Uncategorized

A regra do X-2

O Leo Monasterio tem um ótimo livro sobre como sobreviver à vida acadêmica. Para quem não sabe, ele foi um dos co-autores deste blog desde o início. Depois, achou que eu havia enlouquecido, e foi embora.

Bom, eu também tenho minhas idéias sobre como sobreviver no mundo acadêmico e meu video acadêmico mais famoso é sobre isto. Mas hoje eu tive uma outra idéia e criei a regra do X-2. Na verdade, deve existir alguma regra parecida por aí e nem isto é lá uma invenção. É mais uma regra de bolso para quem tem dificuldades em escrever trabalhos científicos.

Imagine que o sujeito tenha que escrever uma monografia sobre a demanda de alimentos no Brasil. Ele fez lá aquela introdução (que sempre ficará ruim) e não consegue organizar o texto. Uma decisão deve ser tomada: como estruturar a literatura lida? Digamos que ele resolva estruturar por tipos de alimentos. Então, como seria aplicada a minha regra? Vamos enunciá-la:

Em um item (ou sub-item), guarde dois parágrafos para a introdução e para a conclusão do item. Entre eles, o recheio deve ser igual ao número de tópicos relevantes resenhados.

Então, digamos que o item é este: demanda de farinha de trigo. Para este item, por exemplo, o estudante encontrou artigos que falam que a demanda é inelástica com relação ao preço nos EUA, elástica com relação ao preço no Brasil, usando métodos econométricos distintos.

A primeira coisa é escolher o corte: região, resultados ou método econométrico? Tente se organizar assim. Supondo que você escolheu resultados (a elasticidade-preço), então, você terá dois parágrafos, um para falar sobre os estudos com a demanda elástica (em ambos os países, com métodos distintos) e outro para a demanda inelástica (em ambos os países, com métodos distintos).

Repare que você poderia fazer o corte por países ou métodos e aí, de novo, dois parágrafos, etc. Claro, não precisam ser dois parágrafos. Poderiam ser três. Depende um pouco do modo como você pensa que o texto ficará mais corretamente organizado.

Bem, caso esta regra já exista, peço desculpas. Mas, caso contrário (ou não), use-a para escrever seus artigos científicos, monografias ou textos. Fica de presente para o Leonardo Monasterio. Quem sabe ele já não a usa (ou tem alguma similar)?

Uncategorized

Parabéns ao CPTEC

Este blogueiro é viciado em acompanhar o desempenho das previsões do tempo do CPTEC e, claro, não poderia deixar de parabenizar este profissionais tão pouco notados (mas extremamente úteis para, por exemplo, a economia agrícola) pela última novidade: modelo de previsão com melhor desempenho!

Como usuário de Econometria, morro de inveja destes caras.

Uncategorized

Confiança na economia é maior do que brigas com a China?

boj_abenomics

 

A figura acima é do último (publicado hoje) relatório do Banco Central japonês. Antes que você comece a rir de nervoso (ou de mim), algumas dicas:

消費者コンフィデンス = Confiança dos Consumidores (Shouhisha Confidence)
原系列 = Série original (Hara Keiretsu)
季調済 = Série ajustada (Kityousumi)
改善 = Melhora (Kaizen)
悪化 = Piora (Akka)
消費者態度指数 = Índice de Confiança do Consumidor (Shouhishatadoushisuu)
生活不安度指数 = Índice de “Sentimento da Vida (cotidiana)” (Seikatsufuandoushisuu)
右目盛、逆目盛 = Escala à direita, escala invertida (Migimemori, Gyakumemori)

Quem sabe japonês pode treinar um pouco (para mim foi um ótimo exercício, já que continuo sabendo menos japonês do que deveria). Entretanto, nosso negócio aqui é ver o clima de confiança dos consumidores. O Primeiro-Ministro Abe assumiu em 26/12/2012 e o otimismo da sociedade com suas promessas de retomada do crescimento econômico é notável na série (veja o final de 2012, como as séries, com ou sem ajuste sazonal, tornam-se mais inclinadas).

