Manifestar para…

…para o que, exatamente? Samuel mostra que as coisas não são tão simples como demandam os líderes das passeatas (sim, eles existem e já foram até entrevistados).

Seria muito legal se, ao invés de ir para as ruas com cartazes, as lideranças de todos os micro-grupos envolvidos fosse honesta com seus comandados (e convidados) e, antes de mais nada, mostrasse de onde sairá o dinheiro para esta ou aquela demanda. Afinal, uma das demandas é pelo fim da corrupção (ou por mais ética, sei lá).

A lição mais importante é: não existe almoço grátis e esta não é uma proposição ideológica (não adianta pegar cinco mascarados fazendo uma saudação nazista e dizer que a “a direita dominou as ruas, temos que tomá-las de volta”…mascarado é mascarado e cinco andorinhas não depredam uma concessionária inteira).

Então, neste final de semana, leia a coluna do Samuel Pessôa e faça suas contas: quanto sai os vinte centavos a menos? Diminuir vinte centavos custa um aumento de quantos reais nos seus impostos? Comece com esta conta e depois vá aprimorando o raciocínio. Aí sim, podemos começar a entender o problema.

Lembre-se que a inflação só piora as coisas e, como temos ouvido muito, diversas autoridades do governo explicitamente falam em “mais inflação por mais crescimento” (às vezes de maneira sutil e maldosa, tentando acusar o Banco Central de malvado e feio). Aí sim, estaremos começando a atacar o problema.

A verdadeira causa dos protestos

Adolfo explica (e ensina, para quem não sabia) de forma bem didática o porquê destes protestos. Claro que muita gente manipulou os fatos para inserir outras demandas no meio, mas isso não faz com que desapareça a causa inicial das manifestações.

A necessidade de poucos deve dar lugar à de muitos (Momento Tico-e-Teco do Dia)

 Thus, by 1800 fully one half of the total Brazilian population of 3,200,000 was slave, and by 1818 there were 1,930,000 slaves besides some 526,000 free Negroes and mulattoes, in all about sixty-three per cent of the total.[4] By the middle of the nineteenth century there was something like three millions of slaves out of a population of seven and a half millions. Lord Palmerston estimated the total number of slaves in the sixties as being 3,000,000;[5]whereas a writer in the “Revue des deux Mondes” puts the number between 2,500,000 and 4,000,000.[6] Dawson quotes the number of slaves in 1856 as being approximately 2,500,000 or forty per cent of the total population.[7] Apparently there is no actual census available on the number of slaves for this period. Needless to say, the slaves easily comprised from forty to fifty per cent of the population, and if we add all those of mixed blood we have a majority of the inhabitants of Brazil. [Fonte: http://en.wikisource.org/wiki/Brazilian_and_United_States_Slavery_Compared]

Aplicando o critério de Spock, temos que:

Em 1800, a escravidão era ótima.

Em 1856, idem.

Vale dizer, se você acredita neste “mantra”, cuidado…

Sou contra, sou a favor, sou contra, sou a favor…

 “Não sou ligado a nenhum grupo. A gente está tentando lutar por melhorias para todos. A grande maioria está para protestar pacificamente para serem ouvidos. Tem a parte mais violenta. Nenhuma revolução também é feita só com flores. Não apoio, mas acho que são necessários. Mas do jeito que está passou um pouco dos limites”, falou.

Pois é, fica difícil saber o limite das coisas. O Diogo Costa me conta sempre uma história de um colonizador inglês que se depara com um indiano que lhe fala algo como: “faz parte da nossa cultura apedrejar a mulher adúltera” (acho que é um pouco diferente, mas você entenderá meu ponto). O colonizador – descrito em nossos livros de História como um bárbaro malvado e feio – ouve e responde: “no meu país a gente enforca quem faz isso”. E aí a discussão geralmente causa embaraço nos ingênuos defensores “avatarianos” da auto-determinação dos povos e tal.

Quando o assunto é violência, há sempre gente falando de quebrar ovos para fazer um omelete, ou mesmo que a necessidade de alguns devem se sujeitar à de muitos (um argumento que, se levado a sério no século XVIII, não teria permitido o fim da escravidão em muitos países…).

