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Macarrão instantâneo para todos

O funcionamento da oferta e da demanda é um dos mais estudados – e nem sempre de fácil compreensão – mecanismos inventados pelos homens para resolver problemas. Diga-se de passagem, uma invenção anônima, provavelmente voluntária e muito mais pacífica do que guerras e assaltos. Mais ainda, a oferta e a demanda em mercados específicos merecem – e deveriam merecer mais e mais…e mais – atenção de qualquer interessado na própria História.

Veja, por exemplo, o caso do macarrão instantâneo. Foi inventado por Momofuku Ando (nascido na Taiwan colonial japonesa, como Wu Pai Fu). Veja como são as coisas. Taiwan já foi colônia japonesa. Resquício do mercantilismo imperial, das guerras de uma nação que se via como atrasada em relação às potências militares da época (e que humilhou a Rússia czarista em 1904-5). Obviamente, como toda dominação colonial, nem tudo foram flores.

Mas vejam como são as coisas. Uma mini-globalização imperialista não precisa resultar apenas em mortes e tristeza. Momofuku foi para o Japão, virou cidadão japonês e foi tocar sua vida. Um dia inventaria o macarrão instantâneo, não sem antes passar por uma temporada na prisão por evasão fiscal.

Eis aí a primeira lição: instituições sérias funcionam. Não é todo dia que um sujeito sai da prisão e limpa seu nome na sociedade. Um paradoxo para os que acreditam em uma fantasiosa característica maligna dos empreendedores? Vai saber. E esta história de que toda colonização exige reparação histórica de gente que nem sabia disto? Quanta imprecisão e injustiça pode ser gerada por políticas de reparações feitas de maneira ineficiente? Quem não se lembra do que disse Keynes sobre as pesadas reparações de guerra impostas na Alemanha pós-I Guerra Mundial?

Mas deixemos de lado as paixões políticas. Voltemos ao macarrão instantâneo. Já fui mais fã do mesmo nos tempos de bolsista do mestrado e do doutorado. Hoje, uso o famoso “myojão” como tapa-buracos em momentos mais raros. Nunca fui muito fã do tempero nacional em macarrões orientais. Sempre que posso, compro os importados.

E por falar em comprar e vender macarrão instantâneo, que tal dar uma olhada nos dados? Com um pouco de boa vontade (o que significa usar a Wikipedia em língua inglesa, menos viesada e mais completa…inclusive no que diz respeito aos dados), a gente consegue encontrar o consumo per capita de macarrão instantâneo (pacote ou cup) em alguns países. Por exemplo, no caso do Brasil, em 2008, o consumo per capita era e 9.08 pacotes. Em 2009, 9.92. Em 2010, 10.48. Em 2011, 11.12 e, finalmente, em 2012, 11.9. Ou seja, quase um macarrão por mês. Acho que entendi corretamente os dados originais e estamos falando de pacotes ou cups mesmo.

Os hábitos alimentares não são os mesmos aqui e na Ásia. Vejamos dois mercados tradicionais: China e Japão. Na China, 32.11 em 2008 e, em 2012, para resumir, 32.53. No Japão, 39.94 em 2008 e, em 2012, 42.46. Claro que estamos falando sobre os níveis do consumo per capita. A taxa de crescimento deste consumo (2008-2012) é expressiva para o Brasil: 27.56%. Os mercados tradicionais (Japão e China) são mais estáveis (1.29%  e 6.12%, respectivamente).

O mercado brasileiro ficou mais “asiático”? Não necessariamente. É verdade que mais chineses devem ter migrado para o Brasil nos últimos anos, mas não no montante necessário para 27%, não é? Provavelmente temos aqui mais uma evidência do crescimento econômico acelerado para as classes de mais baixa renda sobre o qual já falamos antes. Problemas de obesidade e de saúde pública podem ser, pelo menos parcialmente, resultado disto? Talvez. Mas até que se façam estudos mais sérios, isto é só uma conjectura.

Já são quase 10 da matina. O almoço terá macarrão instantâneo? Não hoje.