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Foi ao cinema e matou o filho

Gosto muito da sacada do jornalista que começou esta matéria com a chamada bombástica de que “nada mata mais crianças no Brasil do que a ignorância”.

Mesmo que ele não perceba, acabou de cutucar onças com varas curtas. Claro que a intenção é dizer que a falta de investimento em educação ajuda a piorar tudo e tudo o mais. Quem pode ser contra a educação para todos?

Contudo, muitas questões ficam em aberto. Por exemplo, medir educação como anos de estudo é uma prática comum no meio, mas não sinaliza a qualidade da educação. Eu não cobro dos pesquisadores esta medida, mas quando se fala de educação matando crianças, a gente fica apreensivo: será que uma escola da Al-Qaeda, alfabetizando todos, seria menos causadora de mortes do que uma escola pública da periferia? Ou uma escola privada em Higienópolis (nem sei se existe, mas vamos lá, sou ignorante nisto (e espero não ter matado ninguém no futuro…)) é tão boa quanto uma escola em Cuba?

Claro que eu também acredito que gente mais estudada deve cuidar mais dos filhos porque, novamente acredito, sabe ler bula de remédio, entende o que o médico diz, não pergunta quatro vezes a mesma coisa para o farmacêutico, etc. Seria ótimo se todos fossem assim.

O estudo merece leitura, obviamente (quem sou eu para desestimular a leitura de um artigo econômico que usa métodos estatísticos?), mas fica no ar uma crítica – que nem sempre é feita de forma honesta, é bom dizer – sobre o que significa, exatamente, a tal educação dos pais. O futuro, acredito, vai nos trazer estudos mostrando que um ano de estudo na Coréia do Norte pode não ter exatamente os mesmos impactos que um ano de estudo na Alemanha. Dito de outra forma, embora ambos saibam ler bulas de remédios, ceteris paribus, os filhos de ambos vão crescer e um deles preconizará mais e mais restrições sobre a sociedade (seja no mercado, seja na vida pessoal, etc), enquanto que o outro tentará, pelo desejo de controlar a própria vida, lucrar com, digamos, a sua descoberta da cura de alguma doença.

Enquanto isto, quem não quer ler mais que um tweet, quem deseja vadiar, claro, vai ao cinema e mata o filho. Figuradamente, digo (eu acho).

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