O trecho acima é uma perfeita demonstração da angústia que o indivíduo sofre ao falar da violência. Ele quer mudar o mundo e acha que tem que haver algo além das flores (presumivelmente: a violência), mas não pode ser muita. O problema é que violência não é controlável. Abriu a caixa de Pandora, acabou.

O fato é que a violência que assistimos é bastante sem sentido, no pior estilo de milícias, grupos paramilitares que agem sem se identificar (embora sigam orientação de alguém em muitos casos). Quem pode achar que o dono de uma concessionária de carros sul-coreanos é o responsável pelos gastos com a Copa? Alguns militantes pensam assim, ou agem com algum outro objetivo em mente.

Ironicamente, em Brasília, onde os protestos foram organizados por gente…do governo (Senado?), não há depredação de um único prédio público. Ainda bem, não é? Mas por que gerar desemprego para alguns vendedores de automóveis se o objetivo é combater a  corrupção, a cura gay ou os mensaleiros? Ou será que o objetivo verdadeiro não tem nada a ver com isso?

Estas são perguntas muito boas para discussões filosóficas, mas não devolvem o emprego de quem vendia carros. Também não devolve a vida do estudante que morreu aqui em BH (ou os outros, em outras cidades). A violência, tal como tudo na vida, é uma questão de incentivos. Evidentemente, há pessoas mais ou menos violentas por causas genéticas ou de criação. Entretanto, para se impedir a violência, você tem que aplicar incentivos.

A ética do sujeito que protesta, acredito, é pelo respeito à propriedade privada e também à pública. Não é contra a apropriação imoral de ambas por alguns políticos que os manifestantes dizem marchar? Então fica a pergunta: quem é que deve ter o direito de estabelecer o limite da violência? Existe violência boa? Ou é boa só quando não me afeta?

Dias interessantes estes. Mas perigosos também.

 

Onde estão as propostas?

Olha só a quem interessa isso tudo.

Ah… agora entendi…se o governo cuida mal dos transportes, vamos dar mais governo aos transportes! “Virada à direita”, gritam os querem colocar o bode na sala para depois tirá-lo, e, no final, a proposta é estatizar.

Agora é a hora de mostrar que tanto dinheiro investido em idéias libertárias não foi apenas para reproduzir brigas de libertários norte-americanos no Brasil. Estou ansioso para ver as propostas efetivas dos que são contra as estatizações para este caso. Afinal, anos e anos de falatório libertário deve ter gerado alguma proposta efetiva para problemas de bens públicos e externalidades, não é? Ou não existe um único libertário brasileiro que não tenha estudado políticas públicas ou, melhor ainda, problemas urbanos? Vou ficar triste se for este o caso.

Fora do movimento libertário “oficial” (este mundo das instituições), as únicas sugestões que ouvi até agora foram a do Leo Monasterio e também, por alto, uma breve menção a um caso empírico de Brasília, por parte do Adolfo Sachsida (embora ele defenda a concorrência, não há mudanças de preços em seu exemplo, o que me deixa em dúvida sobre se, de fato, os casos que ele cita realmente são efeitos da concorrência ou apenas uma correlação espúria).

Comentários que não sejam propostas efetivas não serão publicados. Não pessoal, nada de generalidades, de exemplos que se aplicam a Michigan, mas não aqui, etc. Eu conheço a teoria e sei das consequências não-intencionais e também dos debates “sexo-dos-anjos” sobre se existem ou não externalidades. Entretanto, a solução para o transporte urbano é uma demanda imediata. Assim, vamos nos esforçar para embasar as propostas nos dados do Brasil (nossas instituições, diria North, são nosso problema (diria Leff?)).

Aos mais exaltadinhos: as tentativas de xingar ou bagunçar a ordem do blog, também estão descartadas.

A cultura anti-empresarial e o baixo crescimento econômico

Este texto para discussão do NBER vale a leitura, principalmente para os brasileiros. Temos revolta nas ruas e escolas que instilam idéias anti-empreendedorismo sem o menor cuidado com o futuro do país.

