Y = C + I + G – T + X – M…e pronto!

Não tem jeito. Relações contábeis são relações contábeis. Quando acrescentamos às mesmas relações comportamentais, institucionais e tecnológicas, temos um modelo econômico. Claro, o modelo pode ser baseado em hipóteses as mais diversas. Entretanto, é bom levar em conta o que diz a realidade e a mesma nos diz que é difícil ver heterodoxo lambendo ou queimando dólares.

Bom, então estamos todos mais ou menos acordados: pessoas são racionais. Como se formula esta racionalidade é outra história. Também é outra história falar sobre como a racionalidade pode não ser sinônimo de equilíbrio em pleno emprego (basta microfundamentarmos uma rigidez aqui ou ali e pronto).

O prof. Franco publicou um artigo hoje, muito bom, sobre a nossa economia. Caso você não tenha percebido, este texto é a maior oportunidade para você terminar seu final de semana com um pouco mais de emoção do que o normal (quem aguenta estes programas de TV no domingo?). Talvez não seja o melhor momento para se estudar Economia, mas pegue um caderno e um lápis aí e veja como são as coisas.

1. A aritmética intertemporal e o efeito Barro-Ricardo:

O crescimento do endividamento familiar nos últimos anos trouxe preocupações com essa psicologia do “aqui-agora”, que pode ser associada ao consumidor de baixa renda, carente em educação financeira, incentivado a comprar e que facilmente se enreda em endividamento excessivo.

A má notícia é que nossas autoridades operam exatamente com a mesma lógica: desde que possam parcelar, qualquer dívida é aceitável.

A teoria econômica ensina que, se as finanças públicas são sustentáveis, a dívida de hoje são os impostos de amanhã e não há como escapar disso, ao menos em um país onde os governos não podem deixar bombas para os seus sucessores.

Ótimo ponto para você recordar a maravilhosa função consumo! Sabemos que as decisões importantes são mesmo intertemporais. Pelo menos para quem não tem restrições (ativas) sobre a restrição orçamentária. Mais ainda, sabemos que o governo não pode terminar dando o calote, logo, o efeito ricardiano é, sim, uma constante na vida das pessoas. Você pode não ser totalmente ricardiano, mas não é idiota (creio eu) de achar que não precisa pagar a conta no futuro. Claro, podemos falar de herança, altruísmo, mas, eis a má notícia: o governo (“nossas autoridades”) parece, ele sim, sofrer algum tipo de falha (falha de governo).

Bom, não que seja uma “falha” no sentido de que o governo está com defeito. Na verdade, a “falha” diz respeito ao fato de que o governo parece curtir (na linguagem facebookiana) a vida perigosa de endividamento. Ou porque segue um maligno ciclo político-econômico (“vou espantar a oposição na eleição com este estado calamitoso das contas públicas”), ou é ideologicamente um gastador (viva Stalin!), ou, enfim, é péssimo administrador. Obviamente, pode haver uma combinação convexa destas três hipóteses para nos explicar o comportamento do governo, mas isto fica a seu critério julgar.

2. Conta Corrente, sim, ela mesma:

A posição líquida é credora (US$ 260 bilhões) e maior que a dívida externa do setor privado (US$ 171 bilhões).

É uma situação inédita para nós e se deve à brutal acumulação de reservas, a qual, todavia, não tem propriamente a ver com superávits comerciais ou à nossa competitividade, mas com entradas de capital relacionadas à política monetária americana. Pouco importa, os efeitos são conhecidos, o BC vende dívida interna para arrumar os recursos para comprar esses dólares excedentes, ou seja, troca dívida externa por interna ao acumular reservas.

Ok, você estudou aqueles capítulos do livro que falavam da Conta Corrente, juros e câmbio, não? Veja aí a história de novo, apimentada com a atuação do Banco Central. O interessante é que a análise aqui inclui o resto do mundo (no caso, a “economia grande”, os EUA), que incentiva nossa acumulação de reservas. Aritmeticamente, nada demais. Entretanto, Economia não é Aritmética e o prof. Franco está correto em destacar o mecanismo de transmissão da política monetária norte-americana sobre nossa acumulação de reservas. No final da história, aquela história de “dívida externa e dívida interna” volta à discussão.

3. A negação da realidade:

Outro problema é que o conceito internacionalmente aceito é o de “dívida bruta” que, na metodologia do governo, está em 59% do PIB (incluindo as operetas com o BNDES), um número já não muito consistente com a classificação de risco soberano do país. Os especialistas preferem olhar para a dívida bruta, entre outras razões, porque não há como usar os dólares das reservas para pagar a dívida interna.

