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O p-value

Para quem gosta de uma discussão filosófica (ou metodológica?) sobre Estatística, acho que um prato cheio é este post. Entretanto, creio que esta briga tem mais argumentos do que os que aparecem no texto.

Mas, ironicamente, posso estar enganado.

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Liberdade de Imprensa sem Liberdade Econômica? Sheherazade deve ter o direito de se expressar?

Continuo o tema do post anterior. Primeiro, a resposta é: sim, Sheherazade tem o direito de se expressar. Não concorda com ela? Mude de canal. Simples assim.

Chamo a atenção para esta polêmica apenas para introduzir a segunda parte dos meus breves dois centavos sobre a liberdade de imprensa.

Na figura abaixo, você encontra as correlações anuais entre liberdade de imprensa (d$media_freedom, no eixo vertical) e liberdade econômica (d$economic_freedom). Não tive tempo para ficar arrumando muito os dados. Só a tabulação me deu um bocado de trabalho. Ah sim, o pessoal do Reporters Without Borders não fez índice para 2010 e 2011, criando uma única medida para os dois anos. Optei por repetir o valor em 2010 e em 2011. Alguns poucos países saíram da amostra (realmente uns três ou quatro, no máximo) e temos aí os mesmos países do post anterior.

liberdade

Como você pode rapidamente perceber, se há uma correlação entre calar jornalistas e liberdade de se comprar e vender quaisquer bens, bem, a correlação é a de que mais liberdade econômica se associa a mais liberdade de expressão para jornalistas.

Sim, trata-se do resultado anterior, repetido por anos e anos. Eu já expliquei diversas vezes neste blog as limitações do alcance de análises de correlação e, novamente, no post passado, apresentei algumas evidências (trabalhos de terceiros) de que os jornalistas deveriam, sim, pedir mais liberdade econômica.

Lembra daquela medida do tamanho do governo? Bem, aí está. A correlação que nos mostra que países com governos muito grandes também são países piores para os jornalistas é bem robusta.

tamanhodoestado

Ok, você querer falar da liberdade de fazer negócios. Abrir e fechar empresas. Coisas assim. Bem, aí vai.

business

A história não parece mudar muito. Ah sim, os países nem sempre tiveram dados coletados durante todo o período. A tendência, claro, é que com o passar dos anos, mais países entrem na coleta de dados. Os gráficos também nos mostram isto.

Ah sim, e quanto à liberdade dos trabalhadores de um país? Segundo a Heritage Foundation, entende-se como liberdade dos trabalhadores:

The labor freedom component is a quantitative measure that considers various aspects of the legal and regulatory framework of a country’s labor market, including regulations concerning minimum wages, laws inhibiting layoffs, severance requirements, and measurable regulatory restraints on hiring and hours worked.

Six quantitative factors are equally weighted, with each counted as one-sixth of the labor freedom component:

Based on data collected in connection with the World Bank’s Doing Business study, these factors specifically examine labor regulations that affect “the hiring and redundancy of  workers and the rigidity of working hours.”

In constructing the labor freedom score, each of the six factors is converted to a scale of 0 to 100 based on the following equation:

Factor Scorei= 50 × factoraverage/factori

where country i data are calculated relative to the world average and then multiplied by 50. The six factor scores are then averaged for each country, yielding a labor freedom score.

The simple average of the converted values for the six factors is computed for the country’s overall labor freedom score. For example, even if a country had the worst rigidity of hours in the world with a zero score for that factor, it could still get a score as high as 83.3 based on the other five factors.

For the six countries that are not covered by the World Bank’s Doing Business study, the labor freedom component is scored by looking into labor market flexibility based on qualitative information from other reliable and internationally recognized sources.

Está claro que a liberdade do trabalhador significa que ele encontra menos burocracia no mercado de trabalho. Eu imagino que o personagem que citei no post anterior, de forma bem hipócrita, seja um fã da liberdade do trabalhador, ao mesmo tempo em que prega um maior controle social da imprensa (provavelmente ele deseja ser amigo do político e viver como um monopolista ineficiente, destes que infestam o Brasil).

Bem, vejamos as correlações.

labor Então, países com mercados de trabalho mais desregulamentados, também são aqueles nos quais o jornalista sofre menos agressões físicas ou censuras. Interessante, não?