Eu sei que existe uma economia política por trás disto (bem resumida aqui) e também sei que deveríamos ler mais sobre isto e mudar nossa mentalidade.

Bom, começa com a leitura, né?

Imagine que você quer viajar para o exterior

Imagine que você saiu nas férias para fazer uma grana extra no Reino Unido ou, sei lá, nos EUA. Bacana, não é? Agora, imagine que, chegando nos EUA (fiquemos com este, sempre alvo de amor e ódio), você arrume um bico numa cadeia de fast-food. Jóia, apesar de ser brasileiro, os norte-americanos não são xenófobos a ponto de ignorarem o famoso cálculo de custo-benefício.

Você não ganha tubos de dinheiro, mas não tem restrições para trabalhar direito. Sai do serviço à noite e, de vez em quando, curte uma baladinha. Usa a internet para avisar seus familiares e contar suas burradas e sucessos para a turma de amigos. Um belo dia, conhece uma nativa e começa a sair com ela. Dá uns beijos, passeia, toma picolé, mas o dia de voltar se aproxima. Você faz as malas e volta para o Brasil.

A história é simples e nenhum brasileiro dirá que não conhece alguém que já não fez algo parecido.

Agora, vamos pensar na vida de um médico cubano que é obrigado (ou não) a vir para o Brasil. Ele vem trabalhar por um dinheirinho. Ok. Ele dá duro, tenta aprender um pouco de português, rala e, à noite, quer sair para a baladinha. Infelizmente, não pode ir se não for com um grupo de cubanos. Dentre eles, claro, tem o “olheiro” do governo cubano.

O tempo passa e ele não pode usar a internet livremente porque sabe que, se criticar seu governo, sua família terá sua ração diminuída. E tem os olheiros, claro.

Numa das noitadas, ele conhece uma brasileira e se apaixona. Opaaaa, a história não pode continuar. Por que? Porque o que o governo brasileiro pretende fazer, junto com o governo cubano, é aceitar o médico aqui, desde que ele não se relacione “intimamente” com nenhuma nativa. Não, eles não são racistas. Não se trata de uma visão fascista do império castrista (ou castrador?). É o medo, puro e simples, de que os médicos abandonem o país (deles) como o fizeram na Bolívia.

Um ex-ministro da Justiça, lembrem-se, forçou dois boxeadores cubanos a voltarem para Cuba porque, porque..sei lá, por motivos humanitários. Com o apoio de militantes que condenam a Apple ou a Nike por usarem trabalhadores em condições de semi-escravidão, alguns políticos brasileiros e outros cubanos estão para importar médicos sob estas condições.

A gente começa a se perguntar: com tanto médico em uma Europa em crise, porque não incentivar a vinda deles?

Eu não tenho nada contra a concorrência de médicos estrangeiros, não me entendam mal. Mas não acho bonito ou moralmente (ou eticamente, etc) correto trazer médicos com um monte de restrições à vida íntima deles (= liberdade individual, tá? Ou quer que desenhe? Use o Aurélio antes de espumar de raiva e vomitar comentários mal educados). A escravidão, segundo Marx, não era algo bonito de se ver. Entretanto, seus devotos seguidores acham correto fazer isto com seres humanos.

Por que não, simplesmente, liberar a emigração dos cubanos para o Brasil? Deixe que venham os médicos que quiserem vir. Deixe que trabalhem e se relacionem com quem quiserem. Não é assim com os brasileiros que vão ao exterior? Alguém aí acha correto obrigar estudantes brasileiros a capinar no exterior, sem liberdade de sair sozinho, sem direito a namorar ninguém e ainda ser vigiado e, já me esquecia, enviar parte da grana para o governo brasileiro?

Estão saindo às ruas estes dias por muitas causas. Eu sairia por uma causa destas: sou solidário com gente que vive sob uma ditadura. E vocês?

E depois da marcha?

