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Colocar a discussão da inadimplência na geladeira não vai simplificá-la

Aquele senhor metia as contas na geladeira para congelar os preços (Barão de Itararé em: Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, Ed. Record, 4a ed, 1985, p.148)

Alguém achou que bastaria mandar um email para um jornalista (que, acertadamente, alertou para a bolha Eike Batista antes do estouro da mesma) que tudo estaria resolvido? Não. Como disse o bom Barão aí em cima, não basta uma geladeira para congelar os preços. Da mesma forma, não basta enviar os dados. É preciso entender o que eles dizem e, pior, verificar se eles nos dizem algo sobre tendências de curto ou longo prazo.

Pois é. Nesta discussão sobre inadimplência, que virou a fofoca da semana, eu recomendaria, para começar, uma bela apreciada nos dados. O Nepom, por exemplo, na última reunião de 2013, mostrou um gráfico (aqui) em que não se vê, claramente, o que acontece com a mesma. Isto porque os dados são de alta frequência (mensais) e, na apresentação, para poupar o leitor de algo muito confuso, o gráfico ficou restrito a uns trinta e poucos meses.

Assim, fui lá no Ipeadata para ver o que encontraria com um período de tempo mais longo.
inadimp

A conclusão é uma lição de análise gráfica. Primeiramente, se a inadimplência aumentou ou diminiu é uma questão de janela temporal. Qualquer dono de varejo ou jornalista que delimitar sua amostra para o pós-2008 verá um aumento na inadimplência de pessoa jurídica (PJ) seguido de uma certa estabilização (um crescimento bem mais lento) da mesma. No caso da inadimplência para pessoa física (PF), no mesmo período, temos uma oscilação (queda seguida de aumento). Conclusão? Na pior das hipóteses, aumentou, mas aumentou menos.

A história fica mais complicada se alguém olha a série em um período mais longo. A história, para alguém mais chegado na turminha do governo, fica legal para o caso da PJ (estamos com a inadimplência menor hoje do que em 2000), mas nem tanto para o caso da PF. Claro,qualquer um percebe que o gráfico já não é suficiente para nos colocar “contra” ou “a favor” da empresária amiga do ex-presidente. Afinal, tomando uma métrica comum, o percentual do PIB, seria bom saber quanto do PIB é representado pela inadimplência da PF ou da PJ. Não tenho os dados aqui, mas é um ponto. Além disso, há a questão da solvência no longo prazo. Em outras palavras, seria interessante observar a probabilidade de contas não inadimplentes transformarem-se (em inadimplentes). Um exercício simples de Cadeias de Markov. Também não tenho estes dados.

Bom, o gráfico acima, em si, não nos diz muito. Alguém poderia, com um pouco de boa vontade, brincar com a Econometria e tentar algumas previsões com modelos parcimoniosos (algum AR ou ADL). Não farei isto agora porque o custo de oportunidade do tempo já está martelando minha cabeça com o lembrete de que tenho que preparar alguns materiais novos para o semestre que começará muito em breve. Então, leitor(es/as), fica para você(s) a sugestão.

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