Mais outro problema é que as normas internacionalmente aceitas de contabilidade indicam que a nossa dívida bruta é maior: 68% do PIB. O ministro da Fazenda insiste em discordar do FMI nesse assunto, o que é mais ou menos como uma empresa listada questionar uma diretriz internacional de contabilidade.

(…)
Coisa parecida se passa no setor elétrico, onde parte significativa dos custos da “redução na conta de luz” ficou para o Tesouro. E também nos bancos públicos, toda vez que o crédito não é concedido de acordo com as melhores práticas bancárias ou os bancos são instruídos a apoiar “campeões”. Não há dúvida que os custos de muitas políticas públicas, cujo mérito sempre se pode discutir, ainda não foram contabilizados na dívida pública.

Aqui um tópico novo, que não aparece em livros-texto de Economia por um motivo óbvio: não faz sentido. Que tópico é este? Ora, ora, o ignorar da contabilidade. Não há o que conversar se o governo brasileiro desrespeita o sistema cartesiano ao fazer gráficos, as propriedades dos números reais ao fazer somas e a contabilidade ao…contabilizar seu déficit. Qualquer economista – até um heterodoxo sério – é incapaz de começar a trabalhar falsificando os números. Uma coisa é criar uma nova medida para o déficit, digamos: A + B – C. Outra é dizer que, agora, A é déficit, B é mais ou menos e C, que não existia, é parte do déficit.

Obviamente o tópico nos remete à questão da credibilidade do governo. Caso você ache que não faz sentido microfundamentar a macroeconomia, pare de ler aqui e vá tomar um suco. Mas se você acha que indivíduos importam quando falamos de credibilidade, então não adianta tapar o sol com a peneira: estamos vendo a destruição da credibilidade do setor público brasileiro pelo lado fiscal. Não é nada diferente das travessuras dos governos bolivarianos neste aspecto. O que é realmente engraçado é o silêncio dos contadores. Alguém aplique, por favor, uma prova do ENADE de Contabilidade para estes caras, antes que eles mudem até a lei da gravidade no Brasil.

4. Conclusão:

Bom, a conclusão aqui é minha (vai lá e leia o artigo, ora bolas). O texto fala de vários conceitos importantes: escolha intertemporal, efeito ricardiano, ciclos político-econômicos, conta corrente em uma economia com governo, credibilidade e reputação, enfim, tudo o que o sujeito já leu se fez um curso de Macroeconomia (ou 80 a 90% dele, eu diria). Não está lá citado o sistema de metas de inflação (se é que este moribundo ainda sobrevive…), mas não é difícil pensar nos problemas que a política monetária enfrenta com a política fiscal adotada por este governo que, não se engane, conseguiu chegar em ano de eleição (já estamos quase lá, certo?) em uma situação na qual terá contra si próprio (e por sua exclusiva culpa) uma inflação alta (não se engane com o “repetir a mentira a transforma em verdade” do governo sobre o teto da meta ser o centro da mesma) e, possivelmente, desemprego.

Gustavo Franco (o citado prof. Franco) resumiu bem o problema. Ou melhor, o tamanho do problema. Imagine o tamanho da solução…

Mensalão

Eu só posso dizer que acho ótima a decisão do juiz. Impunidade é uma chaga denunciada por todos que não aturam corrupção, seja o sujeito um libertário ou um estatista (de esquerda ou de direita). Engraçado mesmo é ver um ex-guerrilheiro – que parece ter confessado um bocado sob as torturas dos anos de chumbo – dar uma de Pinochet e dizer que está doente. Ora, um pouco mais de dignidade no final da carreira não faria mal.

Acho que o melhor exemplo de traíra é o Geréb. Covarde que nem ele só!

Política Monetária

Duas rápidas leituras sobre política monetária recentes levantam as seguintes questões: (a) política monetária é menos potente em recessões? e (b) deveria a autoridade monetária se preocupar com o desemprego?

O segundo texto, vale dizer, é um resumo de um discurso de Charles Plosser, cujo trabalho não pode ser ignorado por leitores ligados à área de Economia, feito por John Cochrane, outro que não pode ser esquecido.

Plosser pode ser chamado, sem muita dúvida, de um dos criadores da nova Economia (Macroeconomia microfundamentada). Todos conhecem seu trabalho com o seu xará, Charles Nelson.

Qual o papel da política monetária? Do que ela é capaz? Do que não é? Como deveria ser feita? Difícil responder todas estas perguntas, mas creio que muito trabalho pesado já foi feito. Não há como negar o poder (e, portanto, o perigo) da política monetária no longo prazo, as defasagens das políticas econômicas (Milton Friedman!), o problema da estabilidade das funções (quem não se lembra de William Poole no artigo de 1970?) e, claro, a questão das tendências (Nelson & Plosser!) e a (ir)relevância da econometria como ferramenta para a política econômica (Lucas!)?