Obviamente, mais do que palavras, é necessário que se faça algo de concreto. A tal Abenomics é algo que tem despertado minha curiosidade desde o início e o relatório do BoJ é um prato cheio para quem quer aprender japonês e/ou analisar alguns dados. O interessante, pelo que posso ver dos dois gráficos, é que o otimismo parece não ter se mantido por muito tempo.

Será que veremos um crescimento econômico concreto em 2014? Os “relatórios Sakura” – relatórios do BoJ que mostram a atividade econômica regional no Japão parecem mostrar que há motivos para otimismo. Vejamos o que vem por aí.

Eu sei, este post ficou meio ralinho. Mas eu queria mesmo era praticar meu japonês. ^_^

Uncategorized

Gol, Azul, Avianca e a liberdade tarifária

tarifasMercados são criaturas interessantes. Deixe-os livres e eles gerarão resultados inesperados. Regule-os e, bem, eles gerarão resultados inesperados, mostrando que a regulação é muito menos fácil do que se pensa (e, para enfurecerer os reguladores, talvez eles ganhem um salário muito bom para as soluções falhas que propugnam).

Antes que você fique nervoso, pense no exemplo das companhias aéreas no Brasil. O órgão regulador parece não curtir muito a competição e não tem mostrado muita fé no aumento da competição. Assim, o que informalmente se conhece como “oligopólio” está aí. Lembro-me de uma notícia na qual o regulador reclamava de uma das companhias ter baixado o preço, o que me lembrou rapidamente da hipótese da captura de Stigler.

Mas vamos lá. Nosso mercado oligopolista tem novidades: uma das companhias afirma que tem fé no livre mercado e que seus concorrentes que se danem. A “fé” é, no caso, a afirmação de que a empresa curte “liberdade tarifária”. A concorrência preferiu anunciar um teto para o valor das tarifas (eu vou chamar isto de preço porque, sinceramente…). Então é assim:

1. A companhia X quer liberdade de preços

2. A concorrência diz que há um teto para seus preços.

Isto é bom ou ruim? Bom, não é nem bom, nem ruim. Na verdade, o negócio todo é usar a boa e velha amiga do estudante, a oferta e a demanda. Sabemos que, durante a Copa, a demanda deve aumentar. Dizem por aí que o número de vôos deve aumentar também pelo lado da oferta. Bom, acredito que sim, embora não seja por maior número de empresas. Então tá. Eu duvido que a oferta vá aumentar mais do que a demanda e também duvido que as curvas de demanda e oferta neste mercado tenham sensibilidade-preço incomuns. Então, o diagrama padrão se aplica e, sim, um aumento da demanda gerará um aumento no preço da passagem.

Sim, se eu fosse dono da companhia citada, eu também seria a favor da liberdade tarifária. Agora, por que a concorrência não adota a mesma prática e esquece esta história de “teto” para o preço das passagens? Acredito que a resposta esteja relacionada às elasticidades-preço e market share que cada empresa estima para si e, claro, estas estimativas não são independentes das ações da companhia “pró-liberdade tarifária”.

Ah, claro, não confunda as coisas. A companhia citada fala em “liberdade tarifária” e você não deve achar que o empresário adore um livre mercado. Ele seria um amante do livre mercado se falasse em “liberdade tarifária” também quando de uma queda na demanda.

 

Uncategorized

Programa de índio

Uma nova conotação para o termo programa de índio. Sabe do que sinto falta? De cientistas sociais, que tanto falam em investigar interesses políticos, etc, pararem com estes partidarismos ideológicos e, finalmente, estudarem um dos mais ignorados grupos de interesse em sua área: os índios.

Ora, todos concordamos que “bom selvagem” é a senhora sua mãe e que devemos estudar os interesses dos índios, né? Eu não acredito que índio seja estúpido ou incapaz. Pelo contrário, acho-os muito espertos e inteligentes. Tanto quanto o restante da população.

Então, vamos lá, cientistas sociais, parem de ignorar o tema: Escolha Pública neles!

