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As escolhas intertemporais de Jackie Chan e de Camila Pitanga são similares?

Genericamente, é. Mas, claro, os parâmetros, para cada país, precisam ser estimados. Uma analista do Euromonitor acha que chineses são menos impacientes do que brasileiros. Digo, falo de impaciência no sentido econômico, ou seja, daquela característica, intrínseca nas preferências dos consumidores, de serem mais ou menos satisfeitos com o consumo de hoje relativamente ao do futuro.

A análise, contudo, diz respeito ao consumo discricionário, lá definido como o consumo que exclui bebidas não-alcóolicas, alimentação e custos de aluguel.

Não ficou muito claro para mim, mas parece que o consumo inclui bens duráveis e não duráveis, algo que faria alguma diferença em uma aula de Economia, já que a lógica da demanda de bens duráveis é um pouco diferente da de bens não-duráveis (lembre-se que uma laranja tem uma depreciação bem distinta da de uma geladeira, para dizer o mínimo).

De qualquer forma, as tendências apontadas pela analista no pequeno texto merecem atenção e uma análise mais detalhada. Por exemplo, a questão demográfica é um determinante importante. Outro ponto que você poderia – e deveria – questionar diz respeito ao sistema de previdência do país: existe previdência privada na China? Não? Como funciona a aposentadoria lá? As regras do jogo (olha as instituições aí, leitores assíduos…) são sempre importantes, não? A demografia é importante?

Eu diria que há questões importantes quando se estuda a interação dos mercados (no nível microeconômico, claro) e também a questão da oferta e da demanda agregada nos dois países. Meus colegas da faculdade (sabiam que, modéstia às favas, somos a segunda melhor escola de Ciências Econômicas do Brasil, segundo o INEP? Veja lá o resultado do ENADE) vivem lutando contra jornalistas teimosos que custam a aceitar que o problema do país tem a ver com o capital humano. Eles, talvez por viverem em um estado dominado pela indústria, ainda compram a surrada tese de que o negócio todo é fazer a indústria lucrar (como se isso fosse possível sem mão-de-obra qualificada…). Eu sei, é um discurso que nunca se sustentou e não se sustenta e não vou fazer a pesquisa bibliográfica para este post neste debate chato: fica para o leitor este trabalho.

Mas há muitas questões interessantes aqui, além de Jackie Chan e Camila Pitanga (e boa parte dos leitores provavelmente achará a segunda mais interessante que o primeiro, creio). Caso você já tenha estudado um pouco de microfundamentação da macroeconomia, eis um prato cheio: você tem as dotações, a taxa de juros, a taxa de inflação, o PIB, tudo isto espalhado por aí (pergunte ao pessoal do Nepom, por exemplo).

Um bom exercício seria olhar para uma relação óbvia, mas que nem sempre os analistas investigam, por questões as mais diversas: a interrelação entre os padrões de consumo intertemporal na China e no Brasil. Ok, você pode me dizer que não há impacto (mas eu não vi os dados e nem suas estimativas). Talvez o melhor seja olhar para as restrições ao crédito aqui e lá (ou acolá).

Qualquer resposta a perguntas sobre consumo na economia, veja bem, suscita, no mínimo, a necessidade do uso de uma base de dados rica em variáveis. Talvez minha(s) pergunta(s) seja(m) ruim(ns), mal formulada(s) ou errada(s). Ou talvez não. Mas eu te digo uma coisa: o que tem de pergunta interessante aguardando testes empíricos. Comece com este texto didático do meu amigo e ex-colega de faculdade(s), o Fábio.

Pois é. No final do dia, eu quero mesmo é saber do consumo de macarrão instantâneo japonês. Este sim, tem o tempero que gostamos aqui em casa. Aliás, é um baita mercado, como você descobrirá aqui. É, acho que já falei disto aqui, há alguns posts. Quando começo a ficar repetitivo, é hora de parar. Então, até a próxima.