Foi-se o tempo da política econômica como simples problema de controle ótimo…no mínimo um jogo diferencial dinâmico…e isto sem esquecer do antigo alerta de Friedman: são tantas as correlações que é difícil falar de causalidades (ah, Sims e Friedman….).

História(s)

Você acha que o bom é ter empresários ou burocratas no governo do país? Sério? Você realmente está perdido nesta discussão? E a tal política industrial? Você esposa a tese maniqueísta também? Então você precisa de um pouco de estudo e pesquisa. Para sua sorte, algumas pessoas já fizeram um bom trabalho para você. Por exemplo, nestes dois textos, a política industrial japonesa é estudada e, vejam só, este papo de proteger setores fica bem mal na fita.

Já neste clássico (já havia me esquecido do quanto eu adorei ler o texto lá nos anos 90) de Shleifer & DeLong temos um estudo cliométrico bem simples, mas muito interessante. Qual o tema deste texto? Bem, vai lá dar uma lida nele. Aposto que você vai gostar.

Instituições e Direito

Adolfo Sachsida tem uma chamada importante para pesquisadores com preocupações sociais no Brasil. Assista o vídeo. Desnecessário dizer que nada disso precisaria ser discutido se as pessoas do Direito parassem de lutar contra a lógica e pensassem um pouco no custo de oportunidade.

Nem todos do Direito são assim – e nem todo economista é perfeito – mas, no Brasil, é fato que o preconceito de uma área contra a outra ainda é maior de lá para cá. Nada que um pouco de Law & Economics não resolva. A  ABDE, o IDERS, a AMDE, enfim, todas as associações de Law & Economics (certamente me esqueci de algumas) cumprem um papel social essencial enquanto, de fato, difundirem a análise econômica do direito, bem como diminuírem o preconceito mútuo.

A lei pode destruir um país? Pode. Então é importante estudar isto? Claro. Instituições, já diria Douglass North, são muito, mas muito importantes (e eu complementaria: “…para ser deixada nas mãos de juízes e advogados”.).

Novamente, precisamos de mais Law & Economics, não de mais leis pura e simplesmente.

Valores sociais, trocas e experimentos

Why do internet business people exhibit more other regarding behavior than students? Common wisdom suggests that pro-social characteristics would be selected away from in the anonymous online world. However, it is precisely in semi-anonymous situations where trust is at a premium suggesting the opposite selection.

(…)

We fi nd sparse evidence to support the Levitt and List (2007) selection hypothesis. While our priors were that internet business people would exhibit less pro-social behavior than students indeed we expected that the purely self-interest homo economicus models would o er excellent predictions we wanted to see the evidence for ourselves.

We were surprised by what we found. Across dimensions of trust, altruism, monitoring, and lying, internet business people were more pro-social than students. Moreover, the di erences were not small. Compared to students in the lab, internet business people were twice as likely to both be trustworthy and over 50% more likely to trust in a trust game. Internet business people contributed
over 250% more in dictator games. They lie one-third less often than students. The e ffects are more muted compared to students in the fi eld, suggesting that fi eld settings, in part, promote pro-sociality; however, even here, internet business people were, on the whole “nicer” than students.

Não sei não, mas acho que o pessoal de Economia Experimental é que vai gostar deste working paper.

Mises e Hayek adoram um VAR estrutural

Estes autores fizeram um trabalho interessante sobre insights de Mises e Hayek sobre ciclos econômicos de forma simples e eficaz, ou seja, com econometria. Especificamente, com VAR estrutural (com decomposição de Blanchard-Quah, etc).

Trabalho simples, mas interessante. Assim é que a Ciência Econômica avança.

Coelhada da Mônica!

No Brasil se lê pouco, mas, sobretudo, se lê mal. Sem cuidado. Sem refletir sobre o significado das palavras. Talvez seja por isso que os ardorosos defensores da “direita” ou da “esquerda” tenham se tornado tão populares em seus blogs, colunas e meios afins. Progressistas, desenvolvimentistas, liberais, neoliberais, conservadores. Os rótulos que povoam incansavelmente o debate nacional, seja na política ou na economia, são polissêmicos. Isto é, eles abrangem uma vastidão de significados dependendo de quem os cita ou de quem é o interlocutor. A polissemia é um óbice à comunicação. Ao subverter a precisão da palavra, os adeptos do estilo polissêmico tencionam confundir, provocar desentendimentos, aprofundar polêmicas inúteis, ou reforçar o infatilismo maniqueísta.

