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Vai de BigMac?

Um ex-aluno meu quis conversar sobre BigMac hoje e eu acabei por descobrir que o pessoal da The Economist revisou e atualizou o índice. Ah sim, vontade mesmo foi a de comer um Angus Bacon, mas minha barriga…

De qualquer forma, sim, eu acho muito legal este índice. Não só eu, mas o povo do FED tem um divertido resumo (agora um pouco desatualizado, dada a revisão do índice mas, vamos lá, né?) sobre o tema aqui. O que eu não encontrei é alguém que fez uma rotina para R para ler os dados da revista para que a gente pudesse, digamos assim, divertir-nos sem aumentar o peso.

O blog recomenda: um hamburger não faz mal a ninguém, desde que você não coma toda vez que estiver pensando em Economia.

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A Lei de Okun existe?

Você se lembra daquele exercício que uma ex-membro do Nepom fez sobre a lei de Okun? Ele está aqui. Foi um interessante exercício de econometria aplicada. Alguns sempre se perguntam sobre a existência ou não de certas regularidades econômicas. Bem, parece que a lei de Okun existe, conforme este novo artigo de Ball, Leigh e Longani. Qual a importância disto, você vai me perguntar? Bem, eis aqui um trecho do texto do Longani no blog do FMI que vale a pena citar:

Our evidence matters for the interpretation of employment movements and for policy. The alleged breakdown of the jobs-growth link is often used as support for the view that the problems in the labor market are structural in nature and would not be solved by policy responses aimed at bringing about a cyclical recovery. McKinsey (2011), for example, argues that Okun’s Law has broken down and that a return to full employment will thus require not just “healthy GDP growth [but also] major efforts in education, regulation, and even diplomacy.”

In contrast, our results suggest that, as IMF Managing Director Lagarde noted recently, “the most effective way of boosting jobs is to get growth going again … an additional percentage point of growth in the world’s advanced economies would lower unemployment there by about half of a percentage point, pulling over 4 million people back into jobs. So, in order to create jobs, we must lift economic growth. How can this be done? In the near term, there is no doubt that it will take smart monetary and fiscal policy to protect the recovery.”

Realmente, não é pouca coisa, não é? Claro, se a regularidade estatística existe, talvez haja espaço para políticas de curto prazo. Nada contra a história do longo prazo, muito pelo contrário. Entretanto, note, leitor novato em Economia, a importância do debate. Coisa simples, eu sei, mas que passa batido para muita gente: você estuda um modelo que tem “k” equações”. Aí o moleque te diz que só existem “k-1” equações. Sim, neste caso, você perdeu uma delas. O problema que seria resolvido pelas k equações, agora, ficou com um buraco gritante.

Sim, no caso da lei de Okun, perder uma equação que conecta crescimento com desemprego levaria o problema para o longo prazo (embora eu ainda esteja intrigado com a tal “diplomacia” citada…).

O trabalho da Joice, lá no Nepom, foi um exercício de sala de aula, eu sei. Mas acho que qualquer leitor pode brincar um pouco com o tema. Afinal de contas, a lei de Okun merece sua atenção, não acha?

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Acabou o tráfico de escravos. Bom para você?

Suppression of the slave trade after 1807 increased the incidence of conflict between Africans. We use geo-coded data on African conflicts to uncover a discontinuous increase in conflict after 1807 in areas affected by the slave trade. In West Africa, the slave trade declined. This empowered interests that rivaled existing authorities, and political leaders resorted to violence in order to maintain their influence. In West-Centraland South-East Africa, slave exports increased after 1807 and were produced throughviolence. We validate our explanation using Southwestern Nigeria and Eastern South Africa as examples.

 

Fenske & Kala (2014) fizeram o estudo cujo resumo cito acima e, não, o fim do tráfico não foi bom para os africanos (embora possa ter sido bom para você). O resumo nos dá uma pista de como a escravidão desenvolve uma estrutura de incentivos para lá de cruel. Como qualquer estudioso de História sabe, se há alguém que deveria pagar reparações históricas pela escravidão, este alguém são os ditadores africanos.

Claro que não vou entrar nesta discussão bizarra de reparações históricas que nunca termina porque sempre há alguém que escravizou alguém que escravizou alguém e assim por diante. Mas o mais legal do artigo acima – eu não o li, confesso – é a base de dados. Quando esta base surgiu, não imaginei que seria tão utilizada assim. Bem, jamais menospreze o poder da criatividade humana.

Instituições, escravidão e desenvolvimento econômico: não são temas novos, eu sei. Mas novos pesquisadores são sempre sinal de que muita descoberta interessante pode ser feita. Por falar nisto, tem um livro novo sobre escravidão no Brasil cujo nome me escapa agora. Assim que lembrar, falarei dele por aqui.

