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Dotações, Instituições e Crenças – a tese Weberiana

“Taken together, that results lead to a conclusion that few would have prepared to believe just a few year ago: that speakers of different languages may perceive colors slightly differently after all”. [Deutscher (2010): 231-2].

É a cultura importante para se explicar o desenvolvimento econômico? Caso pensemos em termos de crenças – tomando de empréstimo a linguagem da Teoria dos Jogos, é difícil dizer que não há influência de certas crenças na atividade econômica. Entretanto, isto não significa que apenas crenças importam e nem que o status quo dos estudos nos forneçam um consenso sobre o tema.

Não é estranho ao leitor a famosa “tese weberiana”, qual seja, a de que o protestantismo teria libertado a atividade econômica do “estigma” que lhe imputava o catolicismo medieval. O termo “estigma” não seria incorreto. Segundo Ekelund et al (1996),  a frase que melhor resume esta idéia seria: homo mercator vix aut numquam Deo placere (o mercador pode levar sua vida sem pecado, mas não poderá agradar a Deus).

Muita gente acredita que a crença protestante, portanto, seria uma instituição informal essencial para explicar o desenvolvimento econômico. Entretanto, esta visão é incorreta (senão errada) por dois motivos: (a) imprecisão histórico-sociológica e (ii) endogeneidade.

O primeiro motivo é simples e podemos nos fixar em Ekelund et al (1996) para listar os problemas. Segundo os autores, o argumento de Weber é inconsistente com os ensinamentos calvinistas. Citando:

“Weber’s logic rests on the premise that Calvinism defines ‘works’ to include earthly toil, whereas informed theological authority maintains that the Calvinist ‘true doctrine of good works’ involves spiritual obedience to the Law. It has nothing to do with economic success (…). Nowhere does Weber confront the contradiction between his interpretation of Calvinism and the dictates of Calvinist theology, which exhort the faithful on the one hand to ‘choose that employment or calling…in which you may be most serviceable to God”. [Ekelund, R.B. et al (1996) : 173]

Além disso, há evidências contraditórias sobre a idéia de que a adoção do protestantismo teria gerado o desenvolvimento da atividade econômica (capitalista). Dentre outros, há a Hungria (não teria havido desenvolvimento capitalista), França (retrocesso) e Escócia (clero protestante hostil ao capitalismo), com evidências distintas.

Há também o fato de que Weber teria lido incorretamente a doutrina (e a história) católica. Exemplos seriam os conceitos de empréstimos produtivos/improdutivos no pensamento de São Tomás de Aquino, a participação da igreja católica no desenvolvimento dos mercados financeiros (“(…) monasteries acted as credit establishements, providing lending services to merchants at a critical time before the emergence of banking”. [Ekelund, R.B. et al (1996) : 175]), sua doutrina pró-riqueza (apesar de suas restrições sobre a tentação que a riqueza poderia trazer) e, claro, sua prática econômica, combatendo os hereges (e, como dizem os autores, defendendo suas rendas de monopólio).

Outro problema, talvez mais importante do ponto-de-vista teórico, seja a questão da endogeneidade da religião. Em poucas palavras, se X explica Y, cientificamente deve ser que Y não explica X ou, em outras palavras, o sistema teórico que relaciona X e Y deve ser representado, no mundo real, por uma clara relação de causalidade unilateral de X para Y. Caso contrário, não saberíamos “quem explica quem”.

Ser exógeno (ou, em outras palavras, não ser endógeno) é um requisito importante para uma variável que se pretenda ser causa de outra. Em nosso caso, a religião deveria ser um fator exógeno (não determinado por outra variável) que explicaria o desenvolvimento econômico. Entretanto, segundo North (2005), isto não é correto. Platteau & Hayami (1998) apresentam a hipótese de que diferentes tipos de religião seriam derivados de diferentes condições demográficas, apresentando evidências para a África e a Ásia. Desta forma, a explicação última não seria a religião, mas sim as dotações naturais da comunidade estudada.

A idéia de que dotações possam explicar instituições não é nova. Um exemplo comum, citado em livros-texto, é o da abundância de terras nos territórios colonizados pelos ingleses no continente americano e a ausência de um sistema de direitos de propriedade (sobre a terra). O aumento da densidade populacional geraria uma demanda pelo estabelecimento de tais direitos por meio da escassez relativa da terra.

Mas os autores citados por North (Platteau & Hayami (1998)) nos fornecem uma idéia adicional, qual seja, a de que as condições naturais (dotações) também possam formatar as crenças de uma comunidade. A pergunta mais importante, portanto, não seria, que crenças são mais ou menos favoráveis ao desenvolvimento econômico (sabemos quais são, creio). O que gostaríamos de saber é que condições naturais determinam diferentes tipos de crenças.

Bibliografia

Deutscher, G. Through the Language Glass – why the world looks different in other languages. Picador, 2010.

Ekelund, R.B.; Hébert, R.F.; Tollison, R.D.; Anderson, G.M. & Davidson, A.B. Sacred Trust – The Medieval Church as an Economic Firm. Oxford University Press, 1996.

North, D.C. Understanding the Process of Economic Change. Princeton University Press, 2005.