Como anda nossa oferta (e nossa demanda) de energia elétrica?

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Eis que a chuva se aproxima neste final de semana de Carnaval. Eu, como um exímio folião, ficarei em casa, descansando, assistindo filmes, dormindo, lendo ou até, quem sabe, estudando. Afinal, a vida não se ganha por si só, né?

Shazam!

Mas o tempo aí meio fechado me faz pensar sobre se vem ou não chuva. Não só isso. Na verdade, eu me pergunto sobre a oferta de energia elétrica. O governo tenta, de todo o jeito, parar de falar do tema. Até tentaram ganhar uns trocados falando do pobre crescimento do PIB hoje (o ministro Mantega, aquele que erra 11 entre 10 previsões que faz, tentou inverter a piada, dizendo que analistas teriam que passar o Carnaval revendo suas previsões…).

O que o governo pensa da demanda de energia elétrica? Em 2012, por exemplo, ele lançou um estudo no qual citava a nossa velha amiga, a elasticidade:

Deve, ainda, ressaltar-se, com relação à elasticidade-renda do consumo de energia elétrica, que, mantidas as demais condições de contorno e o período considerado, ela tende a assumir valores superiores para cenários econômicos de menor crescimento do PIB e valores inferiores para cenários de maior expansão da economia. Por outro lado, a elasticidade não pode ser analisada pontualmente em um determinado ano e, em casos extremos, como sejam o de um crescimento do PIB próximo de zero em determinado ano  ou o de um decréscimo do consumo, a elasticidade perde o sentido.

Bom, elasticidade é elasticidade e eu não entendi bem a idéia de não se olhar para a elasticidade no caso de queda no consumo. Talvez o que se queira dizer é que o consumo de energia elétrica não cai muito, embora eu acredite que deva haver quedas marginais (eu bem que deveria ter guardado minhas contas de luz…uma vez acho que feiz uma estimativa desta, para usar em sala de aula…bons tempos…). Mas vamos em frente.

A Tabela 16 mostra a projeção do consumo total de eletricidade (incluindo a autoprodução), assim como valores médios da elasticidade-renda resultante, por quinquênio, e valores anuais da intensidade elétrica da economia. Registram-se valores para a elasticidade-renda do consumo de eletricidade decrescentes ao longo do tempo. No primeiro quinquênio, a elasticidade é um pouco superior à unidade (1,06) para um crescimento do PIB de 4,5% ao ano em média e, no segundo período, a elasticidade é inferior à unidade (0,93), resultando uma elasticidade-renda nos 10 anos de 0,99. Dessa forma, a intensidade elétrica da economia aumenta ligeiramente nos primeiros cinco anos, mas depois decai e, no final do horizonte decenal, fica praticamente igual ao valor inicial de 2012.

O documento tenta nos dar uma projeção (baseado em algumas hipóteses, claro) da demanda para os próximos anos. Depois disto, veio a piada sem graça de dizer que a conta teria um desconto que, no final, virou uma provável dívida com o BNDES (salvo engano) para manter a promessa desnecessária e, sim, vou dizer, populista até não poder mais. Isto significa que a demanda estimada neste documento perdeu validade? Não exatamente, mas o fato é que ela certamente aumenta, o que o ministro Mantega deve olhar com bons olhos, pensando no PIB.

E a oferta?

Como nós sabemos e, espero, o ministro Mantega também, nem só de demanda vive a quantidade de equilíbrio de energia elétrica de um país. Então, vejamos a oferta (tentei achar um documento similar ao de demanda no pouco tempo que tenho mas não tive sucesso) segundo a reportagem de uma revista nacional. Não dá para ficar otimista.

O nível baixo dos reservatórios das hidrelétricas e o aumento do consumo provocado pela onda de calor têm provocado a transferência de grande quantidade de energia da região Norte para o Sul e Sudeste, onde o nível dos reservatórios está mais crítico. De acordo com especialistas, quanto maior o bloco de energia transportado pelas linhas de transmissão, mais o sistema elétrico fica vulnerável a falhas. Assim, os atrasos nos projetos de geração e transmissão de energia têm feito falta nesse momento de maior estresse do sistema.

Segundo o ONS, nossos reservatórios não estão lá estas coisas (detalhes aqui). Mas vejamos o boletim desta semana.

Na semana entre 22 e 28 de fevereiro a passagem de duas frentes frias pela região Sul, e uma delas pelas regiões Sudeste e Centro-Oeste, ocasionou chuva fraca a moderada nas bacias dos rios Uruguai, Jacuí e Iguaçu e chuva fraca nas bacias dos rios Paranapanema, Tietê, Grande e Paranaíba. A bacia do rio Tocantins permaneceu apresentando pancadas de chuva.

Em comparação ao mês de Janeiro, o mês de Fevereiro apresentou afluências inferiores em todos os subsistemas à exceção do subsistema Norte. Cabe destacar que, em Janeiro, no subsistema SE/CO verificou-se o 3º pior valor de energia afluente média mensal entre todos os meses de janeiro do histórico de 84 anos, e que Fevereiro apresentou o 2º pior valor dentre todos os meses de fevereiro do mesmo histórico de energias afluentes. No subsistema Nordeste a energia afluente em fevereiro foi a menor registrada no histórico.

Novamente, nada muito bonito. Olhando para o céu, ainda vejo nuvens, mas nada de chuva. Parece que estão se dissipando. Eu queria mesmo era ter uns dados de séries de tempo para brincar (há alguns lá, como a carga mensal de energia, mas eu teria que estudar para entender o que ela mede, exatamente e, bem, não sou da área).

No final do dia, demanda e oferta vão se encontrar em um ponto compatível com um crescimento do PIB sustentável? Não sei. Você quer um “chute”? Bem, sou pessimista. Acho que Mantega ri muito se entender bem do que está rindo. O desejo de estimular a demanda como fetiche não me parece um bom modelo de crescimento. Vejam aí nossa oferta de energia, em estado bem precário. Uma coisa é você sofrer com um tsunami gigantesco e ter uma queda na oferta porque a sociedade reclama da energia nuclear. Outra, completamente diferente, é você sequer conseguir gerar energia com o potencial que tem. Este, sim, é um problema.

Bom, vamos ver se o Carnaval nos traz algo interessante em termos dos reservatórios.

