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Em homenagem a Maduro

Eis o sub-índice do IPCA referente ao produto mais usado no Brasil: o papel higiênico.

papelhig_againAntes que você se espante com o dado em Ago/2001, adianto que o pessoal do IBGE não errou. Há alguns anos atrás eu fiz a piada de que poderia ter havido uma grande crise de diarréia em 2001 mas, na verdade, houve uma explicação para este aumento (e eu não me lembro agora qual era, mas tinha a ver com o mercado de papel e algum evento no lado da oferta, mas posso estar enganado).

O leitor interessado em questões de higiene pessoal pode admirar esta obra de arte aí no alto. Aliás, ele pode, inclusive, baixar os dados no IBGE para as regiões metropolitanas cobertas pelo índice. Taí um bem que, realmente, podemos chamar de bem de necessidade, independentemente do que digam os livros de Microeconomia.

Com o perdão do trocadilho, as políticas econômicas heterodoxas (pré-Real) não ajudaram muito o brasileiro deixando-o em uma m###a muito grande. Isto sem falar na idéia heterodoxa suprema que foi a do Plano Collor, de passar a mão na poupança dos brasileiros. Eu nunca tinha parado para pensar em quão feio e engraçado é pensar na inflação. É, a vida tem destas coisas.

 

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Câmbio e Conta Corrente – Abenomics novamente!

Voltando ao tema da Abenomics, eis aqui algo a se pensar: será que existe uma correlação entre as Conta Corrente (CA) e a Taxa de Câmbio (E)? Bem, eu já fiz as contas e sei que existe um certo padrão (já falamos disto antes, não?).

Veja aí a correlação, com os dados ajustados em escala logaritmica. A amostra vai de Jan/1999 a Out/2013, ou seja, temos dados mensais.

correlationAE

Embora este seja um gráfico útil, mais útil ainda é pensar na correlação cruzada entre as duas séries de tempo. Em outras palavras, eu não quero apenas ver a correlação amontoando os dados ignorando suas propriedades específicas de séries de tempo (ou séries temporais).

Por que isto seria interessante? Bom, pode-se perguntar sobre qual a correlação entre as duas séries em diferentes pontos do tempo. Quero dizer, uma coisa é a correlação contemporânea entre as duas séries, CA e E ser baixa. Outra é saber se a correlação entre elas com um mês de diferença, é igualmente baixa.

Digamos que você acredite que o impacto de E sobre CA seja defasado. Será que a taxa de câmbio de hoje está mais fortemente correlacionada com a CA de amanhã? Supondo que este efeito, caso exista, seja um padrão para toda a amostra, podemos testá-lo por meio da correlação cruzada. Pode-se fazer isto

Os dois conjuntos de gráficos abaixo ilustram a interpretação da correlação cruzada. Primeiro, observe as correlações entre diferentes defasagens de CA sobre E.

abenomics1

Por exemplo, no alto, à esquerda, temos uma correlação positiva de 0.36 entre E e CA no mesmo período de tempo. Já com um período de defasagem de CA, a correlação com E já é um pouco menor, 0.33. Com dois, 0.30. Com três, 0.26. E assim por diante.

Podemos fazer o correlograma das defasagens de E sobre CA.

correlation2

Neste segundo conjunto de gráficos, observamos que a correlação contemporânea é de 0.36. Entretanto, a primeira defasagem de E se correlaciona de forma ligeiramente mais intensa – 0.38 – com a CA. A CA também está fortemente relacionada com E de dois meses antes – 0.39 – e, claro, o mesmo vale para três defasagens de E.

Estes resultados parecem indicar que os impactos das defasagens de E sobre CA são mais fortes do que as de CA sobre E, não? É, como ensina este professor, algo compatível com alguma noção de causalidade. Digo, parece que estamos vendo defasagens de E serem mais fortemente correlacionadas com CA atual do que defasagens de CA sobre o E atual.

Alto lá!

Entretanto, é importante ter muito cuidado com este exercício. Estas séries podem estar impregnadas de tendências ou ciclos que, se não previamente filtradas, “confundem” as correlações calculadas. Em outras palavras, você pode estar subestimando ou sobrestimando estes impactos porque está misturando uma tendência de alta ou uma ciclo sazonal com o legítimo sinal que cada série emite.

Ficou confuso? Bem, nada que umas horas de estudo não ajudem.

Agora, a ferramenta, a visualização da correlação cruzada, pode nos ser útil em diversas situações em que analisamos duas ou mais séries no domínio do tempo. A Abenomics, aqui, foi mais uma desculpa para ilustrar o conceito. Para não ficar tão chato, ficam as dicas do R aí embaixo.

