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Capitalismo de compadres e capitalismo de mercado…na época dos grandes descobrimentos

Ok, talvez eu não queira falar de capitalismo, especificamente, mas veja como são as coisas dentro de uma organização como é a de uma grande potência. Os portugueses e os neerlandeses dominaram os mares por muito tempo na época em que as viagens navais eram de uma distância considerável.

Entretanto, a estrutura de governança de cada potência não era igual. Eu diria que se havia algum antepassado do capitalismo de compadrio, este era o império português. Já as Províncias Unidas, aquela mistura bagunçada de cidades-estado, cidades e estados minúscula, foi um dos experimentos mais interessantes que a humanidade já criou.

Isto já motivou um dos artigos mais interessantes que já vi sobre incentivos e desempenho, do Douglas Irwin, que comparou as duas Companhias das Índias Orientais, a VOC, das Províncias Unidas (atuais Países Baixos) e a EIC, inglesa. Basicamente, a VOC tinha uma vantagem sobre a EIC que o autor interpretou em termos de um Stackelberg simples (a dica para você é o livro de Organização Industrial de Oz Shy).

Outro bom artigo sobre as duas companhias é o capítulo sexto, escrito por Larry Neal, The Dutch and English East India companies compared: evidence from the stock and foreign exchange markets, que faz parte da coletânea de dois volumes editados por James D. Tracy. No caso, este capítulo está em The Rise of Merchant Empires – Long-distance trade in the early modern world 1350-1750, da Cambridge University Press, 1990. Quem gosta de modelos CAPM vai adorar este capítulo.

Bom, voltando ao tema da Claudia Rei, veja o resumo do texto dela.

This paper discusses the implications of organizational control on the race for economic leadership in merchant empires. Poor organizations have reduced incentives to invest, which in turn stifle technological improvements making leaders lag behind new entrants. Portugal’s large ships carried more merchandise and were more fitting of the monarch’s grandiose preferences, but they also were more prone to disaster in stormy waters. The merchant controlled Dutch East India Company however, invested in smaller but more seaworthy vessels conducting more voyages at a much lower loss rate. The surviving historical evidence shows Portugal relying on large ships well into the seventeenth century suggesting her technological edge was gone by the time the Dutch enforced their presence in the Indian Ocean.

É um texto para discussão, é verdade, o que significa que a pesquisa não terminou. A autora tem uns textos muito bacanas sobre esta globalização que os professores de História pouco analisam nos colégios (quando não a analisam de forma errada). Veja lá na página dela.

Interessante, penso eu, neste trabalho dela, é a forma como a autora buscou verificar as diferenças institucionais das duas governanças. Melhor dizendo, o resultado das diferentes governanças. A governança portuguesa, mais centralizada, e a neerlandesa, mais descentralizada. Talvez haja aí o efeito que Jacob Viner descreveu em Power & Plentyum clássico – e pouco lido hoje em dia – artigo sobre o mercantilismo.

Curiosidade: Viner foi o cara que ficou famoso por desenhar as curvas de custo médio de curto prazo de forma errada, no envelope que é a curva de custo médio de longo prazo – refiro-me ao teorema do envelope, ok? – colocando as tangências sempre no ponto de mínimo das primeiras. Reza a lenda que ele só teria errado o desenho. Fofocas da área…

Voltando ao tema, a concorrência entre instituições neerlandesas e portuguesas é um tema muito interessante e, recentemente, descobri que, finalmente, alguém neste país resolveu estudar o assunto no Brasil holandês. Fernanda Trindade Luciani publicou um livro, Munícipes e Escabinos no qual compara a governança portuguesa e neerlandesa no Brasil. Para minha surpresa, ela leu boa parte da literatura que eu acompanhei, há alguns anos, quando trabalhei na minha tese (inclusive, corretamente, é uma das poucas a usar o termo neerlandês, como sempre insisti). A conclusão? Estou quase no fim do livro, em breve eu conto (como os leitores mais frequentes sabem, a questão da dinâmica institucional é um tema que sempre me interessou. Veja, por exemplo, isto, isto e isto).

Então, meus caros, a conclusão do texto preliminar da profa. Rei é a de que, digamos, a extravagância do poder real português não foi lá muito útil para o avanço de seu império na competição com as Províncias Unidas. Bem, este é um tema para o qual a gente poderia voltar um dia destes. Uma vez, há mais tempo, meus alunos me ajudaram a voltar ao tema (veja aqui). Preciso retomar isto uma hora. Mercantilismo é um tema muito interessante, para mim.

Pois é. Instituições distintas, resultados distintos. Não pense que esta selva é o que é porque nos faltaram soldados loiros dolicocéfalos, como diria o racista Oliveira Vianna. O problema são as instituições, conhecidas também como incentivos, no economês mais popular entre não-economistas.

p.s. Power and Plenty também é o nome de um vasto estudo de história econômica, recente, dos grandes Ronald Findlay e Kevin H. O’Rourke, de 2007. Fiquei de terminar de ler este livro quando tiver tempo. Em breve, em breve…

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