Competição e postos de gasolina

Marcelo Soares, lá no livro de caras, mandou-me (e a muitos outros) este interessante link para um artigo científico sobre postos de gasolina e competição.

Vamos ver o resumo?

Usa-se um tradicional modelo empírico de entrada para investigar o grau de competição em mercados locais de postos de gasolina no Brasil. Mostra-se como o número de firmas nos mercados varia com mudanças na demanda e na competição com dados para 2.590 municípios considerados mercados isolados. Os resultados mostram alteração na conduta competitiva com o aumento no número de postos, sobretudo até a entrada do quinto posto. O modelo utilizado não requer dados de preços e, a partir de características dos mercados, tais como população e número de firmas, pode indicar se há um padrão geral de conduta anticompetitiva no varejo de combustíveis em pequenos municípios brasileiros.

Com uma base de dados desta, o mínimo que se pode fazer, caso você goste do tema, é ler o artigo, não é? Eu não conheço este modelo teórico que eles usam, mas se é possível tirar conclusões interessantes, mesmo que não se tenha a variável preço, eu fico intrigado. Bom, só lendo para ver do que se trata.

p.s. Mudando completamente de tema, eu não conheço muito sobre estas árvores de decisão e análise de regressão, mas o tema é bem comum na comunidade que usa R.

Granger-Causalidade e a Roseli de Ribeirão (Momento R Literário do Dia)

confissoesderoseli

 

Roseli é uma pessoa muito próxima. Professora e amiga, tem um blog de nome sugestivo (eu diria, insinuante). Quando a conheci, conversávamos sobre alguma coisa relacionada à Econometria aplicada ou à Teoria Econômica. Ela logo me conquistou com um elogio:

– Você é um novo-clássico!

Jamais esqueci esta cantada! Embora ela negue até hoje que tenha sido uma cantada, eu, no meu mais íntimo sentimento, percebo que, sim, Roseli tinha me oferecido seu livro de Econometria. Do Johnston. Na época, sem DiNardo.

Estudamos na mesma sala por um bom período. Estudamos até a morte para a prova do Pastore (quase literalmente morremos de tanto estudar…ainda me lembro da Roseli, lá pelas madrugadas, recitando a dinâmica do modelo de Mundell-Fleming para mim, que a sacudia para que não dormisse).

O incrível é que ela sempre me influenciou e, como já disse um aluno, era a única que me trucava. Conquistou este direito no dia em que quase entortou o pneu do Fiat ao nos dar carona (a mim e a um petista famoso hoje em dia…cujo nome não revelarei). Foi um happy hour que deve ter destruído boa parte do fígado dos três mestrandos.

Bons tempos.

Um dia Roseli me chamou no canto.

– Clau-Clau, quero te fazer uma confissão.

E eu, assustado:

– O que foi?

E ela, ansiosa, suando:

– Eu gosto de séries de tempo. Mas com raiz unitária.

Foi uma revelação e tanto! Epifania? Sei lá. Mas sei de uma coisa. foram-se anos com Roseli me desafiando, promessas mútuas de que faríamos um artigo juntos (ainda não o fizemos) e uma distância física que não venceu a amizade construída lá, no pré-plano Real, em 1993.

Mas eis que chegou o dia! Hoje, Clau-Clau Granger-causou Roseli! Finalmente, alguma marca eu deixei nesta dama de ferro! Ela começou a usar o R por conta dos meus posts!

Viram só? Tem mulher que é louca também, leitores! Não sou só eu que fico aqui ferozmente digitando sobre o R ou sobre Economia. Roseli é uma professora dedicada, que sofre com as coisinhas ruins do dia-a-dia da Academia. É uma pessoa que a gente respeita logo, logo. Uma pessoa, enfim, com uma cabeleira invejável. E um grande coração.

Bom, agora também com R.

Até mais!

Tem gente que acha que o importante é o número de funcionários públicos por quilômetro quadrado

Under the emperor Diocletian (just as under the emperor Yong-Le) ‘tax collectors began to outnumber taxpayers’, said Lactantius, (..). (Matt Ridley, The Rational Optimist)

Parece piada, mas não é. Em homenagem aos que difundiram esta bizarra e divertida idéia, fica o trecho acima, para mostrar que é preciso pensar em mais de duas variáveis ao se falar dos problemas de um país.

Informação quase gratuita. Serviço de utilidade pública deste blog para os pterodoxos que não terminaram de ler o Mankiw porque acharam que tinham que transformar o mundo antes de compreendê-lo.

Curvas de Indiferença em R (Momento R do Dia)

Você conhece a função de utilidade CES? Ela é usada também no contexto da Teoria da Produção. Um excelente resumo está aqui.

Agora, é o seguinte. Eu sou péssimo para desenhar gráficos. Minha letra não é de menina e meus gráficos não são uma obra-prima. Nem para filmes B servem. Então, eu, como sou esperto, aprendo algo que me ajuda a fazer belos gráficos.

Neste exemplo, você não precisa instalar qualquer pacote do R. Apenas replique os comandos abaixo (literalmente copie e cole no seu script). Ah, use o RStudio para não perder os gráficos e poder observá-los com calma.

# CES (caso 1)

u <- function(x, y) (((0.5*x^(0.8))+(0.5*y^(0.8)))^(1/0.8))

x <- seq(.1, 40, by=.5)
y <- seq(.1, 40, by=.5)
a <- c(1,5,10,15, 20, 30)

persp(x, y, outer(x, y, u), ticktype=”detailed”)
contour(x, y, outer(x, y, u), levels=a)
# caso 2 ((rho -> 0))

u <- function(x, y) (((0.5*x^(0.02))+(0.5*y^(0.02)))^(1/0.02))

x <- seq(.1, 40, by=.5)
y <- seq(.1, 40, by=.5)
a <- c(1,5,10,15, 20, 30)

persp(x, y, outer(x, y, u), ticktype=”detailed”)
contour(x, y, outer(x, y, u), levels=a)
# caso 3 ((rho -> 1))

u <- function(x, y) (((0.5*x^(0.99))+(0.5*y^(0.99)))^(1/0.99))

x <- seq(.1, 40, by=.5)
y <- seq(.1, 40, by=.5)
a <- c(1,5,10,15, 20, 30)

persp(x, y, outer(x, y, u), ticktype=”detailed”)
contour(x, y, outer(x, y, u), levels=a)

# caso 4 (delta -> 1)

u <- function(x, y) (((0.98*x^(0.99))+(0.02*y^(0.99)))^(1/0.99))

x <- seq(.1, 40, by=.5)
y <- seq(.1, 40, by=.5)
a <- c(1,5,10,15, 20, 30)

persp(x, y, outer(x, y, u), ticktype=”detailed”)
contour(x, y, outer(x, y, u), levels=a)

# caso 5 (rho -> -infinito )

u <- function(x, y) (((0.98*x^(-5.99))+(0.02*y^(-5.99)))^(-1/5.99))

x <- seq(.1, 40, by=.5)
y <- seq(.1, 40, by=.5)
a <- c(1,5,10,15, 20, 30)

persp(x, y, outer(x, y, u), ticktype=”detailed”)
contour(x, y, outer(x, y, u), levels=a)

Obviamente, para cada linha executada (não existe almoço grátis: pesquise), você conseguirá obter o gráfico da função utilidade em três dimensões e as curvas de indiferença em duas.