Uncategorized

Nacional-desenvolvimentismo (inflacionismo) latino-americano e a armadilha das idéias estúpidas

Eis duas notícias para vocês dormirem à noite com a consciência tranquila. Primeiro, o governo nacional-desenvolvimentista – o mesmo que está enfiando “marxismo” goela abaixo das faculdades de economia argentina (e já falam em fazer algo assim aqui, de maneira muito dissimulada…) resolveu que a internet deve ser controlada. Para quem adora falar mal da NSA norte-americana e apelar para um nacionalismo primitivo, este é um chute no meio das pernas (eu ia dizer isto de uma forma mais “rolezinho”, mas resolvi ser educado).

Bom, mas antes que você diga que isto é o mínimo que se pode fazer para barrar esta “inimiga dos pobres, a globalização excludente que destrói o meio ambiente e aumenta a temperatura da Terra”, adiciono a segunda notícia, a de que governo venezuelano,  mais saudosista que Itamar Franco do Fusca ineficiente dos anos 50, apelou para taxas múltiplas de câmbio.

O que estas duas notícias nos mostram? Acho que o prof. Caplan, há alguns anos, deixou isto claro para nós por meio da armadilha das idéias. Já a citei aqui antes, mas repito:

Thus, the least pleasant places in the world to live normally have three features in common: First, low economic growth; second, policies that discourage growth; and third, resistance to the idea that other policies would be better. I have a theory to explain this curious combination.3Imagine that the three variables I just named—growth, policy, and ideas—capture the essence of a country’s economic/political situation. Then suppose that three “laws of motion” govern this system. The first two are almost true by definition:

  1. 1. Good ideas cause good policies.
  2. 2. Good policies cause good growth.

The third law is much less intuitive:

  1. 3. Good growth causes good ideas.

The third law only dawned on me when I was studying the public’s beliefs about economics,4 and noticed that income growth seems to increase economic literacy, even though income level does not. (…)

(…) The bad news is that you can also get mired in the opposite outcome. A society can get stuck in an “idea trap,” where bad ideas lead to bad policy, bad policy leads to bad growth, and bad growth cements bad ideas.

Pior de tudo é que você pode se perguntar: está tudo perdido? O que pode mudar isto?

If both good and bad combinations of growth, policy, and ideas are stable, why does anything ever change? The answer, in my model, is luck. An economy in the idea trap usually stays in the idea trap. But once in a while, it wins a little lottery. Maybe the president of the country happens to read Bastiat during his last term, and decides to try a more free-market approach. This increases growth, which in turn improves the climate of public opinion. And maybe—just maybe—public opinion changes enough to elect another president who embraces his predecessor’s reforms.

Você não precisa acreditar neste texto. De qualquer forma, a formalização do modelo do Caplan está aqui. Aparentemente, a sociedade argentina e a venezuelana caíram na armadilha e, por anos, permitiram que seus governantes fizessem besteiras atrás de besteiras. Aliás, alguém já disse que cada povo tem o governo que merece. Quanto a isto, é bom lembrar o saudoso Barão de Itararé que disse: Cada povo tem o governo que merece, mas não é menos verdade que muitos povos não merecem o governo que têm. De certa forma, o dito do irônico barão é compatível com a proposição de Caplan.

O que notar?

Eu chamaria a atenção para o problema das instituições formais e informais para o desenvolvimento econômico. O único jeito de sair desta armadilha é ensinar para as pessoas acerca da importância das instituições – já cientificamente debatida há anos – para que uma sociedade saia do buraco. Este tema é recorrente neste blog e não preciso cansar os leitores com isto novamente.

Outra coisa a se notar é aquela minha hipótese da tecnologia da política econômica. Em resumo, sim, eu acredito que aprendemos a fazer política econômica e sabemos como lidar com a inflação. Também não ignoramos o ciclo político-econômico. Contudo, este conhecimento e os incentivos para que façamos a coisa certa não são fluidamente transmissíveis de geração em geração. Então, sim, quem fez o Plano Real acontecer tem um mérito imenso. Da mesma forma, não há motivos para se esperar que burocratas e políticos posteriores ao plano tenham a mesma capacidade intelectual e/ou os mesmos incentivos para manter a estabilidade de preços e lutar por um crescimento econômico saudável, no qual o governo não se comporta de maneira prejudicial.

Acho que foi Buchanan quem cunhou o termo Economia Política Constitucional. Nunca foi tão atual…