Após tantas notícias, já está claro para todo mundo que brasileiros conseguem sair às ruas e protestar. Não foi muito diferente da época das “Diretas Já”, exceto que, agora, não se enfrenta uma ditadura. A máscara do anonimato caiu e vimos a truculência partir do lado dos manifestantes: não adianta culpar a polícia. Ela, sozinha, não causa violência. Há dois lados na história da violência, como o próprio Caco Barcelos poderá contar, com serenidade, em alguns anos.

Algumas cidades, numa óbvia demonstração de incompetência, voltam atrás e dizem que o preço pode, sim, cair. Ouvem-se algumas comemorações, mas agora o discurso espalhado por alguns, de que não era apenas por vinte centavos, não nos permite parar. Temos que marchar, marchar, marchar. Até onde?

A luta atual é para se apossar deste capital político. Grupos de esquerda e centro-esquerda lutam para se fazerem como porta-vozes do movimento. Nada poderia ser mais simples, já que as exigências que alguns dos grupos divulgaram são tão vastas e diversas que fica difícil ser contra a marcha.

E todos continuam marchando.

O discurso do governo se inverte e, como no livro 1984 de George Orwell, os militantes virtuais alteram suas queixas. “Bateu no Caco Barcelos? Vamos ficar quietinhos. Tem como acusar o governador de SP e isentar o prefeito? Vamos berrar, postar videos, etc”.

Não é ilegítimo falar bobagens e mentir é parte da política. Mas seguir este comportamento é como repetir o que supostamente estamos condenando (e marchando, é bom lembrar).

Vamos esquecer, por alguns instantes, a truculência da polícia, dos manifestantes, as forçadas de barra dos militantes que pretendem representar todo este povo e vamos nos perguntar: e depois da marcha?

Depois da marcha, vamos discutir, de fato, soluções realistas para o transporte público? Ou era só para sacanear com este ou aquele político?

Depois da marcha, você vai, mesmo, parar de estacionar em fila dupla? Vai denunciar políticos ladrões? Vai recusar subornos?

Depois da marcha, você lutará por sua liberdade? Ou vai lutar para levar um Castro, um Chávez, um Morales, um Correa ou um outro ditador para o poder?

Depois da marcha, você vai voltar a pedir cadeia para os mensaleiros? Afinal, é por muito mais do que vinte centavos, né?

Depois da marcha, você vai assistir a Copa nos estádios que condena?

Eu gostaria mesmo de saber se, depois da marcha, você vai apoiar um líder autoritário, super-intervencionista, que vai “colocar a classe média e estes liberais no seu lugar” ou se vai lutar para que haja mais liberdade e tolerância.

Fala para mim, de verdade, o que você vai fazer depois da marcha?

105 anos!

Apesar dos descendentes não terem quota ou reparações pelas atrocidades culturais cometidas pelo ditador Vargas (ahá!), eis que a imigração japonesa completa, no Brasil, 105 anos. Sem esmolas por causa da história, sem queixa por causa das piadinhas de japonês, nada disto. Ninguém aqui quer esmola.

Eis aí mais um motivo de orgulho!

Entretanto, nem todos os descendentes se lembram da cultura dos que os antecederam. Uma pena! Mas ainda há tempo para você recuperar estes valores interessantes: participe das festividades e se informe sobre a cultura de seus ancestrais!

A manifestação que desmanchou ao contato com o ar (um longo e não revisado ensaio) UPDATED

Alguns dizem que é uma espécie de “primavera árabe”, outros, que é uma simples manifestação de revoltados. Adjetivos não faltam para qualificar esta estranha manifestação que observamos nos últimos dias.

Não é novidade para ninguém que toda ação coletiva só tem algum sucesso se resolve seus problemas de incentivos. Assim, como é que se entende a junção de tantas pessoas em tantas capitais? Em primeiro lugar, o custo de comunicação caiu muito com a Internet. Em segundo, vários organizadores do movimento – notadamente em Brasília – são funcionários do próprio governo que o movimento, supostamente, critica. Terceiro, a população enfrenta uma situação criada pelo governo brasileiro que pode ser chamada de estagflação: não há crescimento e há inflação.