O interessante da função CES, note bem, é este aspecto “geral” dela. Você tira uns limites para lá ou para cá e a função se transforma em alguns dos principais casos analisados nos livros-texto.

Claro, um professor de Cálculo pode fazer as contas dos limites para te convencer, mas eu, que sou menos hábil com limites, prefiro tentar a mesma coisa com gráficos. Tem sempre o herege, o infiel, que não acredita que da CES sai uma Leontief (conhecida pelos meus alunos como “Complementares Perfeitos”, um sinônimo mais usado nos primeiros anos do curso…depois se eu falar Leontief, o sujeito entende…ou sai da faculdade).

Bem, veja por você mesmo (reproduzo as curvas de indiferença do caso # 5 acima.

CES_Leontief

É, rapaz, eu bem que avisei, não foi? Gostou do que viu? Então faz aí umas Cobb-Douglas, por exemplo. Veja o que consegue gerar na tela do seu computador.  De nada.

 

Datagerais e IBGE – pesquisando cidades lendárias. Episódio de hoje: Campo Belo

Não atualizam o site do Datagerais? O PIB dos municípios parou em 2009 lá no portal que agrega informações (não todas, mas algumas) sobre Minas Gerais. Ou é isto mesmo? Estamos sem medidas de PIB mais recentes?

Ah sim, eis a dica para se pesquisar, por exemplo, Campo Belo (para alguns, da faculdade, conhecido como Campoh Beloh) lá no Datagerais.

Para os fanáticos por imagens:

campohbeloh

É, eu sei, mas não é minha culpa. É a tal Campo Belo mesmo.

Outra opção é usar um pouco mais o Tico e o Teco (e o Google) e ir ao IBGE. Dentre outras, descubro que os casamentos e divórcios ainda preservam as famílias por lá. Obviamente, eu duvido que você sabia que esta cidade tinha mais de 14 mil automóveis registrados, heim? Você sabia? Claro que não!

Ok, embora a Wikipedia me informe que desconhece a bandeira de valoroso bastião da resistência bandeirante no interior destas Minas Gerais, não podemos deixar de admirar o brasão da patota.

Ok. Gostou? Quer que o professor comente sobre sua cidade aqui usando um pouco de estatística, gráficos e outros brinquedos legais? Deixe um comentário. Quem sabe você é agraciado na próxima, né?

Ainda o Plano o Real

Excelente editorial do Estadão sobre o Plano Real. Destaco:

Só um BC revigorado e com bons instrumentos poderia ter vencido com rapidez, como venceu, os surtos inflacionários de 2002-2003 e de 2009. Em 2000, a Lei de Responsabilidade Fiscal completaria a reforma.

Então, eu sei que tem um povo que acha o Banco Central um vilão malvado e feio, mas eu sou daqueles que ainda agradece aos bons funcionários do BC quando eles nos ajudam a minimizar efeitos de crises. Eles podem errar, eles podem enfrentar interesses políticos e gestões temerárias, mas, bem, eles fazem parte desta história de 20 anos aí, ok?

p.s. o governo que se seguiu à FHC nunca foi muito entusiasta da Lei de Responsabilidade Fiscal. Por que será? Humm….

Os consumidores percebem mudanças no ciclo econômico? (pensamentos sobre a Abenomics)

Tenho falado muito por aqui sobre a Abenomics. Hoje vou usar os dados da economia japonesa para outro exercício que, basicamente, é uma aplicação econométrica popular e, digamos, muito útil para iniciar uma análise de dados. Em outras palavras: pode até ser que você não siga com os resultados depois mas, bem, alguém tem que começar a pesquisar as relações para, depois, poder descartá-las ou criticá-las, certo?

Encare, pois, este texto, como um exercício de Econometria Aplicada. A pergunta que se pretende responder é a do título (obviamente). Então, em primeiro lugar, vejamos um pouco sobre o ciclo econômico.

Ciclo Econômico

O ciclo econômico é o objeto de desejo do economista, par excellence. Melhor dizendo, o economista ficaria muito feliz se entendesse os ciclos econômicos, detalhando seu (e nosso) conhecimento sobre suas causas, efeitos, etc. Uma das formas de fazer isto é por meio da criação de variáveis que possam ter alguma correlação com o ciclo. Estes índices, por assim dizer, podem ser testados afim de se verificar sua efetiva utilidade como previsores neste divertido, mas difícil exercício.

Em primeiro lugar, vejamos esta didática – mas não necessariamente simples – explicação sobre os índices de ciclos econômicos da economia japonesa nos dá o tom.

The indexes of business conditions are summary measures for aggregate economic activity. They are designed to be a useful tool for analyzing current conditions, and for forecasting future economic conditions. They are indexes that combine the behavior of key cyclical indicators that represent widely differing activities of the economy such as production, employment, and many more.

The composite indexes are used to identify the volume of overall business activities by composing percentage changes of selected indicators. On the other hand, diffusion indexes are used to determine turning points of the business cycle, among other purposes, by counting changes in directions of selected indicators.

Ok, sem muitas novidades. Em resumo: quer-se identificar ciclos econômicos. Os mais velhos devem se lembrar do livrinho do Claudio R. Contador, de 1977, no qual o meu xará calculava indicadores como este para a economia brasileira. É, foi publicado pelo IPEA lá nos tempos de inflação alta.

Bom, mais um pouco.

  There are three types of composite indexes:

1) The leading CI
This tends to precede the coincident CI by a few months, and is used to anticipate changes in the direction of the economy.

