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Coelhada da Mônica!

No Brasil se lê pouco, mas, sobretudo, se lê mal. Sem cuidado. Sem refletir sobre o significado das palavras. Talvez seja por isso que os ardorosos defensores da “direita” ou da “esquerda” tenham se tornado tão populares em seus blogs, colunas e meios afins. Progressistas, desenvolvimentistas, liberais, neoliberais, conservadores. Os rótulos que povoam incansavelmente o debate nacional, seja na política ou na economia, são polissêmicos. Isto é, eles abrangem uma vastidão de significados dependendo de quem os cita ou de quem é o interlocutor. A polissemia é um óbice à comunicação. Ao subverter a precisão da palavra, os adeptos do estilo polissêmico tencionam confundir, provocar desentendimentos, aprofundar polêmicas inúteis, ou reforçar o infatilismo maniqueísta.

Mônica, economista carioca (será que Míriam Leitão vai propor que ela seja presidente do Bacen?), tem um ótimo insight neste texto cujo trecho reproduzo acima. Não é de hoje que percebo que a modernidade (belo nome vazio de significado mas cheio de simbolismos, não?) nos trouxe muito mais livros (para minha geração, ótimo!) e mais opções de lazer, deixando a galerinha mais nova toda excitada com um “pássaro nervoso” ou um “doce esmaga”.

Você está em sala de aula falando de CAPM e metade das pessoas crê ser educado conversar no chat com seus amigos. Ou checar o horóscopo. Um ou outro usa a tecnologia para, de fato, aprender algo. Eu sei, preguiça não é invenção deste século (ou do passado e assim retroativamente…) e CAPM está longe de ser o assunto mais fascinante para estudantes de Economia (sic).

Mas o fato é que, depois do fim da aula, vão todos mostrar para os amigos o quanto conhecem do mundo lendo colunas de jornal espremidas entre um anúncio e uma propaganda do governo, cheia de erros de português (há exceções, eu sei, mas não nos jornais que vejo perto de minha casa) e, que alívio, acham que escaparam da armadilha da ignorância.

“- Ufa, li 20 linhas hoje. Sou melhor que o pobretão do sinal que é ignorante e mal sabe escrever o nome”!

Infelizmente não se escapa da ignorância com tão pouco esforço (houve, de fato, algum esforço nesta história aí?). Mas o sujeito quer mais. Ele quer saber tudo o que Adam Smith disse, sem ler um terço (ou um quarto, metade, etc) da obra do filósofo escocês. Quer saber matemática sem fazer uma conta numa folha de papel (solidariedade com os venezuelanos que não podem se limpar com o papel higiênico?). Quer contar para todos que sabe das coisas em história, mas não se sente mal consigo mesmo por ter lido apenas um capítulo de um livro de um único autor.

Obviamente, entre o coração e a língua existe uma incrível máquina de desejos: tagarelar é conquistar mulheres, aumenta a chance de se dar bem na vida ou de fazer sexo para se dar bem na vida (ou algum outro trocadilho infame). Mônica está certa. Aí surgem os grandes filósofos (ou grandes jornalistas, economistas, etc). Arrogantes, não admitem erros (conheço um jornal que nos colocou no sexto lugar no ENADE deste ano, recebeu centenas de mensagens e foi incapaz de corrigir a matéria online porque…porque…fica feio). Usam palavras de ordem como Mussolini, Stalin, Che Guevara e Hitler. Dê-se a este jovem um lenço de seda e ele o colocará no pescoço antes de fazer pose de herói. Dê-lhe um cavalo e ele (o jovem) tentará desfilar por aí montado no mesmo, como um pequeno Napoleão de alguma revolução maoísta.

“Jovem tem pressa”, é o que me dizem. Não têm tempo. Há papais e mamães que digam que o menino não pode estudar porque fica “sem tempo”. Sem tempo para que, exatamente. Acho que é sem tempo para ler. Nem mesmo para ler o artigo da Mônica que nos faz um alerta importante: deixa de preguiça, moleque, pega o livro, comece do início e vá até o final. Depois venha me falar de liberalismo, marxismo, esoterismo ou escotismo. Garanto que você vai gostar. Acredite. Eu escapei desta burrice quando comecei a ler seriamente. Você também consegue.

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