Repare que nenhum dos três argumentos, separadamente, consegue explicar a união de pessoas nas ruas. Ninguém é ingênuo de acreditar que não existem militantes profissionais, com vasto conhecimento da tecnologia de criar barulho com indivíduos que nem sempre sabem de sua existência. Por este argumento apenas, as manifestações seriam guiadas por partidos que possuem, em seus estatutos/manifestos/atas, palavras de ordem que clamam pela destruição do capitalismo. Há quem, no Brasil, defenda estes políticos, a paz, o desarmamento e, ao mesmo tempo, o uso da violência para fins de baderna visando o “fim do capitalismo”.

Pensando nestes termos, qual seria a motivação do governo (ou da oposição) em cultivar manifestações aparentemente anti-governo? Simples: cooptar, ocupar e desviar os movimentos de suas intenções originais em prol de seus objetivos eleitorais ou revolucionários. Neste sentido, haverá sempre um confronto interno no movimento entre os que acham correto pedir benção para traficantes e bater em policial. Filmar atos de agressão apenas de policiais e se fazer de bobo diante de pessoas mascaradas que atiram coquetéis Molotov em prédios públicos ou em policiais é um comportamento típico nestes momentos.

Com a facilidade de comunicação que a Internet possibilita, não é difícil incitar pessoas a saírem de suas casas em prol de alguma causa difusa. Assim foram os manifestantes anti-Jango, os que tentaram deter a ditadura de Chavez (travestida de democracia) ou mesmo os iranianos que tentaram, durante a Primavera Árabe, mudar seu governo (sem sucesso). Mas a mesma facilidade de comunicação também permite que ingênuos possam ser iludidos com promessas e há mesmo os que recebem dinheiro (de quem?) para entrar em um movimento assim. Não é desconhecido de qualquer um que já tenha convivido ao lado de membros destes movimentos que existe um uso intenso de incentivos monetários para “reforçar as fileiras”.

Assim, se as manifestações são legítimas na democracia, mesmo por parte daqueles que desejam o seu fim e sua substituição por uma ditadura do proletariado ou outra besteira qualquer, elas não podem ser simplesmente classificadas de “boas” ou “ruins”.

O que se vê até agora é uma infinidade de interesses – até contraditórios – por trás das manifestações. Existe algum grau de espontaneidade, mas há grupos poderosos por trás de muitas de suas ações. Boa parte das reivindicações não segue a lógica simples. A motivação inicial, por exemplo, é absurda: tarifa zero para ônibus, como se existisse almoço grátis e isso não piorasse a vida de todos. Faltou alguém ler os primeiros capítulos do livro de Economia.

Embora sem lógica, há cronistas, formadores de opiniões e outros tantos não-economistas, com inexplicável penetração nos meios de comunicação que insistem que uma tarifa zero seria possível. Houvesse multa por besteira dita ou escrita, alguns destes estariam em sérios problemas financeiros.

Existem alguns poucos – muito poucos – manifestantes liberais, que buscam dar à discussão um tom distinto, embora possam até gritar palavras de ordem que não ajudarão em nada na reformulação do sistema de transporte público urbano. Pelo menos, em princípio, reconhecem o problema do custo econômico e estão corretos em apontar as contradições de 99.98% do restante dos protestos.

Além destes, há os que se cansaram da impunidade alcançada pelo partido do governo com o episódio do “mensalão”, a destruição do já frágil marco regulatório em várias áreas, os ataques heterodoxos à política econômica que acabou com a corrosão do salário dos trabalhadores e a implantação, às custas dos contribuintes, da escolha de perdedores por parte do BNDES (em troca de alguns “campeões” que, aliás, são sempre generosos em campanhas eleitorais). Há também a promoção esquizofrênica da redução da pobreza ao mesmo tempo em que discursa ferozmente contra “a classe média”, destruindo os sonhos dos mesmos que acabaram de entrar no mercado com uma vida um pouco melhor.

A tarifa está mais cara, é verdade, mas isto é porque o modelo econômico do governo promove a inflação e o crescimento econômico pífio com suas ações. Sim, a culpa é dele. Não é de hoje que políticos do governo e aliados se gabam da inexistência da oposição. Ora, sem oposição e sem crise externa, com um poder de intervenção que beira aos maiores níveis de obesidade governamental, o estrago alcançado na economia, que gerou as pressões por maiores tarifas, é, sim, resultado das próprias ações do governo, por mais que ele queira negar este fato óbvio.