2) The coincident CI
This coincides with the business cycle, and is used to identify the current state of the economy.

3) The lagging CI
This tends to lag behind the coincident CI by about six months,and is used to confirm turning points and business cycle phases.

Então temos três tipos de índices. Um que precede o ciclo econômico (ou que pretende precedê-lo), um que coincide com o mesmo e, finalmente, um que vem com algum atraso, geralmente  seis meses, depois do ciclo. Em outras palavras, digamos que há uma queda na atividade econômica (medida pelo PIB, por exemplo). Então, o primeiro índice indicará uma queda antes da mesma, o outro deverá cair no mesmo momento e, finalmente, o último índice mostrará a queda com algum atraso.

Em 1977, o IPEA publicava este útil estudo sobre ciclos econômicos...

Em 1977, o IPEA publicava este útil estudo sobre ciclos econômicos…

Temos três formas de medir a atividade econômica, portanto e, sim, defasagens são importantes! Eu sei que você já leu isto no livro de Econometria e se esqueceu. Bem, dê uma olhada lá. Vamos em frente.

A confiança está no fio do bigode…

…dizia o seu avô, não? Mas vamos falar da confiança relacionada ao futuro da atividade econômica? É possível que um aumento no sentimento de confiança da população seja sinônimo de aumento de consumo hoje? Ou seja, ainda que não saibamos ao certo o que ocorrerá ao futuro (que a Deus pertence, para lembrar outro dito popular), seria possível que já nos antecipássemos ao aumento futuro do PIB que esperamos (e, portanto, antecipamos) e já aumentássemos o consumo neste instante?

A resposta, veja, é um sonoro “sim”. É possível que o futuro incerto – porém estimado por qualquer um – possa afetar suas decisões de consumo hoje. Caso alguém espere um filho para daqui a seis meses, ainda que as chances de complicações na gravidez existam, é provável que já comece a ajustar seu consumo hoje. Isto não quer dizer que não haverá aborto e nem que a criança nasça com problemas ou que a mãe venha a falecer no parto alterando, em todos os casos citados, o consumo médio do pai azarado. Mas a simples expectativa quanto ao futuro já alterou o consumo presente.

O tema não é novo em Economia e, claro, há quem ganhe dinheiro construindo índices de confiança ou fazendo pesquisas de opinião. Em nosso caso, temos o índice de confiança do consumidor japonês já ajustado sazonalmente. Um pouco sobre este índice:

  • Consumer perceptions of the following four categories are surveyed: overall livelihood, income growth, employment and willingness to buy durable goods. Respondents are asked to evaluate on a scale of one to five what they consider the prospects to be for the four subjects over the next six months.

  • Points are then allotted in accordance with the one-to-five scale for each category based on the anticipated effects on consumption. The consumer perception index is calculated by computing the weighted average of the points of the results (component ratio).

Consumer perception index:
 The following evaluation points in the five response categories are multiplied by the component ratio(%) and totaled: positive responses (improve +1), (improve slightly +0.75); neutral response (no change +0.5); negative responses (worsen slightly+0.25), (worsen +0).
  • The consumer confidence index (original figure) is then calculated by simply averaging four consumer perception indexes (original figures).

(note) Before the April 2004 survey, the consumer confidence index was the symple avarage (simple average) of five consumer perception indexes including perception of price. From the April 2004 survey, price expectation was introduced as a quantitative questionnaire.

Pronto. Fiz uma pequena correção no texto acima, mas você pegou a idéia, não? Faz-se uma pesquisa amostral com algumas perguntas e constrói-se o tal índice. As dimensões envolvidas no cálculo são basicamente relacionadas a aspectos do ambiente econômico.

Será que o ciclo econômico é importante para os consumidores?

É de se esperar que a resposta seja positiva, pelo que já foi dito acima. Estudar esta relação tem vários aspectos importantes, mas vou me ater ao aspecto didático-pedagógico do mesmo. Meu objetivo aqui é falar um pouco sobre como iniciar a pesquisa desta relação entre as duas variáveis.

A hipótese que me vem à cabeça é a seguinte: será que um aumento ou uma queda (enfim, variações) do ciclo econômico tem algum impacto (ou seja, causa variações) na confiança dos consumidores?

Com todas as limitações metodológicas, as variáveis escolhidas foram o índice coincidente e, claro, o índice de expectativas. Transformá-los em variações é muito simples. Os comandos, em R:

dlconf=diff(log(cons_confidence_index))
dlcoin=diff(log(coincid))

Pronto. Temos as variações relativas de ambos. É fácil ver – neste texto de internet, apenas visualmente, sem testes, ok? – que ambas as séries não apresentam tendência.

abe_consumo

Vamos fazer um exercício aplicado em R com o pacote lmtest, ideal para uma bateria de testes econométricos daqueles que seu professor adora pedir, por exemplo, o teste de causalidade de Granger. Basicamente, o conceito envolve a idéia de que uma série de tempo pode “Granger-causar” a outra se existirem evidências de que defasagens desta ajudem a prever aquela.

A amostra foi delimitada para 2006.01 – 2013.12 (dados mensais) por pura conveniência (as amostras têm comprimento distinto no tempo). Feito isto, fiz primeiro o teste de causalidade de Granger para diferentes comprimentos de defasagem (de 1 a 6), para ver se a confiança do consumidor “Granger-causa” o índice de confiança. Minha hipótese é que isto não deve ocorrer, mas sim o oposto. Então, como diria Dexter, vamos por partes.

