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Mais Abenomics

A política econômica da administração Abe é-me um mistério. Bom, nem tanto, mas algumas coisas soam contraditórias. Hoje descobri um pouco mais sobre isto. Veja esta entrevista com o que estão chamando de “braço direito” do primeiro-ministro, o prof. Etsuro Honda. Ele pertence à Universidade de Shizuoka, mas não parece ser um acadêmico no sentido estrito do termo (pesquisador).

Mas vamos à entrevista. O trecho que gostaria de destacar é este:

A Abenomics é uma política de crescimento baseada no estímulo ao consumo e aos salários ou, como alegam seus críticos, baseada no aumento das exportações pela via da desvalorização do iene?

O Banco do Japão fixou no ano passado a meta de inflação de 2% e adotou uma política de afrouxo monetário como meio de atingi-la em abril de 2015. A Abenomics, com seus estímulos monetários e fiscais, é o meio de mudar a mentalidade empresarial ainda apegada à deflação. Nos últimos 15 anos, o mercado de trabalho e as instalações industriais não se renovaram. A desvalorização do iene é necessária para alcançarmos a meta de inflação de 2%. Em dezembro de 2013, o índice de preços subiu 1,3%, principalmente por causa da desvalorização cambial. O alvo final do Abenomics é criar um círculo virtuoso de aumento de consumo, de preços e de produção. Quando a inflação alcançar 2%, o PIB potencial vai subir. O PIB real está agora bem acima do PIB potencial, de 0,5%, segundo o Banco do Japão. Para este ano fiscal, que se encerra em março, estimamos crescimento real da economia de 2,6%.

Honda se mostra bastante cuidadoso – e está correto – no que diz respeito ao assunto mais polêmico lá no Japão que é o aumento do imposto sobre consumo. Afinal a dívida pública japonesa é, realmente muito alta, em termos do PIB e, pelo visto, o governo não pensa que ela seja facilmente sustentável sem um aumento de receita ou não arriscaria uma medida tão impopular…

O aumento já foi decidido há mais tempo e, claro, o consumidor já se antecipou e certamente já se ajustou para o período das vacas magras. Acho que ninguém duvida disto. Podem me falar de economia comportamental, rigidez de preços, expectativas loucas, etc, mas eu aposto que os consumidores já se anteciparam.

Entretanto, e aí entra a política de Abe e Honda, o que se pretende é um crescimento da economia com inflação e, ponto difícil, aumento de salários nominais. Os sinais que o consumidor percebem, portanto, são distintos. Primeiro, há o crescimento econômico com inflação e, portanto, com corrosão do poder de compra. Para piorar, há o aumento de impostos.

Há aí, creio, um efeito barro-ricardiano, já que o aumento de impostos tem a ver com a saúde fiscal do governo. Ou seja, para quem já estudou isto em Macroeconomia, é possível que o aumento de impostos, por si só, não tenha muito impacto nos gastos de consumo. Suponha que seja este o caso, só para anularmos este efeito da análise. Ainda assim, há a inflação que, pretende-se, chegue a 2% ao ano. Caso isto ocorra, então como poderá a economia crescer com queda de poder real de compra?

Você pode estar pensando que eu vou dizer: há o setor externo! Desvalorize a taxa de câmbio e cresça “para fora”. Ocorre que o setor externo não representa uma parcela tão grande do PIB japonês. Aliás, o autor linkado merece ter um trecho citado aqui. Veja:

Myth #1: “Japan is an export-dependent country.”

Actually, exports are a smaller part of Japan’s economy (16%) than that of most rich nations’ (though bigger than the U.S.). Also, Japan hasn’t had a big trade surplus for a while.

Myth #2: “Japanese households save a lot.”

This used to be true, but isn’t true anymore. The household savings rate nearly hit 0% in 2008 and is only around 2% now (America’s is around 5%). 

Myth #3: “Japan is a top-down economy guided by industrial policy.”

This used to be true, but isn’t anymore. The influence of METI (formerly MITI) has been curbed substantially. The Ministry of Finance still has a lot of power over banks, but this is true in other rich countries too and is generally what happens after a big banking crisis.

Pois é. Não adianta crescer tanto para fora. A autoridade monetária japonesa (o BoJ) tem um relatório mensal (e o último está aqui, traduzido) que você deveria ler para se atualizar sobre a economia japonesa. Eu dei uma olhada rápida e, bem, ainda continuo pensando que esta política é um prato cheio para qualquer aluno interessado em Macroeconomia (alguém já disse que a economia japonesa é um caso atípico. Acho que foi Paul Samuelson…). Não é todo dia que você vê um governo lutar para sair da deflação. Entretanto, este é exatamente o caso da economia japonesa.

Vamos ver se eu consigo trabalhar um pouco melhor com estas notícias, relatórios e dados…nos próximos posts. Por enquanto fique com este grupo (街角景気 – Machikado Keiki – algo como: Condições Econômicas das Ruas) que prometeu encurtar as saias (isto mesmo!) conforme a economia japonesa melhore. Segundo o site:

The concept of the unit is that the length of the skirts worn at their concerts is determined by the economic situation and the evolution of the Nikkei stock average. It is based on an observation : in Japan, during the periods of economic growth, the miniskirts become more popular, and vice versa during the decline periods. From an initial amount of 10000 yens, the scale has been fixed to the following values :

  • 9000 – 9999 yens : long skirt

  • 10000 – 11999 yens : middle skirt

  • 12000 – 12999 yens : mini-skirt

  • 13000 – 13999 yens : no skirt!

  • 14000 – 14999 yens : ultimate version

  • 15000 – 15999 yens : cake mini-skirt

  • 16000 – 19999 yens : Japan Break

  • over 20000 yens : Shinzo Abe (prime minister) is invited to become the center of the idol group

Obviamente, o mais curioso é se alguém vai enxergar Abe no meio das meninas quando elas estiverem usando sabe-se-lá-o-que… (o pouco que eu entendi da letra é bem…digamos, econômica). Bom, não me parece que o grupo vá ter uma vida longa, mas eis aí uma amostra de sua música.

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