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É possível ser diferente? Bem-Vindo, EPL!

Recentemente recebi a notícia de que o Estudantes Pela Liberdade (EPL) teria chegado em Minas Gerais, por sinal, berço de um dos movimentos mais famosos contra a tirania estatal, a Inconfidência Mineira.

Por natureza, sou cético quanto a movimentos estudantis. Não sei exatamente como será o futuro do EPL, mas vejo que, como todo movimento recém-nascido, há muito entusiasmo quanto ao que se pode fazer.

Sejamos realistas. O EPL não possui anticorpo mágico contra corrupção ou outras práticas ruins inerentes à política. Creio que o EPL não chega com a pretensão de ser um movimento de anjos iluminados, mesmo porque o EPL nasce de leituras sólidas sobre a Economia e a Política e, portanto, sabe que não existem anjos no mundo da economia política.

Vejo o EPL, assim, como uma proposta interessante. Legítimo, como qualquer outro movimento, o EPL tem uma proposta que tem sido rechaçada e quase extinta – sem receber, sequer, a atenção dos famosos defensores de “quotas para minorias” – no Brasil: a proposta liberal-libertária. Por que?

Durante vinte anos, por motivos os mais diversos, incluindo a má prática de alguns liberais, o Liberalismo ficou erroneamente associado ao militarismo. Por mais absurdo que possa parecer (exceto, talvez, em ingênuas teses pseudo-dialéticas), não há como colocar Liberalismo e militarismo (ou ditadura) no mesmo saco. Entretanto, assim o Liberalismo é vendido para a sociedade. Enquanto um socialista pode sacar uma camisa de um fascínora como Che Guevara, um Liberal é visto como um leproso por se aliar com Conservadores. Não me parece que o pragmatismo dos estatistas de esquerda seja mais legítimo do que o dos liberais.

O Liberalismo, na versão moderna que os jovens brasileiros esposam, é mais próximo do chamado Libertarianismo. Os jovens, nascidos na era da Internet, importaram a versão mais atual do maravilhoso Liberalismo Clássico. Caberá a eles, notadamente aos membros do EPL, não deixar que o Liberalismo se transforme em mais um rótulo superficial sujeito a putrefação promovida pelos nossos políticos mais vis.

Existe, neste momento inicial, muito entusiasmo e um excessivo apego doutrinário, próprio dos movimentos que se iniciam. Há mesmo os que demonizam os Liberais mais velhos por discordâncias teóricas. Erros, como sabemos, cometemos todos e os jovens não portam autorizações para errarem à vontade (ou para deturparem a verdade, se me permitem o trocadilho).

O que falta a este movimento? Difícil dizer, mas a história dos movimentos políticos bem-sucedidos nos ensina algumas lições que poderiam ser resumidas em algumas perguntas simples: (a) Liberalismo só tem pensadores nos EUA? (b) Onde estão as propostas Liberais práticas, adequadas ao nosso sistema institucional? (c) Quando teremos pesquisas Liberais feitas com rigor científico (sem medo de usar dados estatísticos!) e que possam, portanto, ser debatidas no campo prático? (d) O Liberalismo jovem conseguirá se mostrar como uma proposta nova, que defenda o interesse dos jovens, e não seja apenas o braço de algum partidozinho (sim, partidozinho) político?

São questões como esta que atingem todos os movimentos políticos nascentes. Quero crer que o EPL se esforçará para dar respostas originais, teoricamente sólidas, persuasivas e de aplicação real a cada uma. Fazer História é se esforçar para não cair na mediocridade. O embasamento teórico do Liberalismo/Libertarianismo tem todo o potencial para gerar uma sociedade brasileira que realmente tenha algum futuro. Basta que tenhamos jovens inteligentes nos lugares certos e nos momentos certos. Mas fazer História é também ser medíocre e o preço da Excelência, assim como o da Liberdade, é a eterna Vigilância.

O ceticismo, a auto-crítica, a tolerância às opiniões alheias (dentro ou fora do pensamento liberal) são mais do que nunca necessários. Ataques baixos têm surgido e não cessarão. As regras do debate são claras: (i) apelou, perdeu (ou: “o homem pensa, o animal reage”) e (ii) respeito é bom e eu gosto. É bom se lembrar destes “mandamentos” quando se defrontar com críticos que carregam pedras, embora vazios de argumentos.