No R, o comando abaixo foi alterado apenas no “order”. Fiz de 1 a 6.

library(lmtest)
grangertest(window(dlconf,start=c(2006,1)),window(dlcoin,start=c(2006,1)), order=4)

Vejamos os resultados para a hipótese nula de que defasagens da confiança “Granger-causam” o ciclo econômico.

grangertest(window(dlconf,start=c(2006,1)),window(dlcoin,start=c(2006,1)), order=6)
Granger causality test

Model 1: window(dlcoin, start = c(2006, 1)) ~ Lags(window(dlcoin, start = c(2006, 1)), 1:6) + Lags(window(dlconf, start = c(2006, 1)), 1:6)
Model 2: window(dlcoin, start = c(2006, 1)) ~ Lags(window(dlcoin, start = c(2006, 1)), 1:6)

Res.Df    Df        F     Pr(>F)
1      77
2      83   -6   1.1819   0.3248

Os resultados nos dizem que dificilmente a inclusão das seis defasagens da confiança “Granger-causam” o ciclo (embora haja toda aquela polêmica, estou pensando no p-valor).  Claro que devemos comparar estes resultados com o teste oposto, ou seja, o de se o ciclo “Granger-causa” a confiança. Usando seis defasagens:

grangertest(window(dlcoin,start=c(2006,1)),window(dlconf,start=c(2006,1)), order=6)

Granger causality test
Model 1: window(dlconf, start = c(2006, 1)) ~ Lags(window(dlconf, start = c(2006, 1)), 1:6) + Lags(window(dlcoin, start = c(2006, 1)), 1:6)

Model 2: window(dlconf, start = c(2006, 1)) ~ Lags(window(dlconf, start = c(2006, 1)), 1:6)

Res.Df    Df             F    Pr(>F)
1             77
2             83    -6 4.5306   0.0005529 ***

Signif. codes: 0 ‘***’ 0.001 ‘**’ 0.01 ‘*’ 0.05 ‘.’ 0.1 ‘ ’ 1

Bem diferente, não? Aqui temos que o passado do índice coincidente (que estou usando como proxy do ciclo) ajuda a explicar a confiança atual. Agora que você já viu como se faz os comandos em R, veja um resumo dos resultados para todas as defasagens.

H0: Confiança não-Granger causa Atividade Econômica

Defasagens    P-Valor

1                    0.23
2                    0.49
3                    0.43
4                    0.56
5                    0.46
6                    0.32

H0: Atividade Econômica não-Granger causa Consumo

Defasagens    P-Valor

1                    0.1469
2                    0.0006786
3                    0.00003838
4                    0.0001213
5                    0.0005903
6                    0.0005529

Temos vários resultados e, a maioria deles, diz-nos que a causalidade é da atividade econômica para a confiança. O único resultado mais incerto é da primeira defasagem, no qual esta relação de causalidade parece tornar-se mais fraca, no sentido de que nem a confiança Granger-causa a atividade econômica e nem o contrário.

Algumas limitações e…

O leitor mais versado em Econometria certamente vai levantar alguns pontos. Há os que preferirão discutir a questão dos resíduos destas doze estimações e eles têm minha simpatia: sim, para se aprofundar mais a análise é necessário checar isto. Outros preferem usar algum daqueles critérios de informação (como o de Akaike (AIC) e afins). É outra opção e a literatura é cheia de referências sobre quando eles são ou não úteis.

Há quem queira ver a necessidade de se incluir dummies sazonais e isto pode ser feito no teste (mas, no R, teríamos que fazer isto de outro jeito). O teste de Granger comporta a inclusão de termos deterministas como dummies. Entretanto, eu não fiz nenhum exercício de monitoramento destas séries cujo comprimento é, convenhamos, bem reduzido para que os resultados valham a pena todo o trabalho.

…pontos teóricos para se costurar e…

Digamos que este exercício tem alguma validade empírica – e eu acredito que, sim, ele tem – e que queiramos explorar um pouco mais este resultado em termos de nossas teorias sobre como o consumo varia ao longo do tempo.

O resultado acima nos diz que a expectativa do consumo é uma variável relacionada com a atividade econômica. A pergunta seguinte seria: como se formam estas expectativas (uma pergunta bem diferente de “como se constrói um índice de expectativas do consumidor”). Qual o processo subjacente desta expectativa de consumo na cabeça do indivíduo? É um processo estocástico? Não? Como ele deveria ser modelado?

E o que dizer da influência da atividade econômica sobre a expectativa do consumo? É importante? Como é que ela opera? Qual a explicação destes resultados? E aquela história de choques temporários e permanentes (e, portanto, da renda permanente)? Como ficam estes conceitos nesta nossa análise? E a expectativa de inflação? E a taxa de câmbio? O pós-guerra faz diferença? Daí por diante são diversas avenidas que se pode tomar para a empreitada da pesquisa.

…nossa conclusão

A discussão sobre a política do primeiro-ministro Abe envolve, sim, a questão das expectativas quanto ao futuro da economia. A perspectiva de queda do consumo devido ao aumento do imposto que se aproxima (em Abril) não deve ser desconsiderada. Quanto disto já se traduz em queda de consumo atual é algo que eu gostaria de pesquisar.

Há quem pense que meu tempo em pesquisa seja apenas um estorvo e que eu deveria esfregar o chão da sala de algum outro professor ou que eu deveria me dedicar ao delicado exercício de tirar o pó de cadeiras. Pode ser. Mas ainda acho que a maior eficiência está na divisão de trabalho utilizada de forma inteligente. Qual é esta melhor forma, bem, vocês, leitores, podem me ajudar a descobrir. Acho que é um problema hayekiano bem típico. Espero que, no final de tudo, você tenha percebido mais um pouco como a Economia pode ser interessante.

Preços de imóveis: versão Brasília

O Cinelli continua com o excelente trabalho – em R, não? – de pesquisa sobre preços de imóveis em Brasília. Digo, não sei se ele usa apenas o R, mas sei que ele certamente está a maximizar suas chances de emprego em boas empresas.

Outro dia eu falei de preços de imóveis por aqui, mas o Cinelli está com uma análise bem mais detalhada (pena que, por enquanto, só Brasília). Acompanho com muita curiosidade.

Abenomics, o café e a cerveja

Eis a notícia:

With just over 1,000 stores covering practically every prefecture, Starbucks is a coffee powerhouse in Japan. Since opening its first store in Tokyo in 1996, the company has managed to adapt its business model to suit Japanese tastes with seasonal flavors, expanded (alcoholic) menu options and utilizing Japan’s unique architecture. Last week,

Starbucks went one step further in its Japanese expansion plan by announcing that it would promote 800 temp workers to full-time positions, which netizens applauded as a move to create pressure on the Japanese market to provide better benefits to workers.

Starbucks, which currently has about 1,800 full-time employees, revealed their plan last week to promote 800 temp workers on April 1 during an interview with TV Tokyo. The move will increase numbers to 2,600 full-time employees, a more than 40% increase in headcount. The company said they will end its system of hiring so-called “permatemp” employees and instead only hire full-time workers from now on. This isn’t the first time Starbucks has taken a stand for its employees like how CEO Howard Schultz has pushed for providing health insurance for part-time workers in the U.S.

