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Mas o que realmente causou a Revolução Industrial na Inglaterra?

Em recente artigo, Gragnolati, Moschella & Pugliese (2014) analisam os incentivos que, segundo eles, poderiam responder esta pergunta. Em sua revisão da literatura, os autores nos informam de duas hipóteses: (a) cultural e (b) preços relativos (vai aqui uma tradução livre, ok?).

A bem da verdade, a primeira (Mokyr (2009)) é a de que a cultura inglesa teria uma tendência relativa maior ao uso de “conhecimento pragmático”, o que teria favorecido o desenvolvimento de capital humano pró-invenções. Então, se há algo de “cultural”, claro, teríamos que investigar se existiu mesmo, nesta época, alguma concentração distintiva deste tipo de conhecimento nas ilhas britânicas.

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Em contraste, dizem os autores, Allen (2009) e Broadberry & Gupta (2009) seriam representantes de uma abordagem mais tradicional: econômica. Assim, a questão seria de preços relativos e, portanto, a Inglaterra teria desfrutado de um preço relativo do trabalho (relativamente ao capital) mais elevado. Veja, se o preço relativo do trabalho em relação ao capital é elevado, no longo prazo, eu, empresário, tenderia a substituir meu estoque de capital por algum novo capital com tecnologia poupadora de mão-de-obra, certo?

Hayek chamou isto de efeito Ricardo. Em Hayek (1942), temos:

When in a recent essay on industrial fluctuations the author introduced the ‘familiar Ricardian proposition that a rise in wages will encourage capitalists to substitute machinery for labour’, this was done under the illusion that thus an argument he had long employed could be stated in a more familiar and readily acceptable form. (The Ricardo Effect, Economica, IX, n.34, May/1942, 127-52, reproduzido como o nono capítulo de Individualism and Economic Order, University of Chicago Press, 1947)

Para ser mais preciso, talvez Hayek tenha sido o popularizador deste conceito que, muito cuidado, não deve ser confundido com a proposição ricardiana (Equivalência Barro-Ricardiana, na boa definição de Buchanan). São coisas completamente distintas, embora o Ricardo seja o mesmo (e não seja o Ricardão, até prova em contrário).

Embora Hayek pareça irritado com o argumento, o fato é que há autores que encontram evidências empíricas de que o mesmo teria ocorrido e teria sido uma das causas da Revolução Industrial, quer Hayek (ou qualquer outro) goste ou não.

Mas veja como é legal esta tal de história econômica! Os autores nos dizem que há uma terceira hipótese! Sabemos que tudo começa com preços e quantidade, né? Bem, o efeito Ricardo fala de preços e eles:

Also the present work provides an economic account of the Industrial Revolution, but the key advantage for England is shown to have laid in its higher consumer demand rather than its favorable relative prices. More precisely, taking demand into account permits to explain the location and timing of the Industrial Revolution much more accurately than relative prices alone, essentially due to the presence of scale economies. (Gragnolati et al (2014), p.6)

Veja como os autores colocam seu argumento de forma simples e elegante, sem firulas. Então, temos preços e quantidades. Mas preços não nos permitem fazer uma análise mais precisa no tempo e no espaço! Já com a demanda (quantidade), afirmam, é possível fazer isto. Como? Ah, aí vem a parte mais bonita, a ligação com outro conceito simples de primeiro ano do curso: economias de escala.

Vamos ser honestos. Eu fico morrendo de vontade de ler o resto do texto após ler uma introdução destas! Os argumentos estão explicados de forma que até um pré-calouro consegue entender! Um aluno de primeiro ano pode não entender se não ler o texto, mas não fica tão perdido.

Eu vou ver se leio este texto aí durante minhas horas vagas nesta semana. O artigo está no último número da Cliometrica. Gosta de história econômica? Recomendo que se associe à Cliometric Society. Sai um pouco caro, mas vale o dinheiro.

p.s. olha o boletim!

5 comentários em “Mas o que realmente causou a Revolução Industrial na Inglaterra?

  1. Olá! Eu sou um dos autores do documento discutido neste post. Infelizmente, o meu Português não é suficiente para manter uma conversa propriamente dita, mas é pelo menos bom o suficiente para agradecer-lhe pelas palavras agradáveis ​​sobre o nosso trabalho. Obrigado!

    1. Your work is amazing! Very well written. Thanks for the comment. My English is not that good (but I can’t speak French or Italian…). Hope you go on with the historical research!

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