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Uma correlação não faz verão: o caso do Japão e dos EUA

Uma boa fonte de dados para estudantes de Economia é a base do FED. A regional de Saint Louis tem o FRED. O exemplo acima nos dá a série de tempo das importações dos EUA (em US$ milhões) de bens importados do Japão. Nada mal para um gráfico gerado em pouco mais de dois ou três cliques, não?

Percebe-se ali, por volta de 2010, uma recuperação das importações seguida de uma nova – mas menos perceptível – queda que poderia ser efeito de alguma mudança no câmbio. Então, lá mesmo na página do FRED, adicionei a série do câmbio, mudei a escala da mesma (no eixo vertical direito) e, olhe aí:

Você pode se perguntar: como é que a taxa de câmbio menos desvalorizada do Japão estimula as importações de produtos japoneses pelos EUA? Muita calma nesta hora, pois temos que observar diversos pontos antes:

a) Tendências – As duas séries apresentam (mais as importações do que a taxa de câmbio) tendência e, sabe, isto atrapalha um bocado a análise dos impactos de uma variável sobre a outra (digamos que a correlação pode ser espúria).

b) Sazonalidade – As importações dos EUA apresentam uns ciclos bem marcados, né? Eu não fiz a decomposição sazonal, mas a visualização acima não nos dá motivo para ignorar a possibilidade de que estejamos com um forte ciclo sazonal.

Além destes itens, típicos de um estudo puro das propriedades estatísticas das duas séries, eu acrescentaria um de ordem teórica.

c) Omissão de variáveis relevantes – Mesmo no mais simples sistema do mundo, o de demanda, existem, pelo menos, quatro variáveis. Relembrando: a demanda de Z é função do preço de Z, do preço do bem substituto/complementar, e da renda. Isto supondo que só há dois bens. Podemos até dizer que são três variáveis: a demanda, o preço relativo e a renda. Então, na pior das hipóteses, falta em nossa análise alguma “renda”. Assim, digamos, se a taxa de câmbio incentiva o Japão a exportar menos, mas se a renda dos EUA estimula o aumento das importações de produtos do Japão, a pergunta sobre qual efeito prevalecerá nos dá margem a pensar que o comportamento das importações, no gráfico acima, deve sofrer forte impacto do crescimento da economia norte-americana.

Ok, eu sei que não é muito, mas veja como fica o gráfico com a produção industrial dos EUA (já ajustada para variações sazonais):

Pois é. A suposição simplificadora – e não verificada por este blogueiro – é a de que boa parte do estímulo às importações de produtos japoneses pelos EUA pode ser captada pela produção industrial daquele país. Pode ser, pode não ser. De qualquer forma, a história de que a renda pode ter algum impacto talvez possa ser captada pela variável.

Ah sim, note que eu nem falei de outras variáveis importantes na determinação de produtos importados japoneses pelos EUA. 

O que fazer? Chorar?

Não. Nem precisa ligar para sua mãe e dizer que o sentido de sua vida terminou. Há muito o que fazer. Ora, vamos lá. Você acabou de conhecer uma base de dados super-legal. Além disso, você entendeu que pode fazer gráficos bonitos com relativamente pouco trabalho. Mas não se deixe levar pela beleza dos gráficos.

Há 10 anos atrás, fazer gráficos era difícil e sobrava pouco tempo para a análise estatística dos mesmos. Então, aí vão minhas sugestões:

(a) o que a teoria econômica nos diz é que variações na taxa de câmbio e no PIB dos EUA (e no PIB do Japão?) teriam algum impacto na variação das importações norte-americanas de produtos japoneses. Já fez esta matriz de correlação?;

(b) tem uma sazonalidade forte aí nas importações. Eu fiz uma estimativa preliminar com dummies sazonais entre a variação das importações e a variação do câmbio e guess what?, a relação estatística entre estas variações desaparece, o que é um sintoma de que a questão da tendência (sobre a qual falei pouco, confesso) pode ser importante. Logo, leia sobre o problema de tendências em dados macroeconômicos.

(c) pense no problema de especificação do modelo que você deseja estudar antes de se encantar com os belos gráficos (eu adorei a indicação das recessões dos EUA lá neles, ajuda um bocado a pensar nos problemas). Qual é o seu sistema de variáveis? Quanto dele você conseguirá estudar e quanto deixará para a famosa cláusula ceteris paribus? Nem tudo pode ser compreendido de uma rodada só. Qualquer economista que te diga o contrário, pode ter certeza, está mentindo.

À guisa de conclusão

Espero que tenha gostado destas poucas reflexões sobre dados e teoria. Você certamente encontrará blogueiros mais organizados, ou com dados mais interessantes (aqui, você já viu, tem papel higiênico, macarrão instantâneo, restaurantes, índices de liberdade, coisas meio diferentes do salame diário que você digere no bar). Bem, é assim que as coisas funcionam por aqui.

Até a próxima.