Ok, ok. Tem mais na notícia e tem notícias não tão animadoras para outros steores da economia. Enquanto o povo do café segue otimista, a patota das grandes cervejarias não está tão feliz assim.

Brewers in Japan face an April sales tax increase, stagnant wages and an aging population, the same challenges Abe’s monetary easing and stimulus spending must overcome to sustain a recovery.

Kirin Holdings Co., Japan’s biggest beverage maker, and competitor Asahi Group Holdings Ltd. forecast 2014 net income that was at least 13 percent less than analysts estimated. Both blamed the sales tax set to rise to 8 percent from 5 percent, a sign that they lack confidence that “Abenomics” will offset plans to double the levy.

“In the old days, beermakers relied on increasing sales as the economy grew,” said Mikihiko Yamato, deputy head of research at JI Asia in Tokyo. “Now, beer and liquor makers that target domestic consumers can’t raise profit margins because they are stuck competing in a shrinking market.”

Ok, cervejarias tradicionais enfrentarão o aumento do imposto sobre consumo em Abril (que também afetará os consumidores da Starbucks). Entretanto, a reação de ambos é distinta. Por que? Ora, cada setor tem suas peculiaridades de custos e benefícios, não?

A política do Primeiro-Ministro Abe tem melhorado o humor dos investidores? Vejamos  novamente nossos indicadores: a bolsa e a taxa de câmbio.

Sim, nós já vimos estas duas séries por aqui antes. Eu queria mesmo era encontrar os dados referentes à Starbucks para ver se dá para visualizar algo lá no Japão diante destas notícias. Infelizmente, não sou tão familiarizado assim com séries de dados de empresas em bolsas (mas se alguém quiser me fornecer as séries, farei a análise aqui com prazer).

Como será que anda a confiança do consumidor japonês nestes últimos tempos? Não consegui uma série rápida, mas consegui o famoso índice Tankan de confiança dos empresários.

tankan

Basic settings
Output year range : 2010-2013   New frequency to be converted : None   Conversion method : None
Recession bars : On   Stacked bar : None   Reverse scale : None

Name of time-series
[Statistical category]
Unit Scale Color Line style Line width Mark type
DI/Business Conditions/Large/Manufacturing/Actual result
[TANKAN/Judgement Survey]
% points Left Solid Normal None
DI/Business Conditions/Large/Nonmanufacturing/Actual result
[TANKAN/Judgement Survey]
% points Left Solid Normal None
DI/Business Conditions/Small Enterprises/Manufacturing/Actual result
[TANKAN/Judgement Survey]
% points Left Solid Normal None
DI/Business Conditions/Small Enterprises/Nonmanufacturing/Actual result
[TANKAN/Judgement Survey]
% points Left Solid Normal None

*1: Change from previous period   *2: Change from previous year   *3: Percent change from previous period
*4: Percent change from previous year     *5: Annualized percent change from previous period

Como não sei se o link expira, resolvi deixar um “copy-and-paste” com o link original aqui. Aparentemente, a despeito das reclamações do setor cervejeiro, o gabinete atual não parece ter muito do que reclamar. Bom, não por enquanto (ah sim, novas mudanças no índice aqui).

UPDATE: convertendo os dois para a frequência trimestral, eis o diagrama de dispersão para os dados desde 2010 a 2013.

tankan_nikkei

 

Depois eu prometo procurar a expectativa dos consumidores (juro que já vi isto em um artigo sobre a economia japonesa…).

Seu dinheiro vai para o governo em impostos e…como eles são gastos?

Mansueto tem um texto muito importante hoje, no blog dele.

Há duas coisas que tenho certeza. Primeiro, apesar de todo o tipo de controle que hoje existe no Brasil sobre o uso de recursos públicos, o custo das políticas públicas não é transparente. Um dos meus hobbies favoritos é perguntar para pessoas que defendem a tese que o orçamento no Brasil é transparente o custo de vários programas do setor público. Rapidamente consigo mostrar como é difícil saber o custo dos programas públicos no Brasil.

 

Segundo, esse problema de falta de transparência no Brasil é muito maior no caso de politicas setoriais do que nas políticas sociais. Quando se olha o crescimento da gasto público não financeiro, nota-se de forma clara que os grandes programas sociais (bolsa família, LOAS, etc) pelo menos aparecem de forma clara no orçamento e como são despesas de caráter obrigatório, os programas de transferências de renda não geram passivos (restos a pagar) para os exercícios fiscais seguintes.

 

Como se vê, Mansueto sabe do que fala. No primeiro ponto: cadê o custo? No segundo, as famigeradas políticas setoriais. Eu imaginaria até que o modelo de grupos de interesse organizados e desorganizados (clássico tema de Public Choice) se aplica. Grupos de interesse setoriais têm menores custos de organização do que, digamos, os consumidores do Brasil, por uma questão matemática elementar: são em menor número.

Estes grupos ganham às custas da sociedade? Eu e o Leo Monasterio, há uns 10 anos ou mais, fizemo-nos esta pergunta. Curiosamente, deve ter sido um dos primeiros artigos empíricos de rent-seeking aplicado ao Brasil e muita gente tem tratado recentemente do tema sem fazer o dever de casa elementar: a revisão da literatura (em Ciências Econômicas, como em qualquer outra área, é comum vendo todo mundo querendo ser pai da criança quando a mesma é um bebê lindinho e popular…). Já mostrávamos lá naquele artigo boas evidências econométricas de que grupos de interesses atuavam no Brasil, gerando queda na prosperidade econômica.

De certa forma, não é tão difícil entender a lógica dos movimentos sociais atualmente: todos querem fazer rent-seeking. Nenhum, praticamente, deseja atuar por todos os cidadãos, mas apenas para seus associados (outra lógica clássica: a dos sindicatos…).

Faz parte da democracia dar voz a todos e, claro, também faz parte da democracia ser ineficiente quando existem milhares de grupos específicos se preocupando em repartir as receitas do Estado. O efeito? Provavelmente aumentos da carga tributária. No caso do Brasil, isto revolta a população que, claro, elegerá qualquer um que lhes dê um quinhão disto tudo (eis aqui alguma controvérsia sobre este segundo ponto). Resultado disto: novamente o mesmo efeito. Bom, eu estou imaginando que o governo não vai diminuir seus gastos, né?