Assim, a manifestação é sempre legítima, mesmo que por motivos torpes, ingênuos, bons, lógicos, malucos ou desonestos…ou todos. Para finalizar, vale pensar em algumas perguntas.

1. Vale a pena apanhar por conta de uma agenda difusa, confusa e incerta? Não creio.

2. O movimento conseguirá alguma vitória? Duvido muito, se o assunto for a tarifa.

3. Ele é uma “mudança nos hábitos da população”? Não. Como todo movimento, este também perderá força com o tempo.

4. O que é preciso para que ele tenha resultados bons para todos? Basta que as pessoas evitem o domínio dos militantes profissionais, dos criminosos que só pensam em “quanto pior, melhor”, e também que reformulem suas propostas com base em alguma lógica simples. Ora, se a tarifa sobe porque a inflação sobe e se a inflação sobe porque o governo assim o permite, a solução não é a tarifa zero ou o governo mais inchado, obeso (e, portanto, mais atraente para corruptos).

5. Você é contra o movimento? Claro que não. Mas sou contra a falta de uma agenda que faça sentido. Se você vai sair por aí defendendo o racismo, com 300 mil pessoas, serei contra. Se defende mais governo em uma situação na qual o mesmo é quem causa o calo em seu pé, obviamente, serei contra. É um direito meu discordar. Caso você ou eu passemos dos limites da lei, obviamente, que as autoridades usem da lei para nos conter.

6. Então você é um liberal? Socialista? Minarquista? Acho ridículo rotular pessoas. Os rótulos não mudam o fato lógico, elementar, de tabuada mesmo, que nos dizem que mais inflação gera maiores pressões para aumentos de custos. Se sua preocupação é rotular alguém, adianto que esta discussão se dá em dois níveis: um filosófico, interessante, mas que não cabe aqui e; claro, outro nível, quadrúpede, muito comum na internet e nos bares. Parece-me que a discussão relevante é outra. Quem quiser enterrar o osso, que o enterre.

7. Isto é tudo? Não consegue falar mais nada? Nunca me arroguei o direito de superioridade e completude intelectual. Sou economista. Não posso falar com autoridade sobre o que não entendo. Mas se você se acha no direito de atrapalhar o trânsito por algum motivo, por que não posso me expressar por escrito em meu blog? Não gostou? Mude de canal. Gostou? Obrigado.

Quando a administração da empresa é instável, o que acontece?

O BOJ (ou, deveria eu dizer: NG, em japonês?), autoridade monetária japonesa, teve uma abrupta mudança com a chegada da tal Abenomics. Não apenas houve uma mudança de comando (sai Shirakawa e entra Kuroda) como também de política. Bem, isto não é novidade para o leitor deste blog.

Entretanto, esta pequena matéria do The Japan Times de hoje chama a atenção para um possível efeito microeconômico sério desta mudança abrupta: a possibilidade concreta de perda de recursos talentosos. Dado que o salário no BOJ não é tão competitivo assim, e dado que existe a possibilidade de se trabalhar no setor privado, é possível que vários funcionários qualificados resolvam deixar o BOJ.

Existe também o aspecto político (de Economia Política: Arrow, Buchanan, Tullock, Alesina, etc) disto que é o movimento oposto: o sujeito que busca um cargo público para ganhar projeção, aumentar seu suposto valor e migrar, posteriormente, para o setor privado. O que o artigo de jornal ilustra é o outro – e mais trivial – incentivo que geraria a saída de pessoas do BOJ: o simples salário relativo (ou, se alguém quiser, o salário-eficiência (aqui, ilustrado em um debate mais antigo, na blogosfera)).

Como saber o quanto da migração da mão-de-obra é devida a um motivo ou outro é um trabalho árduo que fica para o pessoal que “mete a mão na massa”, ou seja, a turma da econometria. 

Quem aumentou a tarifa de ônibus?

Todos nós sabemos que foi o governo. Sorry, guys, é a verdade.