Ok, sei que o leitor pode discordar de mim sobre muitos pontos, mas os dados não mentem. Evidentemente, é preciso mais do que correlações para se estabelecer uma causalidade. Existem teorias para nos justificar estas correlações, eu sei. Entretanto, uma coisa é teorizar e outra é usar a teoria para estudar a realidade. Acho que o leitor curioso já tem material suficiente para pensar na demanda de liberdade de imprensa.

Existiria um tamanho ótimo de liberdade? Existirá uma censura ótima? Ou a liberdade de imprensa é um valor maior que não se presta a censuras? Caso sua resposta seja positiva para a última pergunta, por que será que alguns não usem o mesmo critério para falar da liberdade econômica? Vivemos em uma sociedade de rent-seekers, eu sei, e eles lutam para criar double standards de julgamentos que os favoreçam (e aos seus financiadores).

É, Sheherazade ou não, o jornalista e você ou eu temos o direito de nos expressar sem ameaças. Sociedades que enriquecem também são sociedades em que todos se manifestam. Nos EUA, por exemplo, até nazistas e comunistas, criadores do maior holocausto do século XX, como sabemos, têm o direito de criarem partidos políticos. No Brasil, apenas os herdeiros de uma das correntes têm estes direitos. Somos, de fato, um país que se acha tolerante, embora achemos bonito proibir biografias não-autorizadas, reprimir integralistas ao mesmo tempo em que aceitamos comunistas (que elogiam, inclusive, carniceiros, como o presidente da Coréia do Norte), e, claro, gostamos de falar de “crime de opinião”.

Entretanto, as correlações indicam que nossa fantasia é tão sólida que deve se desmanchar ao menor contato com o ar. Pois bem. Acho que já fiz minha parte. Cabe a você coletar os dados e trabalhar como eu trabalhei para encontrar evidências contra ou a favor do meu argumento. Tema polêmico, mas que não pode ser discutido sem uma análise mínima que seja dos dados.

Como disse (ou como dizem que ele disse) Deming: In God we trust. All others must bring data.

Até mais.

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Liberdade de imprensa sem liberdade econômica?

Um dia, um sujeito – bastante desinformado – que se dizia assessor de imprensa de uma empresa veio à Faculdade falar do papel da mídia. Ele começou com uma frase bastante autoritária. Para ele, liberdade de imprensa é apenas a liberdade dos donos de jornais publicarem o que querem. Aí ele dizia que “controle social” (sem entrar em detalhes) seria bom.

A frase tem um erro muito básico que é ignorar o contexto. Sim, em uma ditadura, com apenas um jornal, apenas o dono de jornal diz o que quer mas, não, em uma democracia, com muitos jornais, há competição e você pode falar o que quer, mas também pode ouvir o que não quer.

Claro, como muitos, o sujeito tem aquele preconceito contra o dinheiro. Ele gosta de encher os bolsos vendendo gato por lebre (e gato por gato também, imagino), mas acha horrível alguém ter o poder de publicar o que pensa. Vai ver nem é a favor de blogs ou de biografia não-autorizadas.

Em certo momento da palestra, tive vontade de me levantar e sair da sala. Meu tempo vale mais e se há uma polêmica boa, ok. Mas ali, naquela palestra, não havia nada de interessante.

Bem, muitos estudantes, mais novos, ainda nos bancos escolares ou da faculdade, podem ter dúvidas similares. É para estes que se destina este que, se tudo der certo, será o primeiro de dois posts sobre o tema.

Então, ok liberdade econômica – “livre mercado” – é inimigo da liberdade de expressão? É isso mesmo? Então, na Coréia do Norte, jornalistas devem estar se esbaldando xingando a mãe do presidente, não? Não?? Então, como é que fica o seu argumento?

Um pouquinho de realidade: dados!

Pode até acontecer que a liberdade de imprensa exista, no curto prazo, com a falta de liberdade econômica. Mas, como sabemos, uma correlação não faz verão. É preciso ver se uma variável causa a outra. Sendo assim, que tal este estudo de 2011? Cito trecho da conclusão:

Our study addresses the role of media in economic development. We set up a simultaneous equation system that jointly determines share of domestic investment in GDP (a proxy for economic development or growth) and socio-political stability (an index constructed by applying the principal components analysis to various indicators of socio-political stability). We show that free media has a positive correlation with socio-political stability and greater socio-political stability enhances domestic investment. Thus we claim that free media may promote economic development by improving socio-political stability. Several sensitivity tests reinforce our hypothesis.

