A manifestação que desmanchou ao contato com o ar (um longo e não revisado ensaio) UPDATED

Alguns dizem que é uma espécie de “primavera árabe”, outros, que é uma simples manifestação de revoltados. Adjetivos não faltam para qualificar esta estranha manifestação que observamos nos últimos dias.

Não é novidade para ninguém que toda ação coletiva só tem algum sucesso se resolve seus problemas de incentivos. Assim, como é que se entende a junção de tantas pessoas em tantas capitais? Em primeiro lugar, o custo de comunicação caiu muito com a Internet. Em segundo, vários organizadores do movimento – notadamente em Brasília – são funcionários do próprio governo que o movimento, supostamente, critica. Terceiro, a população enfrenta uma situação criada pelo governo brasileiro que pode ser chamada de estagflação: não há crescimento e há inflação.

Repare que nenhum dos três argumentos, separadamente, consegue explicar a união de pessoas nas ruas. Ninguém é ingênuo de acreditar que não existem militantes profissionais, com vasto conhecimento da tecnologia de criar barulho com indivíduos que nem sempre sabem de sua existência. Por este argumento apenas, as manifestações seriam guiadas por partidos que possuem, em seus estatutos/manifestos/atas, palavras de ordem que clamam pela destruição do capitalismo. Há quem, no Brasil, defenda estes políticos, a paz, o desarmamento e, ao mesmo tempo, o uso da violência para fins de baderna visando o “fim do capitalismo”.

Pensando nestes termos, qual seria a motivação do governo (ou da oposição) em cultivar manifestações aparentemente anti-governo? Simples: cooptar, ocupar e desviar os movimentos de suas intenções originais em prol de seus objetivos eleitorais ou revolucionários. Neste sentido, haverá sempre um confronto interno no movimento entre os que acham correto pedir benção para traficantes e bater em policial. Filmar atos de agressão apenas de policiais e se fazer de bobo diante de pessoas mascaradas que atiram coquetéis Molotov em prédios públicos ou em policiais é um comportamento típico nestes momentos.

Com a facilidade de comunicação que a Internet possibilita, não é difícil incitar pessoas a saírem de suas casas em prol de alguma causa difusa. Assim foram os manifestantes anti-Jango, os que tentaram deter a ditadura de Chavez (travestida de democracia) ou mesmo os iranianos que tentaram, durante a Primavera Árabe, mudar seu governo (sem sucesso). Mas a mesma facilidade de comunicação também permite que ingênuos possam ser iludidos com promessas e há mesmo os que recebem dinheiro (de quem?) para entrar em um movimento assim. Não é desconhecido de qualquer um que já tenha convivido ao lado de membros destes movimentos que existe um uso intenso de incentivos monetários para “reforçar as fileiras”.

Assim, se as manifestações são legítimas na democracia, mesmo por parte daqueles que desejam o seu fim e sua substituição por uma ditadura do proletariado ou outra besteira qualquer, elas não podem ser simplesmente classificadas de “boas” ou “ruins”.

O que se vê até agora é uma infinidade de interesses – até contraditórios – por trás das manifestações. Existe algum grau de espontaneidade, mas há grupos poderosos por trás de muitas de suas ações. Boa parte das reivindicações não segue a lógica simples. A motivação inicial, por exemplo, é absurda: tarifa zero para ônibus, como se existisse almoço grátis e isso não piorasse a vida de todos. Faltou alguém ler os primeiros capítulos do livro de Economia.

Embora sem lógica, há cronistas, formadores de opiniões e outros tantos não-economistas, com inexplicável penetração nos meios de comunicação que insistem que uma tarifa zero seria possível. Houvesse multa por besteira dita ou escrita, alguns destes estariam em sérios problemas financeiros.

Existem alguns poucos – muito poucos – manifestantes liberais, que buscam dar à discussão um tom distinto, embora possam até gritar palavras de ordem que não ajudarão em nada na reformulação do sistema de transporte público urbano. Pelo menos, em princípio, reconhecem o problema do custo econômico e estão corretos em apontar as contradições de 99.98% do restante dos protestos.

Além destes, há os que se cansaram da impunidade alcançada pelo partido do governo com o episódio do “mensalão”, a destruição do já frágil marco regulatório em várias áreas, os ataques heterodoxos à política econômica que acabou com a corrosão do salário dos trabalhadores e a implantação, às custas dos contribuintes, da escolha de perdedores por parte do BNDES (em troca de alguns “campeões” que, aliás, são sempre generosos em campanhas eleitorais). Há também a promoção esquizofrênica da redução da pobreza ao mesmo tempo em que discursa ferozmente contra “a classe média”, destruindo os sonhos dos mesmos que acabaram de entrar no mercado com uma vida um pouco melhor.

