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A economia do papel higiênico

Um dos meus sonhos sempre foi escrever um texto com este nome. Bem, alguém lá no The Washington Post conseguiu fazer quase isto antes de mim. Olha aí o gráfico do artigo.

O papel higiênico como proxy da demografia pode não ser uma idéia lá tão original, eu sei, mas, convenhamos, é muito bacana. Países com mais incontinence devem ser também países com alguma prevalência de despoupança sobre poupança? Foi mal aí, pessoal. Estou aqui com quatro livros de Macroeconomia do meu lado, lendo sobre consumo em todos eles e não resisti a fazer a observação. Enquanto penso no assunto, deixo uma imagem para reflexão que certamente será erroneamente interpretada por alguns alunos com problemas intestinais… ^_^

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De novo o restaurante

Olha que legal, leitor(a) (ou leitores(as)). Falei outro dia sobre um artigo que falava de gorjetas e descobri, hoje, na blogosfera (via Twitter e blogosfera mesmo), dois artigos não-científicos interessantes sobre o tema. Um deles, sobre os EUA, discute o porquê de não ser interessante fazer reservas para clientes. O outro, muito bom, mostra a quantidade de problemas institucionais que um empreendedor enfrenta para abrir um restaurante. Bem, não apenas institucionais, mas também de capital humano, etc.

Esta questão das reservas lembrou-me do saudoso e-book do sushi (taí, nos links laterais) que citei no final do ano – e mereceu um comentário muito bacana de um leitor do blog. É o tipo de questão interessante para se pensar quando você aprende Microeconomia.

Abrir restaurantes, dar gorjetas, cobrar pelas reservas…alguém poderia fazer uma lista de exercícios só com este tema. Começa com os consumidores (pensando em Becker!) e passando pelos problemas de agente-principal (há um ótimo no livro do Oz Shy de Organização Industrial) e todos aqueles ótimos e interessantes tópicos de Organização Industrial. O meu amigo Hamdan é que é bom para arrumar exemplos nesta área. Sim, sim, você terá que estudar um pouco de Teoria dos Jogos também.

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Na era da globalização (e graças a ela), o folclore nacional é que dá lucro – o caso da Galinha Pintadinha

Notável matéria no Estadão de hoje sobre o maior sucesso nacional, creio, desde Mônica e Cebolinha. Sim, estou falando da Galinha Pintadinha. Alguns ótimos pontos da matéria:

1. As produções “piratas” (ou caseiras) são não apenas bem-vindas, como ainda dão lucro para a dupla de criadores. Lição para muita gente que acha que “direito autoral” é igual a “cláusula (supostamente) pétrea”.

2. Os empreendedores souberam aproveitar o que eu chamaria de legado de Câmara Cascudo (nosso grande folclorista). O autor da matéria insinua – e eu concordo – que a fonte do sucesso (senão a principal fonte) são as músicas folclóricas nacionais, reinterpretadas pela turma da Galinha Pintadinha.

Este segundo ponto é importante porque há um discurso – idiota, mas sempre repetido, apesar das evidências empíricas em contrário – de que “a globalização malvada e feia destruiu a cultura nacional”. Mentira. A globalização é um fenômeno mais ou menos intenso e começou com a primeira migração de algum ancestral nosso (refiro-me aos macaquinhos, só para não ficar muito sem datação histórica). Digo mais, ninguém no BNDES criou uma política industrial para o “setor estratégico” de desenhos de galinhas pintadinhas. Graças a Deus! Assim os empreendedores criaram, cresceram e hoje lucram satisfazendo crianças aqui e lá fora (sim, isso mesmo).

Câmara Cascudo estaria contente se vivo estivesse (creio eu).

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Quem mexeu na minha tangerina?

Laranjas Mandarim (ou, alternativamente, tangerinas…) e kotatsu (este, na figura ao lado) têm uma relação histórica, de cartão postal e desenhos animados na sociedade japonesa.

Ah sim, o “kotatsu” é o desconhecido. Trata-se do aquecedor usado no Japão para o aquecimento durante o inverno (obviamente). Existe a versão moderna, que faz uso de energia elétrica e, bem, a Wikipedia em língua inglesa é muito boa na descrição do mesmo.

O fato é que famílias japonesas, outrora com mais filhos (dois ou três) tinham um momento de reunião nas refeições no kotatsu. “Tinham” porque estamos falando do Japão pré-videogames. Quem não se lembra do clássico Ohayou de Ozu, no qual os filhos entram em uma verdadeira guerra com os pais para que se compre uma televisão?

A diversão era assistir TV em família com os pés esquentados pelo kotatsu. Bom, associado ao momento de lazer existia o consumo das tangerinas (em um dos últimos Kouhaku Utagassen, num poutporri de músicas de antigos desenhos, os apresentadores simulavam estar em uma sala de estar, com o Kotatsu e aquela pilha de tangerinas).

Pois é. Mas a economia não pára e não estamos mais nos anos 60. A tecnologia mudou, a família japonesa diminuiu e envelheceu e o BigMac é um alimento popular por lá (alimento? Bem, é gostoso…) e alguém resolveu analisar o consumo de tangerinas no Japão e descobriu que o mesmo caiu. O autor da matéria lança a hipótese – algo ousada – de que este declínio teria a ver com o tempo menor gasto com a família no Japão (recentemente li um artigo de 1996 no qual os japoneses se mostravam bem mais preocupados com laços entre amigos do que entre familiares…e a evidência anedotal parece confirmar isto). Em suas palavras:

Come to think of it, the mikan’s prominence was at its zenith when there was a kotatsu in practically every Japanese home, and families sat around it while watching television, before it had a remote control. If the mikan’s decline is tied to less time spent together for families and friends, then that’s rather sad.

Going back to how different fruits have their own distinct image, one could say that the mikan is something people eat facing one another, while the banana is for eating alone. The latter also makes for a convenient meal substitute for people on the go.

Não sei se a história da banana me convence, mas a hipótese do autor tem algo além da simples melancolia pelo fim de uma era de relações familiares mais fortes. Trata-se da hipótese de que, de alguma forma, a demanda de tangerinas (um bem não-durável) tem a ver com a demanda de kotatsu (um bem durável). Esta é uma hipótese interessante, mas muito heróica. Repare que é uma definição de complementaridade econômica que não é derivada diretamente do preço dos bens (“um aumento do preço da tangerina leva a uma queda na demanda de kotatsus”), mas sim das preferências (“famílias japonesas curtem consumir kotatsus e tangerinas em conjunto). Hipóteses sobre preferências são mais difíceis de se testar. Aliás, usualmente usamos as demandas, observáveis que são, já que preferências somente se revelam pelas demandas.

A queda da natalidade teria enfraquecido os laços familiares? Talvez. Isto significa que a demanda de tangerinas deveria cair? Não necessariamente. O autor parece esposar uma espécie de teoria de demanda distinta (lembrei-me daquele texto do Gary Becker sobre demanda de restaurantes), na qual as famílias só consomem tangerinas quando estão em conjunto (não haveria tanto prazer assim em consumi-las sozinho(a)).

Embora eu não compre a tese do autor, fiquei curioso acerca da queda na demanda das tangerinas ao longo do tempo. Aliás, isto me lembra uma daquelas belas músicas teatrais (literalmente) japonesas cantadas pelo gigante Haruo Minami.