Os autores acham que suas conclusões são uma evidência favorável à causalidade seguinte: mais liberdade de imprensa gera mais liberdade econômica de forma indireta, na minha opinião. Por que? Porque há vários estudos mostrando uma forte correlação entre a liberdade econômica e o desenvolvimento econômico.

Que tal observarmos a liberdade econômica e a liberdade de imprensa em um único gráfico? Eu pensei que teria mais tempo para um gráfico mais elaborado (utilizando uma amostra maior no tempo). Talvez mais tarde, hoje, eu divulgue algo assim.

Mas, por enquanto, vejamos os dois índices em 2014, para quase duzentos países.

Antes, uma observação sobre a escala de cada índice. O de liberdade de imprensa deve ser lido em escala invertida. Isto é, países com maior liberdade de imprensa têm valores menores no índice. Já o índice de liberdade econômica da Cato Foundation/Heritage Foudnation é lido de forma direta: países mais economicamente livres têm valores maiores no índice.

O índice de liberdade econômica tem vários sub-componentes. Um deles é o gasto do governo em percentual do PIB. Sei que não é a única medida da mão pesada do governo, mas é um indicador muito utilizado e relativamente bem aceito por aí em início de debates. Então veja o primeiro gráfico, relacionando a liberdade da imprensa com o que podemos chamar de “tamanho do governo”. Há evidências de que esta correlação pode não ser espúria, é bom ressaltar.

gov

A correlação entre estes dois indicadores é positiva: ceteris paribus, países com maiores governos (em nossa medida) também são países em que a imprensa sofre mais.

gov

 

Quanto ao índice de liberdade econômica, temos o gráfico abaixo que parece indicar uma evidência preliminar de que liberdade de imprensa e liberdade econômica podem, sim, estar relacionadas.

freedom2Algumas observações iniciais importantes:

a) Ok, eu só olhei 2014. Eu sei que você pode me falar que o que importa é a evolução dos índices ou mesmo as suas taxas de variação. Bem, isto exige que eu trabalhe na base de dados (não tenho ajudantes quando preciso, na hora em que preciso, né?) por muito mais tempo. Prometo tentar fazer algo assim mais tarde.

b) Outras variáveis não são importantes? Claro que são. Mas, meu objetivo aqui foi só levantar a bola. Então, você acha que na verdade estas correlações são espúrias? Pode ser. Mas eu acho que elas têm o potencial de nos contarem uma história que faça sentido, pensando na Liberdade como um conceito mais amplo que inclui a de expressão não apenas falada mas o que eu chamaria de expressão humana, o que inclui meu direito de comprar e vender o que é meu de direito.

c) Outros componentes do índice de liberdade econômica? Claro. Eu poderia fazer mais uns gráficos, mas todos padecerão dos mesmos problemas apontados antes.

Tem mais?

Eu diria para você que a liberdade de imprensa é muito importante para a democracia. E é mesmo, como você pode ver aqui. A imprensa livre e competitiva ajuda na manutenção da democracia, dizem alguns. Como ela ajuda? Por exemplo, denúncias – falsas ou não – são sempre alvo de investigação e, sim, o episódio do mensalão (o que envolve a esquerda toda: começando em Minas Gerais e terminando na Papuda, por assim dizer) é um bom exemplo disto. Tá, o mensalão é um exemplo, mas não é o único.

Jornalista é anjo?

Não. Longe disto. Há os honrados e honestos, mas há os que gostam de ver como tal, embora estejam bem longe disto. Jornalistas são seres racionais, maximizadores, e nem sempre se preocupam com a ética (veja a quantidade de livros com supostas denúncias que surgem no Brasil, sempre que algum oposicionista aponta um problema no governo, por exemplo). Moll (2008) tem um paper interessante sobre o tema (e você o encontra, junto com outros artigos interessantes, aqui (acesso pago)).

O jornalista é um homo economicus como qualquer outro, na minha opinião. Como qualquer outro homo economicus, ele tem o direito de, na minha opinião de um liberal, ressalto novamente, vender e comprar e, claro, falar o que quiser. Há normas em uma sociedade, claro, mas esta é uma outra discussão. Sociedades que não se fundam em liberdades básicas não são lugares onde, imagino, você queira viver.