Só para não ficar sem conclusão, o Mansueto não toca em um tema (mas nem é objetivo dele fazê-lo) que pode ser potencialmente interessante: por que é que lá nos EUA o controle dos gastos públicos é maior do que aqui? Em outras palavras, o que é que gera um controle mais eficiente de gastos públicos? São as instituições (no sentido de Douglass North)? Há uma literatura bem vasta sobre o tema e vale a pena pensar sobre este problema. Afinal, o mundo não é simplesmente G-T, né?

Imóveis em Belo Horizonte: alguns dados

Considere os índices (Jul/94 = 100) da pesquisa do IPEAD para preços e quantidades de imóveis, especificamente, para apartamentos (escala logarítmica).

imoveis4

Estamos diante de uma série bem interessante porque representa os preços de venda dos apartamentos. Segundo esclarece a pesquisa:

Considera-se como venda qualquer transação que envolva troca de valores e que leve à transferência da propriedade de imóvel da construtora a outrem. Inclui permutas e vendas a prazo ou financiadas.

Então, eu sei que você está louco para falar de bolha imobiliária e tudo o mais. Mas eu não tenho informações para tanto. Posso ver como anda a variação dos índices.

imoveis3

imoveis_bh

Difícil dizer alguma coisa, não? Agora, eu sei que estes dados são uma tentação para você começar a falar de bolhas e tudo o mais. Mas, o que é, exatamente, o preço de venda do qual fala a pesquisa? É o preço no jornal ou o preço após a venda? Em outras palavras, é um preço de oferta ou um preço de equilíbrio? Como sabemos, os dois somente serão sinônimos em um caso. O que diz a pesquisa?

As seguintes variáveis são apuradas mensalmente: os preços de venda à vista, a quantidade ofertada, o número de unidades vendidas, a quantidade de novos empreendimentos, a origem dos recursos para o financiamento das obras e o estágio da construção dos empreendimentos.

Assim não ficou muito claro para mim: seria este um preço de oferta? Não sei. De qualquer forma, não encontrei nada muito diferente nos relatórios do IPEAD. Leitura de algumas notícias me levaram a concluir que o preço de venda é o preço de equilíbrio mesmo (nesta notícia o consultor faz a análise com oferta e demanda para explicar o preço).

E então…

O índice da quantidade ofertada, em BH, como se vê no final do gráfico mostra uma tendência de crescimento ali pelos meados de 2012. Por sua vez, o preço de equilíbrio continua sua tendência de aumento desde o início do gráfico. Estamos diante de uma dica de que a demanda por imóveis continua em alta? Parece que sim.

Comentários?

Mais um teste para a polêmica tese weberiana

The Protestant Ethic and Entrepreneurship: Evidence from Religious Minorities from the Former Holy Roman Empire (Luca Nunziata e Lorenzo Rocco)

We propose a new methodology for identifying the causal effect of Protestantism versus Catholicism on the decision to become an entrepreneur. Our quasi-experimental research design exploits religious minorities’ strong attachment to religious ethics and the exogenous historical determination of religious minorities’ geographical distribution in the regions of the former Holy Roman Empire in the 1500s. We analyse European Social Survey data, collected in four waves between 2002 and 2008, and find that religious background has a significant effect on the individual propensity for entrepreneurship, with Protestantism increasing the probability to be an entrepreneur by around 5 percentage points with respect to Catholicism. Our findings are stable across a number of robustness checks, including accounting for migration patterns and a placebo test. We also provide an extended discussion of the assumptions’ validity at the basis of our research design. This paper is one of the first attempts to identify a causal effect, rather than a simple correlation, of religious ethics on economic outcomes.

Desta vez deixo apenas o link.

Sazonalidade absoluta, relativa…em uma perspectiva mais antiga

Varsóvia, 1961: Oskar Lange tem seu Introdução à Econometria editado. O livro seria traduzido para o português e publicado aqui pela Fundo de Cultura em 1963. Faz tempo, não? Vejamos alguns pontos pinçados do livro.

Primeiro, esta história de suavização de séries:

A propósito, deve-se mencionar que a Escola de Harvard empregou métodos muito mais simples para aplainar as séries temporais. Considesrou, simplesmente, que os fenômenos em estudo se desenvolviam segundo uma linha reta. Sòmente muito mais tarde apareceram os problemas de aplainamento das séries por meio de diferentes curvas, tendo então surgido considerações teóricas sôbre o assunto. (p.56)

E o que dizer da noção de que a autocorrelação pode ser um problema mais comum do que se pensa?

Os desvios nas séries temporais econômicas em anos isolados não são, via de regra, independentes, como por exemplo, a produção de automóveis em 1957 depende, e muito claramente, da produção de automóveis em 1956. As flutuações cíclicas não se comportam do mesmo que os desvios aleatórios. (p.57)

Mas bonito mesmo é quando ele resolve falar de flutuações sazonais. Primeiro, ele distingue periodicidade absoluta de periodicidade relativa. Vejamos seu gráfico (p.68):

20140223_184253

 

No gráfico, temos duas flutuações. Na de cima (B), temos as flutuações sazonais de periocidade relativa e, na outra, (A), as flutuações sazonais com periodicidade absoluta. A diferença entre as duas, percebe-se, está no maior ou menor ajuste da flutuação sazonal a um padrão determinista (como é no caso A, nas curva que está abaixo da outra, no gráfico).

Lange, então, diz que o caso mais comum em fenômenos econômicos no domínio do tempo seriam as sazonalidades relativas. Então, ele indica o uso de logaritmos como mais adequado nestes casos (o que faz sentido, né?). A idéia, como sabemos, é baseada na propriedade simples dos logaritmos: logxt – logxt-1 = xt/xt-1. Ou seja, a variação absoluta na escala logaritmica corresponde à variação relativa na escala comum das séries econômicas.

Assim, digamos que eu esteja tratando do índice X que assume, em t-1, o valor 100 e, em t, o valor 110. Então, é fácil ver log(110) – log(100) = 110/100, sendo o log calculado na base e (o número de Neper). Sim, é uma aproximação, eu sei. Para você, hoje, parece óbvio, mas para seu pai ou seu avô, em 1963, ou para Lange:

Êsses cálculos seriam bastante complicados e, na prática, utilizamos um método aproximado que é contudo menos lógico; a média móvel centralizada é calculada da maneira usual, partindo do pressuposto de que o valor da média aritmética não difere da média geométrica. (p.69)

Viu só? Até há pouco tempo, aquele gerente mais velho da empresa usava um método de cálculo com mais erros do que os seus, baseados numa planilha boba. Ou em uma calculadora idiota, destas sem muitos recursos. Por isso o capital humano é tão importante. Eu não vou calcular o quanto um economista bem formado poupa para a sociedade (no final do dia, as empresas são a sociedade, não é mesmo?) por saberem usar logaritmos.