A batalha pela descoberta (sim, sou um pouco Hayekiano) do futuro do país começa agora e o EPL não está em vantagem, o que não é um problema. Afinal, o sucesso não cai do céu, mas é construído com o trabalho do dia-a-dia. Espero que os indivíduos que formam o EPL consigam escapar dos dilemas de ação coletiva dos quais seus inimigos se aproveitam tão bem. O problema do free rider, por exemplo, é como uma Quinta Coluna estatista dentro de um grupo de liberais. Todo cuidado é pouco.

Estou curioso para ver como o EPL se desenvolverá. Estranhamente, estou otimista.

Bem-Vindos!

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O que a criança quer? O que a criança pode ter?

Diga a uma criança que você tem um novo método para fazê-la ganhar mais brinquedos e ela não medirá esforços em lhe convencer que ela será uma ótima cobaia. Alguém duvida? Acho que não. Qualquer um que já tenha visto uma criança deve saber do que falo. Quem nunca viu uma, sugiro que invista alguns poucos minutos neste pequeno experimento.

Todos nós somos um pouco criança, já disse algum (ou vários) poeta(s). Queremos a felicidade e achamos que temos um jeito simples de fazer isso. O presidente não conseguiu acabar com a fome? Só pode ser porque forças malignas o impediram de fazer isto. Existe gente espancando homossexuais? Só pode ser porque existe uma elite hipócrita que promove este espancamento. Há pobreza no mundo? Claro que a culpa é dos judeus. Racismo? Obviamente uma promoção de alguma maçonaria de supostos arianos.

Pois é certo que existem os que desejam conspirar, ora bolas. Mas entre o desejo de conspirar e o fazer acontecer há muito mais problemas como sabe qualquer funcionário de empresa que vê seu chefe cometer besteira sobre besteira sem ser punido. Enquanto isso, claro, a criança interior berra por solução. Onde está a vontade política? Por que meus desejos não se realizam? Simples: por que existem forças poderosas que me impedem de alcançá-los. Tem estupro de mulher na Índia? Faltou passeata de vadia. Só isso.

Mas talvez o mundo não seja tão generoso conosco, crianças. Talvez não existam soluções fáceis. Não basta marchar, não basta acusar judeus (e talvez nem sejam eles os culpados) e nem tudo é culpa de Israel (ou do Bush). O discurso mais fácil para convencer uma criança é o do “bem” contra o “mal”. Infelizmente, não é o discurso verdadeiro.

Na verdade, discursos como este geram crianças arrogantes. Crianças que pensam que tudo é uma questão de vontade. Tem uma galera que não percebe que a inflação subiu? Bem, o povo é ignóbil e precisa de um guia que os leve à compreensão plena, diz-nos a criança que habita nosso coração.  A criança quer muito que o mundo seja explicado desta forma. Chega a dar raiva quando o discurso não “cola” nos fatos. Vai ver existe uma versão judaico-militar da história que precisa ser substituída pela – vamos chama-la desta forma – versão infantil.

A imagem da criança evoca também a juventude e esta, claro, evoca energia, vontade, uma suposta facilidade em se resolver as coisas porque se é jovem. Jovens espancando pais? Não é apenas a Revolução Cultural de Mao – um legítimo experimento socialista – que promoveu este tipo de coisa. Houve também o Khmer Vermelho, hoje, devidamente colocado sob o tapete nas aulas de História. Por que? Porque estas terríveis imagens conflitam com a versão infantil dos fatos. Por que arrancar a inocência da juventude?

O interessante é que a criança interior se esquece da humildade. Será que sua versão explica mesmo os fatos? É só uma questão de conspirações? A explicação fácil não dói, mas a explicação complexa, ah sim, dói muito. Como é possível o socialismo discriminar e massacrar homossexuais? Mas é o que ocorreu em diversos países socialistas. Falar de racismo em Marx ou em Engels é quase pecado, mas é impossível negar os escritos deles (ainda que discretos e colocados, novamente, debaixo do tapete).