Mônica, economista carioca (será que Míriam Leitão vai propor que ela seja presidente do Bacen?), tem um ótimo insight neste texto cujo trecho reproduzo acima. Não é de hoje que percebo que a modernidade (belo nome vazio de significado mas cheio de simbolismos, não?) nos trouxe muito mais livros (para minha geração, ótimo!) e mais opções de lazer, deixando a galerinha mais nova toda excitada com um “pássaro nervoso” ou um “doce esmaga”.

Você está em sala de aula falando de CAPM e metade das pessoas crê ser educado conversar no chat com seus amigos. Ou checar o horóscopo. Um ou outro usa a tecnologia para, de fato, aprender algo. Eu sei, preguiça não é invenção deste século (ou do passado e assim retroativamente…) e CAPM está longe de ser o assunto mais fascinante para estudantes de Economia (sic).

Mas o fato é que, depois do fim da aula, vão todos mostrar para os amigos o quanto conhecem do mundo lendo colunas de jornal espremidas entre um anúncio e uma propaganda do governo, cheia de erros de português (há exceções, eu sei, mas não nos jornais que vejo perto de minha casa) e, que alívio, acham que escaparam da armadilha da ignorância.

“- Ufa, li 20 linhas hoje. Sou melhor que o pobretão do sinal que é ignorante e mal sabe escrever o nome”!

Infelizmente não se escapa da ignorância com tão pouco esforço (houve, de fato, algum esforço nesta história aí?). Mas o sujeito quer mais. Ele quer saber tudo o que Adam Smith disse, sem ler um terço (ou um quarto, metade, etc) da obra do filósofo escocês. Quer saber matemática sem fazer uma conta numa folha de papel (solidariedade com os venezuelanos que não podem se limpar com o papel higiênico?). Quer contar para todos que sabe das coisas em história, mas não se sente mal consigo mesmo por ter lido apenas um capítulo de um livro de um único autor.

Obviamente, entre o coração e a língua existe uma incrível máquina de desejos: tagarelar é conquistar mulheres, aumenta a chance de se dar bem na vida ou de fazer sexo para se dar bem na vida (ou algum outro trocadilho infame). Mônica está certa. Aí surgem os grandes filósofos (ou grandes jornalistas, economistas, etc). Arrogantes, não admitem erros (conheço um jornal que nos colocou no sexto lugar no ENADE deste ano, recebeu centenas de mensagens e foi incapaz de corrigir a matéria online porque…porque…fica feio). Usam palavras de ordem como Mussolini, Stalin, Che Guevara e Hitler. Dê-se a este jovem um lenço de seda e ele o colocará no pescoço antes de fazer pose de herói. Dê-lhe um cavalo e ele (o jovem) tentará desfilar por aí montado no mesmo, como um pequeno Napoleão de alguma revolução maoísta.

“Jovem tem pressa”, é o que me dizem. Não têm tempo. Há papais e mamães que digam que o menino não pode estudar porque fica “sem tempo”. Sem tempo para que, exatamente. Acho que é sem tempo para ler. Nem mesmo para ler o artigo da Mônica que nos faz um alerta importante: deixa de preguiça, moleque, pega o livro, comece do início e vá até o final. Depois venha me falar de liberalismo, marxismo, esoterismo ou escotismo. Garanto que você vai gostar. Acredite. Eu escapei desta burrice quando comecei a ler seriamente. Você também consegue.

Por que tanto silêncio?

Tenho estranhado o silêncio do Ministério Público do Trabalho. Da mesma forma, intriga-me o mutismo das associações de magistrados do trabalho. Mais surpreendente ainda é a indiferença das centrais sindicais, que, sendo contrárias à necessária regularização da terceirização no Brasil, assistem pacificamente a um tipo de contratação que tem tudo do trabalho escravo. Basta lembrar que os médicos cubanos não podem trazer seus familiares; estão impedidos de sair do Brasil; se pedirem asilo, será negado; e ainda têm 70% do seu salário confiscado e remetido ao governo cubano, que nada pode fazer para os brasileiros. Situações mais brandas que essa têm sido denunciadas pelas centrais sindicais como “análogas ao trabalho escravo”. Neste caso, “ouve-se um sonoro silêncio”. Não me deterei nesse aspecto, pois o assunto já foi bastante comentado pela imprensa. Não comentarei tampouco a insinuação de que os recursos que vão para Cuba acabarão voltando para o Brasil – não se sabe para quê.

De fato, o Jose Pastore tem uma boa intuição sobre os interesses que suportam todo este silêncio.