Aliás, James Hamilton tem um belo resumo sobre o uso de logaritmos do ponto-de-vista da análise dos dados aqui.

Em homenagem ao Maduro…um pouco de papel higiênico

PaperArtist_2014-02-23_10-41-03A grande imprensa brasileira se esqueceu da Venezuela mas se há um tema importante por lá é a humilhação de quem não pode viver em um país sem poder fazer sua higiene básica porque o governo heterodoxo destruiu o sistema de mercado. O país está em um estado de quase guerra civil e a melhor constatação disto é o presidente de lá proibir as atividades da CNN porque, segundo ele, a emissora super-obamista dos EUA estaria insinuando que…há quase uma guerra civil por lá.

Mas deixemos a política de lado e voltemos ao nosso foco principal que é olhar para os dados. E vamos fazer isto para o Brasil. Tal como nos posts anteriores (ontem) sobre numerário, eu resolvi olhar para o papel higiênico. Então, alguns comandos (dica R super-simples!! Mas você tem que carregar os dados antes, obviamente. Minha dica já supõe que você tenha as variáveis e esteja querendo aprender a fazer alguns gráficos):

renda_real_ph<-((rend_nominal)/(1+papel_higienico/100))
drenda_real_ph<-diff(log(renda_real_ph))
sazon<-decompose(drenda_real_ph)
plot(drenda_real_ph-sazon$seasonal)
renda_real_ph_dessaz<-(drenda_real_ph-sazon$seasonal)
monthplot(renda_real_ph_dessaz)

Resumindo: calculei a renda real em termos do índice de preços do papel higiênico, calculei a taxa de variação disto, fiz a decomposição para obter o efeito sazonal, separei este efeito (com muito amor e carinho), fiz o gráfico, depois gerei um nome a série da variação da renda real dessazonalizada e fiz o gráfico da amostra para analisar a média mensal (e sua variância, também mensal). Ah sim, período amostral: 2002.02 – 2013.12.

Como a sazonalidade foi embora, a média ficou mais ou menos constante. Olha o gráfico aí.

papelhigi1

Desta vez, vamos olhar para outro aspecto do gráfico que não a média mensal (que são as linhas horizontais). Vejamos os meses. Há bastante variedade, não? Para cada mês, repare no final das linhas (seria o ano de 2013): nos meses de Abril, Julho e Setembro, tivemos aumentos na renda média real em termos do papel higiênico (note que já descontamos os efeitos sazonais). No restante do ano – os outros nove meses – o comportamento foi o oposto: a economia amadureceu (perdoem-me o trocadilho infame…ou mudem de canal) e a renda média caiu em termos do papel higiênico.

Eu sei, eu sei. É domingo e você não quer ficar aqui falando de papel higiênico. Eu sei, mas é inevitável, pois não inventaram nada melhor ainda. Mas o fato é que, de maneira aproximada, este breve exercício mostrou que está ficando mais caro viver com o papel higiênico e, bem, não acho que vamos abrir mão de um bem de necessidade como este (cuja demanda deve ter uma elasticidade-preço relativamente baixa, penso eu).

Economia política: quem ganha mais dinheiro da burguesia capitalista?

A distribuição dos recursos entre 2011 e 2014 para partidos políticos feita pelo Estadão (ver também aqui e aqui) me faz pensar em uma única questão: a correlação entre doações para mensaleiros e o tamanho do quadradinho no infográfico é positiva e forte?

Ao invés de se preocupar com paypal ou bitcoin como meios de pagamento, talvez devêssemos nos preocupar em checar a fonte de recursos de doações para condenados. Ou então poderíamos difundir a estratégia como uma inovação da Justiça brasileira. O.J. Simpson poderia ter se safado? E Oswald Lee? Só não pagou a fiança porque não havia internet?

Pois é…

A inflação é o jeito mais fácil de tirar um doce de uma criança

A jornalista modificou um pouco minha frase (usou “brigadeiro” onde eu disse doce), mas, essencialmente, minha breve participação nesta entrevista está correta. Um resumo dos 20 anos do Plano Real pode ser encontrado neste artigo do Gustavo Franco. Os leitores mais novos, que não passaram pelo horror inflacionário ganharão muito se lerem o texto dele.

Quem não passou por isto tende a minimizar os efeitos da inflação e acham graça quando o governo tenta enviar mensagens sutis para a população com um tom, digamos, inflacionista, repetindo uma antiga falácia de que “a inflação é apenas um pequeno preço a pagar pelo crescimento” ou “o neoliberalismo nos impõe uma meta de superávit primário para ajudar a combater a inflação, mas isto vai gerar impostos para vocês” (este último caso deve estar fresco em sua memória, não?).

A inflação não tem nada de engraçado, entretanto. A inflação, como a que vivemos nos anos 80, é algo a se evitar, sempre. Quem nunca viu, precisa ser educado mas, ao contrário de alguns, eu não acho que a melhor forma de educar uma pessoa nos horrores da hiperinflação seja deixando ela experimentá-la (em troca, claro de uma reeleição, ou algo assim).

Voltarei ao assunto da inflação nos próximos dias, para falar dos 20 anos do Real.

A mídia…

Interessantíssima evidência anedótica sobre o viés da mídia, nos EUA:

Instapundit blogger Glenn Reynolds called attention to a case of media bias. One of his readers noted that Politico reporter Elizabeth Titus, in a piece on how there seem to be no scandals in Republican governor Scott Walker’s background, identified these politicians as follows:

 

Anthony Weiner: “The former congressman”
Rep. Chris Lee: “married New York Republican”
Mark Sanford: “The Republican”

 

Notice something? Reader Jeffrey Kirshner did. The one person whose party was not identified was Democrat Anthony Weiner. I’ve noticed that a lot. Republicans who do something scandalous are identified as Republicans. Democrats who do something scandalous apparently have no party affiliation.

 

O negrito é por minha conta. Agora, e no Brasil? Heim?