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Uma correlação não faz verão: o caso do Japão e dos EUA

Uma boa fonte de dados para estudantes de Economia é a base do FED. A regional de Saint Louis tem o FRED. O exemplo acima nos dá a série de tempo das importações dos EUA (em US$ milhões) de bens importados do Japão. Nada mal para um gráfico gerado em pouco mais de dois ou três cliques, não?

Percebe-se ali, por volta de 2010, uma recuperação das importações seguida de uma nova – mas menos perceptível – queda que poderia ser efeito de alguma mudança no câmbio. Então, lá mesmo na página do FRED, adicionei a série do câmbio, mudei a escala da mesma (no eixo vertical direito) e, olhe aí:

Você pode se perguntar: como é que a taxa de câmbio menos desvalorizada do Japão estimula as importações de produtos japoneses pelos EUA? Muita calma nesta hora, pois temos que observar diversos pontos antes:

a) Tendências – As duas séries apresentam (mais as importações do que a taxa de câmbio) tendência e, sabe, isto atrapalha um bocado a análise dos impactos de uma variável sobre a outra (digamos que a correlação pode ser espúria).

b) Sazonalidade – As importações dos EUA apresentam uns ciclos bem marcados, né? Eu não fiz a decomposição sazonal, mas a visualização acima não nos dá motivo para ignorar a possibilidade de que estejamos com um forte ciclo sazonal.

Além destes itens, típicos de um estudo puro das propriedades estatísticas das duas séries, eu acrescentaria um de ordem teórica.

c) Omissão de variáveis relevantes – Mesmo no mais simples sistema do mundo, o de demanda, existem, pelo menos, quatro variáveis. Relembrando: a demanda de Z é função do preço de Z, do preço do bem substituto/complementar, e da renda. Isto supondo que só há dois bens. Podemos até dizer que são três variáveis: a demanda, o preço relativo e a renda. Então, na pior das hipóteses, falta em nossa análise alguma “renda”. Assim, digamos, se a taxa de câmbio incentiva o Japão a exportar menos, mas se a renda dos EUA estimula o aumento das importações de produtos do Japão, a pergunta sobre qual efeito prevalecerá nos dá margem a pensar que o comportamento das importações, no gráfico acima, deve sofrer forte impacto do crescimento da economia norte-americana.

Ok, eu sei que não é muito, mas veja como fica o gráfico com a produção industrial dos EUA (já ajustada para variações sazonais):

Pois é. A suposição simplificadora – e não verificada por este blogueiro – é a de que boa parte do estímulo às importações de produtos japoneses pelos EUA pode ser captada pela produção industrial daquele país. Pode ser, pode não ser. De qualquer forma, a história de que a renda pode ter algum impacto talvez possa ser captada pela variável.

Ah sim, note que eu nem falei de outras variáveis importantes na determinação de produtos importados japoneses pelos EUA. 

O que fazer? Chorar?

Não. Nem precisa ligar para sua mãe e dizer que o sentido de sua vida terminou. Há muito o que fazer. Ora, vamos lá. Você acabou de conhecer uma base de dados super-legal. Além disso, você entendeu que pode fazer gráficos bonitos com relativamente pouco trabalho. Mas não se deixe levar pela beleza dos gráficos.

Há 10 anos atrás, fazer gráficos era difícil e sobrava pouco tempo para a análise estatística dos mesmos. Então, aí vão minhas sugestões:

(a) o que a teoria econômica nos diz é que variações na taxa de câmbio e no PIB dos EUA (e no PIB do Japão?) teriam algum impacto na variação das importações norte-americanas de produtos japoneses. Já fez esta matriz de correlação?;

(b) tem uma sazonalidade forte aí nas importações. Eu fiz uma estimativa preliminar com dummies sazonais entre a variação das importações e a variação do câmbio e guess what?, a relação estatística entre estas variações desaparece, o que é um sintoma de que a questão da tendência (sobre a qual falei pouco, confesso) pode ser importante. Logo, leia sobre o problema de tendências em dados macroeconômicos.

(c) pense no problema de especificação do modelo que você deseja estudar antes de se encantar com os belos gráficos (eu adorei a indicação das recessões dos EUA lá neles, ajuda um bocado a pensar nos problemas). Qual é o seu sistema de variáveis? Quanto dele você conseguirá estudar e quanto deixará para a famosa cláusula ceteris paribus? Nem tudo pode ser compreendido de uma rodada só. Qualquer economista que te diga o contrário, pode ter certeza, está mentindo.

À guisa de conclusão

Espero que tenha gostado destas poucas reflexões sobre dados e teoria. Você certamente encontrará blogueiros mais organizados, ou com dados mais interessantes (aqui, você já viu, tem papel higiênico, macarrão instantâneo, restaurantes, índices de liberdade, coisas meio diferentes do salame diário que você digere no bar). Bem, é assim que as coisas funcionam por aqui.

Até a próxima.

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