Momento R

Para calcular os conjuntos bonitos de correlações cruzadas:

library(astsa)
lag2.plot(CA,E,12,corr=TRUE)
lag2.plot(E,CA,12,corr=TRUE)

Para ver a função de correlação cruzada, em um único gráfico, pode-se usar o comando básico do R, ccf:

ccf(E,CA)
ccf(CA,E)

Ah sim, o primeiro gráfico, com a escala ajustada de forma logaritmica:

library(lattice)
library(latticeExtra)
xyplot(CA~E, grid = TRUE, scales = list(x = list(log = 10, equispaced.log = FALSE)),
auto.key = TRUE, type = c(“p”, “r”), lwd = 4)

 

 

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Primavera Venezuelana

Honestamente, é difícil ter paciência com gente que acha bonito um político que tem acesso às listas de votação e usa isto em proveito próprio não pode ser alvo de admiração de um ou outro estadista. Este alguém foi Chávez (leia este artigo, pelo menos o resumo, para ver como se mede o preço da oposição sob um regime autoritário).

A ele se sucedeu um tal Maduro, que fez questão de dizer em rede de TV nacional que havia visto o falecido candidato a ditador, Chávez, em um muro e, depois, em um passarinho. Uma piada pronta, eu sei, embora nossa diplomacia pareça achar isto tudo muito normal. Bem, até aí, nenhum problema.

Mas no momento seguinte, o senhor Maduro se candidata a ser mais um daqueles que cometem democídio no mundo. Não, aí não é mais tudo bem. Você pode até falar que seu chefe do Banco do Brasil é do PT e, suponha, o PT censura quem fala contra Maduro. Eu aceito este argumento, embora lamente muito que você esteja sujeito a uma mordaça. Pior para você. claro.

Agora, novamente, o que é curioso nesta história toda é a tentativa de Maduro em lutar contra a realidade: a inflação venezuelana é um fato e o modelo redistributivista (este, em que uma espécie de “bolsa-família” vira um subsídio grego enquanto durar o patamar favorável do preço do petróleo) está falido. Já fizeram de tudo: expulsar o capital estrangeiro e lhe tomar os ativos, xingar o Bush, o Obama, etc. Querem congelar preços e calar a imprensa que lhe faz oposição. Resultado? A Venezuela caminha para os piores lugares em todos os indicadores sócio-econômicos que existem.

A Economia Política desta história toda me diz que esta história não terá final feliz. Infelizmente. Mas engraçado mesmo é que nossa imprensa resiste bravamente a chamar isto tudo de uma legítima primavera venezuelana. Para o bem ou para o mal, isto me lembra muito a Primavera de Praga (compare a Wikipedia em língua portuguesa e a inglesa para ver se há viés, se há conteúdo melhor, etc).

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Mais Abenomics

Em alguns dos últimos posts eu falei um pouco da Abenomics. O leitor já notou que estou usando o tema como um exemplo didático para quem realmente acredita que o professor pode ensinar fora da sala de aula. Digo “realmente” porque tem uns alunos que adoram usar a internet, mas não conseguem saber o que é, digamos, a Wikipedia ou onde fica a seção de downloads do IBGE.

Mas nossos leitores são um pouco mais loucos e interessantes do que a massa comedora de brioches que infesta nosso Febeapá (que, por sua vez, infesta nosso país, como nos disse o saudoso Stanislaw Ponte Preta). Hoje, vou aproveitar para citar rapidamente um pequeno artigo que bem poderia ser usado por alguns mais chegados em dados de painel. O artigo é de Toshihiko Hayashi e foi publicado no último número do International Advances Economic Research que é um dos dois journals da International Atlantic Economic Society. Acho que o journal não tem um fator de impacto muito alto, mas, enfim, é um lugar bom para se encontrar alguns artigos pequenos, de leitura rápida e, muitas vezes, interessante.

Abenomics, novamente!

Assim, do que trata Hayashi (2014)? Cito o resumo (abstract):

Abstract: This study is an attempt to assess the impact of policy initiatives launched by Japan’s new Prime Minister Shinzo Abe on Japan’s real gross domestic product (GDP) in his first quarter in office. We use as a benchmark for measurement a counterfactual estimate of GDP. Since the Japanese economy is also in the midst of reconstruction from the 2011 Tohoku disaster in the first quarter of 2013, we first estimate the counterfactual GDP that would have materialized in the absence of that disaster. We will use a dummy variable method and the statistical method proposed by Cheng Hsiao and others. We check the validity of these methods with regard to the Kobe earthquake of 1995 and then estimate the post-disaster counterfactual GDP in the absence of the Tohoku disaster. We measure the impact of government policies as the difference between the actual and counterfactual GDP. By doing so, we conclude that government policies have failed to lift Japan’s GDP to the expected level. Even with the help of Abenomics, the gap remains in the range of 6 to 14 trillion yen per year.

Para alguns leitores, imagino, a novidade é o termo contrafactual, um conceito que eu diria “inventado” por Robert Fogel para estudos similares a este, em História Econômica e que, hoje, é a moda do pessoal que faz análise de políticas públicas. Há um belo texto, já citado aqui, que faz um contrafactual sobre a economia cubana. O contrafactual, naquele caso, é: como teria sido o desempenho da economia cubana caso não tivesse havido a implantação da ditadura de Castro (uma versão do artigo, de 2011, é esta)?

