Narima. Neste caso, 10 e 100 serão descartadas e o resultado será 50.

Então, neste caso, perceba, não há como obter uma proposta que satisfaça os três ao mesmo tempo. Este é a forma simplificada do conhecido resultado da impossibilidade de Arrow, vale dizer, o resultado de que não há como obter uma preferência social (a não ser que um dos três imponha sua preferência sobre as dos demais, de forma ditatorial).

Por que investir em pesquisas de opinião?

Garanto que você sempre imaginou que investir nestas pesquisas fosse importante para empresários. Mas, não se engane, políticos adoram pesquisas de opinião. Claro que a exigência quanto à qualidade da pesquisa é função do quão importante é atender as preferências dos eleitores afim de ganhar uma eleição, por um lado, e da qualidade daqueles que ofertam as pesquisas, de outro. Não é coincidência que testemunhemos mais casos de perigosas amizades entre gente barra pesada do meio publicitário e políticos do que entre empresários e gente de agências de comunicação, não?

Aliás, isto nos faz pensar em outros problemas como os que tratei anteriormente, sobre liberdade de imprensa e liberdade econômica, mas isto é uma outra conversa (e é uma conversa antiga neste blog).

Finalmente…

Claro, o Teorema do Eleitor Mediano pode ser demonstrado também sob uma realidade multidimensional e o leitor interessado poderá achar mais em Ordeshook, Peter C. Game Theory and Political Theory – an introduction. Cambridge University Press, 1986.