Uncategorized

O que a criança quer? O que a criança pode ter?

Diga a uma criança que você tem um novo método para fazê-la ganhar mais brinquedos e ela não medirá esforços em lhe convencer que ela será uma ótima cobaia. Alguém duvida? Acho que não. Qualquer um que já tenha visto uma criança deve saber do que falo. Quem nunca viu uma, sugiro que invista alguns poucos minutos neste pequeno experimento.

Todos nós somos um pouco criança, já disse algum (ou vários) poeta(s). Queremos a felicidade e achamos que temos um jeito simples de fazer isso. O presidente não conseguiu acabar com a fome? Só pode ser porque forças malignas o impediram de fazer isto. Existe gente espancando homossexuais? Só pode ser porque existe uma elite hipócrita que promove este espancamento. Há pobreza no mundo? Claro que a culpa é dos judeus. Racismo? Obviamente uma promoção de alguma maçonaria de supostos arianos.

Pois é certo que existem os que desejam conspirar, ora bolas. Mas entre o desejo de conspirar e o fazer acontecer há muito mais problemas como sabe qualquer funcionário de empresa que vê seu chefe cometer besteira sobre besteira sem ser punido. Enquanto isso, claro, a criança interior berra por solução. Onde está a vontade política? Por que meus desejos não se realizam? Simples: por que existem forças poderosas que me impedem de alcançá-los. Tem estupro de mulher na Índia? Faltou passeata de vadia. Só isso.

Mas talvez o mundo não seja tão generoso conosco, crianças. Talvez não existam soluções fáceis. Não basta marchar, não basta acusar judeus (e talvez nem sejam eles os culpados) e nem tudo é culpa de Israel (ou do Bush). O discurso mais fácil para convencer uma criança é o do “bem” contra o “mal”. Infelizmente, não é o discurso verdadeiro.

Na verdade, discursos como este geram crianças arrogantes. Crianças que pensam que tudo é uma questão de vontade. Tem uma galera que não percebe que a inflação subiu? Bem, o povo é ignóbil e precisa de um guia que os leve à compreensão plena, diz-nos a criança que habita nosso coração.  A criança quer muito que o mundo seja explicado desta forma. Chega a dar raiva quando o discurso não “cola” nos fatos. Vai ver existe uma versão judaico-militar da história que precisa ser substituída pela – vamos chama-la desta forma – versão infantil.

A imagem da criança evoca também a juventude e esta, claro, evoca energia, vontade, uma suposta facilidade em se resolver as coisas porque se é jovem. Jovens espancando pais? Não é apenas a Revolução Cultural de Mao – um legítimo experimento socialista – que promoveu este tipo de coisa. Houve também o Khmer Vermelho, hoje, devidamente colocado sob o tapete nas aulas de História. Por que? Porque estas terríveis imagens conflitam com a versão infantil dos fatos. Por que arrancar a inocência da juventude?

O interessante é que a criança interior se esquece da humildade. Será que sua versão explica mesmo os fatos? É só uma questão de conspirações? A explicação fácil não dói, mas a explicação complexa, ah sim, dói muito. Como é possível o socialismo discriminar e massacrar homossexuais? Mas é o que ocorreu em diversos países socialistas. Falar de racismo em Marx ou em Engels é quase pecado, mas é impossível negar os escritos deles (ainda que discretos e colocados, novamente, debaixo do tapete).

Seria o liberalismo (ou libertarianismo, para diferenciar o liberal norte-americano, que é, atualmente, exatamente o oposto do liberal no sentido clássico) compatível com alguma explicação fácil da realidade? Não.

O liberalismo não promete 100% de sucesso. O liberalismo é o que há de mais moderno, complexo e interessante, na minha opinião, e mesmo assim não garante sucesso. Aliás, não é diferente da inteligência artificial ou da computação. Como é que nós, crianças, pretendemos moldar indivíduos que sequer entendemos à nossa imagem e semelhança…que sequer é perfeita sob qualquer aspecto? A pergunta, tal como em outros momentos deste texto, também foi para debaixo do tapete que, inclusive, já se mostra desconfortavelmente irregular em sua superfície.

O liberalismo é uma solução que evoca a ordem espontânea, termo tão citado quanto pouco compreendido. Ainda há quem, no século XXI, acredite que há como moldar o ser humano segundo algum critério. Tentativas não faltam, claro. Há quem veja na propaganda uma arma poderosa (embora não consiga explicar como escapou da mesma). Outros falam de neurolinguística (embora continuem existindo disputas entre políticos). A lavagem cerebral também está na ordem do dia, mas é indefensável por um liberal.

Há também aqueles que pensam que alguns liberais são lacaios inconscientes da conspiração judaica-cristã, embora se vejam puros de similares influências. Quem é liberal, claro, só pode ter “viés ideológico”. Um não-liberal, obviamente, nunca se assume como viesado. O problema do debate político envolve, assim, uma criança que sofre ao encarar o mundo sob uma outra perspectiva que nem sempre lhe dará o conforto da certeza ou do autocentrismo. Envolve também a capacidade de enxergar um tapete irregular e de altura consideravelmente distante do normal e dizer que é apenas uma ilusão de ótica.

O liberal nunca prometeu a solução correta, apenas o método menos agressivo à natureza humana e que gere mais prosperidade para todos. Não há garantias que haverá igualdade de X ou Y em cada nano-segundo. Não há garantias de que o liberalismo não possa ser vencido por crianças que tenham dificuldades de enxergar outros pontos de vista e até de mudar de opinião. Não garante o liberalismo que nada de errado ocorrerá e, claro, não garante que não possam nascer pessoas que pensem como anti-liberais.

Para que serve, então, o liberalismo? Talvez devamos perguntar: onde nos levará uma criança auto-cêntrica que não muda de opinião? Esta sim, é a pergunta interessante para nós, adultos e, com alguma esperança, para muitas crianças.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s