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Mercado, cultura e instituições

Meu xará publicou um link interessante (na verdade, com este outro link explicativo). Eu, como não sou carioca, fiquei intrigado: o que estaria acontecendo? Que negócio é este de “barraqueiros”, guarda-sóis e intervenção do governo?

Foi aí que o xará me explicou. Basicamente, existem barraqueiros que alugam barracas. Alguém lá não gostava das cores fortes das mesmas e a prefeitura resolveu intervir. Fez um contrato com uma cervejaria (patrocínio) e conseguiu ofertar um “bem público” de forma privada. Que bem público? A tal “visão menos agressiva da praia”.

Ocorre que são vários barraqueiros: como evitar o roubo? Para a prefeitura, sua solução eficiente foi o espaço, nas mesmas, para identificação dos donos. Imagino que alguém achou que estaríamos na civilização e, portanto, bastaria um discreto espaço para tanto (até porque não podemos estragar “o novo visual bonitinho dos guarda-sóis”).

Seria perfeito se não fosse o fato de que o roubo compensa no Brasil (apesar da gritaria, ainda é um país com sofrível índice de solução de crimes, menos ainda de restituição de valores, quando comparado com países sérios). Solução? A identificação dos guarda-sóis (“barracas”) deve ser o mais evidente possível, o que atinge o problema inicial que o governo procurou resolver.

Então, novamente, voltamos aos eternos pontos de discussão que levantamos neste blog: não adianta o governo querer cuidar da belezura da mulata, da cor do limoeiro e da Copa do Mundo se não consegue cumprir suas funções básicas, aquelas clássicas definidas por Adam Smith.

Cadê a segurança pública? Não tem, mas tem o BNDES exigindo “conteúdo nacional” nas peças de sei-lá-o-quê. E a educação básica? Não tem, mas tem cota para o analfabeto chegar à faculdade. Cadê o básico? Não tem, mas tem propaganda para caramba sobre como nosso governo é quem comanda a economia.

Fala-se muito, mas o fato é que o pobre barraqueiro, para não ser vítima de roubo, tem que fazer o que desagrada a elite carioca (e outros não tão elitizados assim, mas a elite adora consumir bens como: “natureza bonita”, “patrimônio histórico”, etc, enquanto um barraqueiro precisa comer feijão e educar os filhos…nada contra nenhum deles, mas que fique óbvia a diferença de preferências): deixar a “beleza” da praia menos evidente. É isso ou perder renda. Quem pode condená-lo?

UPDATE: p.s. Esta notícia nos dá um bocado de material para aquela discussão sobre instituições, crenças, etc. Por exemplo, o argumento da “cultura explica tudo”, obviamente idiota, cai por terra com os fatos relatados. Não se trata de “cultura intrínseca do carioca sugismundo que adora sujar tudo o que vê”, mas sim de incentivos claros: ausência de punição para crime (que também é explicada pelo incentivo que um político tem de não combater o crime).

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