É óbvio que não é simples construir um contrafactual e há diversas metodologias disponíveis para tal (eu recomendo o estudo do Felipe, Thomas e Stein, inclusive, pela inovadora forma como tratam do tema). Isto sem falar no aspecto temporário ou permanente de grandes choques naturais.

A pergunta de Hayashi (2014) faz todo o sentido. Afinal, ao lançar sua política, o governo japonês já se empenhava na reconstrução do país, gerando estímulos do lado da demanda. Logo, como distinguir entre este incentivo e o outro gerado pela política de Abe? Afinal, no mundo real, ceteris paribus é difícil de se ver e, claro, é importante demais para não ser trabalhado (de certa forma, os controles em uma regressão têm esta função, creio).

As três flechas

Já citei aqui, brevemente, alguns pontos. Mas o autor faz um ótimo resumo sobre a política.

The policy program consists of “three arrows,”a well understood reference to a legendary saying of a medieval lord to his three sons: a bundle of three arrows is unbreakable even though each one may be snapped individually. Prime Minister Abe’s three-arrow agenda consists of: 1) putting pressure on the Bank of Japan (BOJ) to launch unprecedented monetary easing, 2) a deficit-financed budget with a focus on public works spending, and 3) a deregulation program for growth to encourage private investment.

Em poucas palavras, não parece ser algo muito diferente de uma política expansionista comum, não? Claro, acrescida de uma leve reforma microeconômica (o ponto (3)) para acelerar o investimento privado, o que tem consequências não apenas na demanda agregada, mas também na evolução do estoque de capital do país, portanto, na oferta agregada (não é à toa que Krugman e Stiglitz estejam, por assim dizer, enamorados desta política).

Este artigo na Business Insider, fornece-nos um útil diagrama explicativo da Abenomics (ironicamente, as flechas são os quadrados de borda dupla):

Acho que este diagrama nos ajuda um bocado, em termos dos grandes efeitos esperados. Mas não vi ali a taxa de juros. De qualquer forma, ontem eu comentei um pouco sobre o tema, e tentei resumir alguns dos argumentos em termos de um modelo intertemporal simples. Mas, claro, Hayashi (2014) já tinha feito um resumo muito mais breve. Repare na observação sobre a taxa de juros real no final do trecho (ontem eu falei um pouco sobre isto, mas pensando no consumo):

In academia, the bureaucracy, and financial institutions, people started to talk about confidence and expectations intilled by Abenomics. They point to the possible channels through which the capital market hype will trickle down to the markets for goods and services; the collateral effect and the asset effect. With improved balance sheets, companies would be willing to invest in plant and equipment because they could afford to take larger risks. Besides, the real interest rate is expected to go down even further.

Ah, o mercado de capitais, as expectativas e todo aquele papo que tantos alunos acham inócuo sobre os mecanismos de transmissão entre a política monetária e o mercado de ações. Ironicamente, um dos artigos mais importantes sobre o tema é o de Fumio Hayashi, sobre “q” de Tobin. Mas, veja, expectativas não são apenas um fetiche de macroeconomistas (eu diria, um fetiche microfundamentado…). Em um país como o Japão, preços de terrenos podem já incorporar a expectativa de catástrofes naturais, não? Em outro artigo, o prof. Saito e seus associados, por exemplo, nos dizem que (grifos meus):

In this paper, we explore how asset pricing reflects public perceptions of earthquake risk using officially appraised prices of land situated along the Uemachi fault, lying along a north-south axis in the east of Osaka prefecture in Japan. We find that active fault risk has been included significantly in land pricing, only since residents and even policymakers first realized considerable earthquake risk involved in the land along the Uemachi fault by observing that in January 1995, the earthquake driven by the Rokko-Awaji fault had catastrophic damages on the southern part of Hyogo prefecture. We estimate that nonresidential land prices along the Uemachi fault are discounted by 4 percent for every 100 meters closer to the fault line.

Ou seja, não é tão simples assim, não é? Dá uma olhada no artigo dele para descobrir mais coisas interessantes sobre o tema dos desastres naturais e preços da terra.

Concluindo

Hoje aprendi um pouco mais sobre a Abenomics. A pesquisa por alguns artigos e notícias já me rendeu um pouco de material que necessita ser digerido para poder entender um pouco melhor o que se passa lá. Uma coisa, entretanto, já ficou clara: é apenas uma política macroeconômica expansionista no estilo keynesiano/monetarista tradicional do termo. A sensação que fica é que sem as desregulamentações do lado da oferta, ela terá fôlego curto e não adianta fazer discursos nacionalistas porque pessoas aprendem e expectativas podem mudar muito rapidamente (como vimos no texto do Prof. Saito sobre desastres naturais citado acima).

Sim, comentários são bem-vindos.