Bem, eu queria falar mais sobre isto e trabalhar com uma base de dados maior, mas o tempo urge. Comentários e sugestões, por favor, na caixa de comentários.

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Prestações de um imóvel em Ago/91-Abr/92

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Um dos meus alunos (anônimo para preservar a privacidade), apareceu-me com umas prestações antigas de um imóvel de algum conhecido. Alguém lá pagava a uma construtora prestações. Claro que estamos falando dos anos do sucesso da política que unia a total ausência de qualquer “independência” da Autoridade Monetária  com terapias heterodoxas de combate à inflação.

Eu sei que você não estava vivo naquela época. Aí você ouve aquela história de alguns, hoje em dia, sobre a inflação não ser um problema tão sério (ou algo como “os neoliberais exageram tudo, não é assim, a gente precisa de um pouco de inflação para azeitar a máquina e crescer”).

Talvez você caia nesta conversa mole. Ou talvez você queira fazer como meu aluno e consultar alguns documentos de…um século atrás? Que nada. Volte aí uns 20 anos. Veja aí como eram as prestações de um imóvel. Compare com o que você tem hoje em uma economia estabilizada (mas não bem cuidada, como se vê ultimamente…). É, meu amigo. Não era fácil.

Uma coisa é você dizer que paga três mil yenes em um livro no Japão (chutei um valor, ok?) e que, apesar de ser muito, tem sido assim há 40 anos: sempre três mil yenes. Outra coisa é você dizer que começou a pagar uma prestação de CR$ 277 mil e terminou pagando CR$ 1.548 mil. Isto, meu caro, é a perda do valor da moeda, na vida real. Não é laboratório, não é econometria e nem papo furado de professor que se preocupa mais com as eleições dos amigos do que com seu conhecimento da nossa história.

Você poderia, eu sei, fazer um exercício simples que é calcular o valor real das prestações pagas usando algum índice de inflação. Claro, é um bom exercício. Mas observar o valor nominal (cada vez maior) em poucos meses, acho eu, é bem mais didático. Acho que foi o Gustavo Franco quem disse que, embora ninguém quisesse admitir, na época (por uma definição ad hoc do que seja uma hiperinflação), o fato é que tamanha desvalorização não pode ser classificada como uma “modesta aceleração da inflação”. Para mim isto aí é, sim, hiperinflação. Ou melhor, foi.

p.s. O aluno sabe que lhe sou eternamente grato por me ajudar a mostrar um pouco da história para os leitores. Quem, aliás, tiver mais exemplos assim e quiser me enviar, eu agradeço. Acho que virou uma espécie de hobby meu obter dados de notas fiscais ou recibos antigos. Alguns colecionam moedas. Eu coleciono vestígios da desgraça que foi a inflação até o Real.

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Momento R do Dia

Passeios aleatórios reinam…mas são absolutos? Eis um belo exemplo de que as coisas não são tão simples. Mesmo com tanta obviedade – claro que um teste estatístico é apenas um teste e nada mais – existem alunos que me procuram com uma insegurança que confunde religião com ciência (em A Solidão da Cidadania, Alberto Oliva, um grande filósofo carioca, faz bem o ponto de que ciência não te dá respostas para certas questões e vice-versa para a religião. Um dia comento aqui, se é que já não o fiz).

Que insegurança? O sujeito quer que eu lhe diga, como se eu fosse o supremo líder da religião econométrica que ele pode dormir tranquilo porque encontrou um passeio aleatório para chamar de meu loiro. O exemplo bacana do link acima é ótimo para estas circunstâncias. Afinal, meu caro, você tem que aprender a pensar em um mundo de probabilidades, com erros tipo I e tipo II (meu amigo e colega Marcio Salvato ensina isto como ninguém e, mesmo assim, muitos de seus ex-alunos parecem se esquecer disto quando vão ao trabalho empírico comigo).

Olha, você quer que eu te diga que o urubu é um passeio aleatório? Mesmo? Deu preguiça de estudar? Então esqueça as aulas do Marcio, esqueça tudo o que eu falei, enfie sua cabeça em um balde de gelo, segure por 30 segundos e tire. Depois, fale que o urubu é um passeio aleatório, bata no peito e saia correndo grunhindo. Caso consiga fazer fogo, quem sabe, você poderá sair desta. Metaforicamente ou não, é uma chama de esperança.