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O tal “passthrough” e nós

Em um excelente capítulo de PAEG e Real – dois planos que mudaram a economia brasileira, organizado por Alkimar Moura (FGV Editora), Pastore e Pinotti fazem vários exercícios simples de análise econômica. Por exemplo, há quem goste de usar diagramas de dispersão ao contar uma história.

Sobre a economia brasileira, no período 1957-68, por exemplo, os autores falam do financiamento do déficit público, na época, fortemente relacionado à inflação (via expansão na oferta de moeda). Em algum momento, surge o assunto que alguns tanto gostam: o passthrough. Qual? Aquele tradicional, no qual uma depreciação no câmbio nominal é transmitido para o câmbio real e também para o nível de preços, gerando inflação.

Como visualizar isto? O aluno de Ciências Econômicas que já passou por dois períodos em nossa faculdade já teve mais do que suficiente para pensar em como resolver isto. Veja, são três variáveis e duas relações importantes: câmbio real e nominal; câmbio nominal e inflação.

Caso haja algum passthrough, então você esperaria que a correlação fosse positiva entre a inflação e o câmbio nominal, certo? Afinal, lembre-se, o câmbio é fixo, o governo o desvaloriza e, se há respingos nos nível de preços, devemos ter inflação.

Pastore e Pinotti mostram que praticamente não havia efeito passthrough no período. Claro, há mais a se dizer sobre isto e sabemos que a correlação, em si, não diz muita coisa (mas, lembre-se: o texto citado é fértil em evidências empíricas e justificativas teóricas para estas correlações). Entretanto, alguém poderia querer repetir o exercício para períodos posteriores.

Economia não é Física e, portanto, relações institucionais podem mudar e isto é uma praga. Sabemos que é difícil fazer cortes amostrais com base apenas em períodos de governos (quatro em quatro anos) ou em outros critérios (pós-crise, pós-choque do petróleo, antes do mensalão, etc). Não é muito diferente de algumas outras ciências sérias e sabemos que muita discussão inútil (e algumas úteis) surgem apenas por conta deste “problema da delimitação da amostra”.

Pois bem. Eu disse isto tudo para justificar que, arbitrariamente, escolhi aqui uns períodos para que os que gostam do tema possam falar mais sobre o pasthrough. Primeiramente, já está claro que não dá para fazer uma análise de longo prazo com a amostra toda. Lá do IPEADATA eu peguei a taxa de câmbio nominal, o IPCA e o IPC dos EUA. Com os índices na mesma base, calculei a taxa de câmbio real e parti para as correlações.

Primeiramente, note que, embora gostemos de amostras grandes, a primeira coisa a se notar – dado o que falei antes sobre mudanças institucionais – não dá para falar muita coisa sobre o período todo.

tudo

 

Assim, vamos aos sub-períodos.

heterodoxa

 

Financiamento inflacionário? Olha, eu diria que sim, embora os congelamentos de preços e outras medidas esdrúxulas resultem no primeiro diagrama de dispersão bem confuso, no qual não se consegue ver um padrão claro de comportamento entre o câmbio real e o nominal.  Já o segundo diagrama de dispersão mostra que desvalorizações cambiais não impactavam na inflação. Vamos aos governos FHC (em um único conjunto de gráficos), às duas administrações da Silva (que alguns chamam de Lula) e Dilma. Seguindo em frente…

fhc

 

A impressão que me dá é que, novamente, não há muito passthrough embora o padrão de correlação nulo no segundo gráfico tenha se alterado. A inflação fica praticamente constante para qualquer nível de taxa de câmbio nominal (exceto uns poucos perdidos lá no canto superior esquerdo). Não me ocorre nada aqui para explicar a diferença do padrão deste para o gráfico anterior, mas vamos em frente.

lula1

 

Aqui já vemos uma mudança no padrão do passthrough, com uma correlação positiva. E na segunda administração do da Silva (ou do Lula)?

lula2

 

Aqui, diferentemente dos anteriores, a correlação é baixa, mas o padrão de dispersão é diferente da era heterodoxa ou do governo FHC. Ao contrário do primeiro mandato, a mudança na política econômica parece visível nos dados. A inflação não está mais próxima de zero mas também não parece haver efeito passthrough.

dilma

 

Finalmente, com os dados até Set/2013, temos a administração Rousseff, com característica similar ao segundo mandato do presidente da Silva. Eu arriscaria dizer que a volta da heterodoxia ao poder no segundo mandato de da Silva e sua manutenção na administração Rousseff não é algo que os dados desmintam. Pelo menos não nestes gráficos.

E agora?

Bom, agora é hora de digerir estes dados. Como eu disse, a aplicação estatística aqui é muito básica e é necessário consultar um livro de Economia Brasileira para checar a história deste período todo. Também é interessante pensar em outras relações (outras variáveis) para o período. Mas eu queria destacar a flexibilidade da análise econômica e também como é que se inicia o pensamento sobre um problema econômico. Meu amigo Reginaldo é “o cara” para assuntos de passthrough. Vou torcer para que ele se interesse em comentar estes diagramas de dispersão. Não apenas ele, mas vocês, meus dois leitores, também.

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3 comentários em “O tal “passthrough” e nós

  1. Comentários interessantes, Shikida. Mas realmente o valor do repasse é baixo. Atualmente nosso problema é que mesmo um repasse baixo pode ser um problema porque a inflação já está alta.

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