Seria o liberalismo (ou libertarianismo, para diferenciar o liberal norte-americano, que é, atualmente, exatamente o oposto do liberal no sentido clássico) compatível com alguma explicação fácil da realidade? Não.

O liberalismo não promete 100% de sucesso. O liberalismo é o que há de mais moderno, complexo e interessante, na minha opinião, e mesmo assim não garante sucesso. Aliás, não é diferente da inteligência artificial ou da computação. Como é que nós, crianças, pretendemos moldar indivíduos que sequer entendemos à nossa imagem e semelhança…que sequer é perfeita sob qualquer aspecto? A pergunta, tal como em outros momentos deste texto, também foi para debaixo do tapete que, inclusive, já se mostra desconfortavelmente irregular em sua superfície.

O liberalismo é uma solução que evoca a ordem espontânea, termo tão citado quanto pouco compreendido. Ainda há quem, no século XXI, acredite que há como moldar o ser humano segundo algum critério. Tentativas não faltam, claro. Há quem veja na propaganda uma arma poderosa (embora não consiga explicar como escapou da mesma). Outros falam de neurolinguística (embora continuem existindo disputas entre políticos). A lavagem cerebral também está na ordem do dia, mas é indefensável por um liberal.

Há também aqueles que pensam que alguns liberais são lacaios inconscientes da conspiração judaica-cristã, embora se vejam puros de similares influências. Quem é liberal, claro, só pode ter “viés ideológico”. Um não-liberal, obviamente, nunca se assume como viesado. O problema do debate político envolve, assim, uma criança que sofre ao encarar o mundo sob uma outra perspectiva que nem sempre lhe dará o conforto da certeza ou do autocentrismo. Envolve também a capacidade de enxergar um tapete irregular e de altura consideravelmente distante do normal e dizer que é apenas uma ilusão de ótica.

O liberal nunca prometeu a solução correta, apenas o método menos agressivo à natureza humana e que gere mais prosperidade para todos. Não há garantias que haverá igualdade de X ou Y em cada nano-segundo. Não há garantias de que o liberalismo não possa ser vencido por crianças que tenham dificuldades de enxergar outros pontos de vista e até de mudar de opinião. Não garante o liberalismo que nada de errado ocorrerá e, claro, não garante que não possam nascer pessoas que pensem como anti-liberais.

Para que serve, então, o liberalismo? Talvez devamos perguntar: onde nos levará uma criança auto-cêntrica que não muda de opinião? Esta sim, é a pergunta interessante para nós, adultos e, com alguma esperança, para muitas crianças.

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Lógica dos mercados ou lógica das pessoas – A Divisão do Trabalho e a Tecnologia

Os meus quatro leitores devem estar se lembrando, entre umas e outras biritas carnavalescas, deste artigo no qual busquei explicar a lógica das pessoas. O final daquele texto mencionava a divisão do trabalho. Ao contrário do que alguns pensam, não existe Terra Plana, serpentes no oceano ou conspiração judaico-cristã que tenha criado a divisão do trabalho. Ela surgiu simplesmente, para o desespero dos neuróticos que enxergam fantasmas em guardanapos de papel.

Ter surgido naturalmente significa que é a melhor forma de se fazer as coisas? Sim e não. Sim, porque o resultado da cooperação (alguém pegue o dicionário: cooperação = voluntária) social, não sendo fruto de coerção de alguns por outros, não enfrenta resistências significativas por parte da sociedade. Claro, sempre existirá, digamos, um escravocrata que gostaria de ver outra divisão do trabalho, ainda que seja o único em um grupo.

O problema da divisão do trabalho, como o de qualquer instituição humana, é que a mesma pode estar, em determinado momento do tempo, sendo corrompida por métodos coercitivos. O mesmo escravocrata, no poder, pode criar uma divisão de trabalho que diminua a liberdade de trocas na sociedade. Alguém poderia dizer que uma divisão de trabalho coercitiva poderia ser “boa”. Por exemplo, pode-se propor que a escravidão seja proibida legalmente.