1. Promessa de diminuir a conta de luz (quase a qualquer custo?) = maior uso de energia elétrica, logo…

2. Intervenções em planos de saúde, setor farmacêutico, restrições de todo o tipo = aumento de custos.

3. Política monetária frouxa e política fiscal escancaradamente frouxa em um procedimento totalmente compatível com aqueles que buscam manipular o ciclo econômico para fins eleitorais = aumento de custos, preços.

4. Encarecimento do trabalho das domésticas = mais desemprego, maiores custos e aumento de demanda por escolas integrais (logo, aumento de preços).

5. Extensão de bolsas (família, etc) sem sequer checar as fraudes – que qualquer um minimamente informado sabe que existe  = maior despesa pública, logo, maior necessidade de impostos ou de qualquer outra forma de aumento de receitas. Logo, pressões sobre custos.

6. Recusa ideológica em deixar o mercado operar e linhas de crédito do BNDES favorecidas para os “campeões” às custas dos perdedores = aumento da dívida pública futura que é, basicamente, aumento de impostos no futuro, logo, maiores custos.

7. Farra do crédito imobiliário = Aumento de demanda por crédito para comprar imóveis, logo, maior pressão para aumento do preço dos imóveis.

Então, mesmo sabendo que esqueci um monte de medidas similares, fica claro que qualquer empresa brasileira, concessionária, privada ou mesmo pública já está com aumento de custos. Os sete itens acima mais os que eu não me lembrei resultou em baixo crescimento e inflação alta. A política heterodoxa, dominante no governo, resultou no que eles diziam ser culpa do “neoliberalismo” (nunca adotado no Brasil, vale dizer).

Logo, por tabuada básica, estas empresas têm duas opções: demissões e retração de atividades ou aumento de preços. Em alguns casos, não é possível (empresas públicas). Em outros, é possível repassar, em algum grau, os custos para o consumidor final. Este é exatamente o caso das empresas de ônibus. Do outro lado, os consumidores têm sua renda real corroída porque o governo atuou de forma a que isso ocorresse. Mesmo não sendo absoluto em termos de poder de estragos econômicos, seu poder não é desprezível.

Qual a opção? Mudar a política econômica e, não se engane, isto significa racionalizar a atuação do governo na economia e esta racionalização é, sim, compatível com mais mercado e você ouvirá falar de liberalismo econômico. Caso você não goste disto, fique emburrado com rótulos ou seja mimado o suficiente pela doutrinação ideológica para não aceitar os fatos (Keynes disse, acho, que é burrice não mudar de idéia quando os fatos mudam, uma frase que cai muito bem aqui), então, vá às ruas pedir mais governo e menos tarifa. Não faz sentido, mas você tem o direito de protestar pelo que quiser, mesmo que a causa seja bonita e sua lógica seja errada.

Agora, se quer protestar com conhecimento de causa, seja você liberal ou não, não dá para pedir tarifa zero, mais governo, menos inflação, mais intervenção governamental, juros baixo e mais crédito. Isso é burrice e não há outra palavra para definir isto. É, mesmo, burrice.

De minha parte, ainda que de forma imperfeita, com um texto pequeno e incompleto, tentei mostrar qual seria a forma de você protestar com um mínimo de lógica. Espero que tenha ajudado.

Imprensa boa

Veja a o título deste pequeno texto publicado no Estadão. Resolvi ver o que um investidor do Deutsche Bank lê e descobri isto. Parece que o investidor não-brasileiro não tem medo de gráficos e álgebra (justiça seja feita, alguns analistas daqui fazem o mesmo, embora sofram com argumentos de chefes imbecis que não querem sair do mundo da regra de três ou com leitores que não sabem o que querem ler e nem se esforçam para ler um texto). Não apenas isto, como repórteres sérios não temem ler working papers, como vemos aqui.

Ah sim, o estudo original está aqui, mas apenas para clientes do banco.

A moral da história é que você, aluno, que aprende Microeconomia, Macroeconomia, Econometria e não sabe o que se faz com isso não tem mais este problema de ignorância. Acabei de mostrar um exemplo.