A tarifa está mais cara, é verdade, mas isto é porque o modelo econômico do governo promove a inflação e o crescimento econômico pífio com suas ações. Sim, a culpa é dele. Não é de hoje que políticos do governo e aliados se gabam da inexistência da oposição. Ora, sem oposição e sem crise externa, com um poder de intervenção que beira aos maiores níveis de obesidade governamental, o estrago alcançado na economia, que gerou as pressões por maiores tarifas, é, sim, resultado das próprias ações do governo, por mais que ele queira negar este fato óbvio.

Assim, a manifestação é sempre legítima, mesmo que por motivos torpes, ingênuos, bons, lógicos, malucos ou desonestos…ou todos. Para finalizar, vale pensar em algumas perguntas.

1. Vale a pena apanhar por conta de uma agenda difusa, confusa e incerta? Não creio.

2. O movimento conseguirá alguma vitória? Duvido muito, se o assunto for a tarifa.

3. Ele é uma “mudança nos hábitos da população”? Não. Como todo movimento, este também perderá força com o tempo.

4. O que é preciso para que ele tenha resultados bons para todos? Basta que as pessoas evitem o domínio dos militantes profissionais, dos criminosos que só pensam em “quanto pior, melhor”, e também que reformulem suas propostas com base em alguma lógica simples. Ora, se a tarifa sobe porque a inflação sobe e se a inflação sobe porque o governo assim o permite, a solução não é a tarifa zero ou o governo mais inchado, obeso (e, portanto, mais atraente para corruptos).

5. Você é contra o movimento? Claro que não. Mas sou contra a falta de uma agenda que faça sentido. Se você vai sair por aí defendendo o racismo, com 300 mil pessoas, serei contra. Se defende mais governo em uma situação na qual o mesmo é quem causa o calo em seu pé, obviamente, serei contra. É um direito meu discordar. Caso você ou eu passemos dos limites da lei, obviamente, que as autoridades usem da lei para nos conter.

6. Então você é um liberal? Socialista? Minarquista? Acho ridículo rotular pessoas. Os rótulos não mudam o fato lógico, elementar, de tabuada mesmo, que nos dizem que mais inflação gera maiores pressões para aumentos de custos. Se sua preocupação é rotular alguém, adianto que esta discussão se dá em dois níveis: um filosófico, interessante, mas que não cabe aqui e; claro, outro nível, quadrúpede, muito comum na internet e nos bares. Parece-me que a discussão relevante é outra. Quem quiser enterrar o osso, que o enterre.

7. Isto é tudo? Não consegue falar mais nada? Nunca me arroguei o direito de superioridade e completude intelectual. Sou economista. Não posso falar com autoridade sobre o que não entendo. Mas se você se acha no direito de atrapalhar o trânsito por algum motivo, por que não posso me expressar por escrito em meu blog? Não gostou? Mude de canal. Gostou? Obrigado.

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6 respostas em “A manifestação que desmanchou ao contato com o ar (um longo e não revisado ensaio) UPDATED

  1. FHC é a personalidade mais importante do Brasil na segunda metade do século XX, não pelo bem que fez, mas pelo mal que praticou. Ele cometeu o terrível erro de avaliação de todos os que abraçaram a social-democracia, de achar que chegam ao poder, cavalgando na mentira igualitarista, e nele conseguirão manter-se. Ora, eles sempre serviram e servirão de abre-alas da revolução. Nas suas pegadas sempre virão os “verdadeiros” socialistas. O mal legado por FHC talvez exija dos brasileiros um preço como os alemães pagaram para se livrar de Hitler e do nazismo.
    Enfim, os anos de FHC servem para a gente se lembrar de quem é a autoria da tragédia brasileira, da qual estamos a viver apenas a alvorada. Tempos de grandes perigos.

  2. ” O movimento conseguirá alguma vitória? Duvido muito, se o assunto for a tarifa”

    Eu diria que você está enganado, várias cidades inclusive já baixaram.

    • Eu diria que isto não é nada, já que, a não ser que você acredite em almoço grátis, está óbvio que o adiamento apenas fará com que o aumento ocorra adiante.

    • Em São Paulo a tarifa realmente abaixou, em R$0,20. Com isso o Haddad, propôs elevação do imposto sobre a gasolina. Seria o dono de carro de São Paulo subsidiando o transporte público da cidade.
      Isso daria outro “bom” movimento…

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