Sendo um pouco realista, é difícil acreditar que uma canetada vá terminar com os incentivos que criam a escravidão. Assim como a canetada não substituiu o socialismo soviético por uma sociedade capitalista, não há porque acreditarmos em milagres quanto à escravidão. Talvez alguém possa tentar, mas a história da humanidade está repleta de ditadores que tentaram provar que “desta vez havia a vontade política necessária” e as histórias nunca terminaram bem para boa parte da população.

Um fator que pode alterar a divisão do trabalho é a tecnologia. Sabemos que uma queda de custos gerada por ganhos de produtividade pode alterar preços relativos tornando a escravidão, por exemplo, custosa economicamente. Não é nenhuma desonra – e muito menos uma mentira – que a queda dos preços de eletrodomésticos ajudou a liberar a mulher do seu rotineiro e monótono trabalho doméstico. Tyler Cowen, em seu ótimo In Praise of Commercial Culture, cita o exemplo da queda de custos dos insumos relacionados à arte e o surgimento de excepcionais pintoras (sim, mulheres pintoras) na época do Renascimento.

Embora a mudança de preços relativos não seja o único fator a explicar a queda de hábitos preconceituosos na sociedade, também não é verdade que não tenha sido importante. Entretanto, muitos de nós, vaidosos, com pouco conhecimento histórico e ideologicamente viesados, gostamos de pensar que mudanças tecnológicas só ocorrem por vontade de alguns iluminados (e, no caso do viés ideológico, só vale a iluminação que não gera conflito com a mente do reprodutor dos conceitos ideológicos em questão).

Obviamente, a mudança tecnológica pode vir das mais diversas fontes. Desde experimentos cruéis como os promovidos por cientistas nacional-socialistas ou por gente claramente comprometida com o extermínio de pessoas até os resultados imprevisíveis (e imprevistos) de algumas experiências voltadas para a descoberta de remédios ou substâncias (com fins de obtenção de lucro ou não), o fato é que a tecnologia avança a cada momento da humanidade. Pode-se perguntar se a tecnologia evolui da mesma forma sob os mais diversos arranjos institucionais (formais e/ou informais). As descobertas de anos e anos de pesquisas parecem mostrar que há importantes incentivos que não podem ser desconsiderados para que o avanço tecnológico ocorra de forma mais acelerada.

Que incentivos são estes? Eles nos garantem que não haverá uso de cobaias humanas? Eles sempre nos darão avanços exponenciais? Ou lineares? Eles podem ser reproduzidos por um super-burocrata altruísta? Estas são apenas algumas perguntas que se fazem quando nos defrontamos com a fascinante história da tecnologia. A notícia desoladora é que nem sempre avanços tecnológicos nos garantirão “o melhor dos mundos” (para quem?). A parte boa da história é que há algumas pistas sobre que instituições precisamos para ver a tecnologia aumentar a produtividade e continuar gerando queda da pobreza e da fome no mundo. Finalmente, a outra parte desoladora é que os incentivos políticos nem sempre fazem com que governos adotem estas últimas instituições (veja, por exemplo, o que eu disse sobre a obsolescência planejada da democracia).

Um dia destes voltaremos a este tema.

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Crenças e Instituições

O estudo das crenças não fazia sentido quando a conversa era baseada em xingamentos e conceitos indefiníveis. Mas, graças à Estatística e aos dedicados pesquisadores, hoje o lero-lero ficou limitado às opiniões na internet e conversas de boteco.

Estudar crenças, agora, ficou sério. A melhoria da qualidade científica do tema tem consequências nem sempre percebidas. Primeiro, os não-especialistas começam a se manifestar (até com raivinha) sobre o fato de não serem mais “os” conhecedores do tema. Segundo, a especialização traz benefícios raramente percebidos pelos desavisados, pois a pesquisa científica é menos simples do que pensa o leigo. Não se trata de escolher três referências bibliográficas e sair por aí com a solução: tem que ler, conversar e estudar, inclusive, áreas afins.

Primeiro, a especialização. Depois, o intercâmbio com outros cientistas. Finalmente, o teste empírico e o contraste com a realidade. Caso haja dúvidas, volte ao primeiro passo.