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As relações incestuosas do governo e do setor privado, circa final do século XIX

“O Banco Nacional, passando a controlar a oferta monetária, e os demais bancos comerciais, intermediando empréstimos à lavoura, criaram um clima ideal para especulação. As ações dessas instituições foram distribuídas com ágio de 45%, e a expectativa de lucro, assegurada por sua relação com a política monetária do Governo, deu início a uma fascinação que carreou consigo o jogo com ações de todos os bancos auxiliares da lavoura”. (Levy, M.B. “O Encilhamento”, In: Neuhaus, P. (org) “Economia Brasileira – uma visão histórica”, Editora Campus, 1980, p.199)

Assim, repetimos os erros históricos que são erros apenas quando pensamos normativamente nos mesmos. Em termos de incentivos, vale dizer, economia política positiva, faz todo o sentido que se “erre” novamente. Basta que os incentivos sejam favoráveis ao comportamento rent-seeking que ele ocorrerá.

Por isso, a expressão “repetir erros históricos” não faz muito sentido ou, pelo menos, não deveria fazer. Este apelo a uma suposta civilização que avança, aprende com os erros do passado, tal e qual vida eterna tivesse não faz o menor sentido. Gerações novas fazem besteiras que as gerações antigas já fizeram e vice-versa. Lições históricas são apenas lições históricas. Sua compreensão ou seu impacto nas políticas correntes dependem, claro, dos incentivos e estes, infelizmente, nem sempre são os mesmos.

Isto sem falar que a exogeneidade dos mesmos nem sempre é uma hipótese razoável.

Por isto é difícil construir instituições sólidas e, também por isso, devemos aplaudir sociedades que conseguiram se desenvolver.

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Comentário breve

O Duke fez uma ótima resenha sobre o encontro da SBE. Destaco um ponto:

Sobre os trabalhos com modelos DSGE: ainda sofremos com o drama de ter um software que faz muita coisa para o pesquisador, sem obrigar uma reflexão um pouco mais profunda sobre o que está sendo modelado/estimado. Já fiz piada sobre isto, mas depois de tanto tempo acho que está na hora da academia subir um pouco o nível das discussões. Não dá para escrever modelos e não entender as consequências das hipóteses adotadas e sair tirando conclusões apressadas; não dá para colocar um modelo para estimar sem pensar nos dados, nas priors, nos coeficientes estimados; não dá para continuar pegando um modelo pronto, de economia fechada, estimado para os Estados Unidos, e achar natural aplica-lo para o Brasil. Como não vivo em sala de aula, não sei se o problema está nos professores (chegam para a turma e dizem “tem um pacote que faz tudo para vocês, olhem lá”), não sei se o problema está com os alunos (“Oba, achei estes códigos na internet, coloco dados para o Brasil e está pronta a minha tese/dissertação”). Sei que existe um problema que deve ser enfrentado.

Bem, aqui vale um comentário. É desnecessário dizer que o argumento acima é importante. Mas o interessante é o problema: consumo/lazer. Muita gente prefere minimizar o trabalho, mesmo sabendo que há este problema. Tomemos o  caso do programa que faz tudo para o pesquisador. O que você deveria fazer em primeiro lugar?

Obviamente, tentar entender o que o programa faz (suspeito que ele esteja falando do Dynare, dentre outros). Mas aí vem algo que observo muito frequentemente em sala de aula: a aplicação da racionalidade “malandrinha”. Como assim?

Imagine a seguinte situação: Duke está em sala de aula, lecionando. Lá no canto, há aquele aluno desinteressado, preguiçoso, mas não totalmente burro. Ele tenta criar empatia com o professor para usá-la a seu favor posteriormente. Então ele pergunta: “- Professor, mas e este programa que a gente pode usar para calcular os parâmetros? É bom?”.

E o Duke faz este comentário aí no alto. Pronto. O esperto do aluno, então, guarda o comentário, mas não faz nada com ele. É como se fosse uma informação superficial (de fato, é como ela será tratada por ele) que ele pode repetir no boteco, em casa, etc. Poderá até se sair bem, caso ninguém lhe pergunte nada. Entretanto, o uso mais comum é na hora de tentar jogar para o professor o trabalho que lhe foi atribuído (ao aluno). Ele entra no gabinete do Duke, sem nada nas mãos (ou com um rascunho muito porco e mal feito de algum trabalho) e diz: “- Professor, eu quero aprender! Não quero apenas que o programa cuspa resultados para mim. Mas eu não sei interpretar!”.

Vale dizer: tenta dar uma de bom aluno, com uma pseudo-empatia criada pela simples repetição da opinião do professor.

Um dos mais importantes papéis do professor é exterminar este tipo de problema e mostrar ao sujeito que ele não deve seguir por este caminho. Afinal, enquanto a preguiça e a acomodação imperam por aqui, outros estudantes avançam e melhoram as sociedades em que vivem…