Uncategorized

Quem deve decidir com quem você vai se casar?

Quando eu estudava economia lá pelos anos 80, algum colega, certamente um depravado (para os padrões da época), pergunto ao professor sobre o tal “liberalismo econômico”. A resposta foi interessante e, resumindo-a, seria algo como: o liberalismo é coisa do passado. Já no século XIX, Marx mostrou que ele não funcionaria, etc. O raciocínio implícito no argumento é o da pretensão científica que o marxismo supostamente teria.

Bonito, não? Provavelmente alguém deveria ter que dizer a você o que fazer com suas horas de trabalho porque deixar que você as venda para um capitalista é péssimo. Péssimo? Para quem? Hoje sabemos que o concorrente do capitalista era o burocrata autoritário dos regimes socialistas. Os professores de história de hoje parecem não querer se lembrar, mas nós sabemos o que foi o Camboja sob o Khmer Vermelho, a Alemanha Oriental, a União Soviética e, claro, há Cuba, que segue inexplicavelmente inocentada por alguns que juraram estudar a história.

O argumento “temporal” é bastante risível, para dizer o mínimo. Basta pensar em um alemão vivendo em 1930. Para ele, pela lógica acima, o nacional-socialismo seria superior ao socialismo pois veio depois do mesmo. Ah sim, e não nos esqueçamos do caráter científico da ideologia nacional-socialista, com suas menções a uma raça ariana e tudo o mais. Tal como no socialismo, também já foi mostrado pela história que muitos destes belos mitos não passavam de desculpas para realocações coercitivas de recursos com o uso, inclusive, da violência, para o enriquecimento de alguns poucos. No caso dos nazistas, veja-se, por exemplo, a descrição de Heather Pringle sobre os rent-seekers de Himmler em The Master Plan, Harper Perennial, 2006. No campo socialista, os exemplos abundam e o mais famoso talvez seja o soviético Trofim Lysenko.

Apesar de tudo isto, outro dia ouvi o exemplo mais exótico de argumento contra o “demoníaco liberalismo que defende o mercado sem rosto e coração contra o cangaceiro popular e pobre”. Segundo o relato, o argumento era mais ou menos assim: “o liberalismo é uma coisa que talvez funcione no futuro, mas não agora”. Espere, você leu direito? Leu sim. O argumento do século XXI para – supostamente – derrubar o liberalismo (ou o libertarianismo) é exatamente o oposto do argumento que ouvi nos meus anos de graduação. Como a comunidade acadêmica evoluiu de lá para cá…

O novo argumento tem um sabor de sadismo: ele reconhece que o defensor do liberalismo pode até ter razão, mas o mundo real, este safado, não está pronto para ele. Não duvidaria se alguém me dissesse que o argumento se baseia na seguinte falácia: “para o liberalismo funcionar, deveríamos ter pessoas que colocassem o bem comum acima do bem individual”. Já ouviu isso antes? Sim, esta falácia era usada para se justificar revoluções de esquerda nos tempos do regime militar. Além do fato de que pode, inclusive, ser impossível, existir o tal conceito de “bem comum”, o argumento mostra que alguém precisa fazer o dever de casa e ler Adam Smith. Quem disse que o liberalismo só funciona com gente castrada de interesse próprio? Pois é justamente o contrário e é por isso, provavelmente, que muitos acham contra-intuitivo entender que o liberalismo gera felicidade e prosperidade para mais gente do que em outros arranjos sociais justamente por se basear nas ações auto-interessadas dos indivíduos.

A pretensão anti-liberal é a de que a interação de milhares de indivíduos é inferior a algum tipo de planejamento (erroneamente pensado como superior ao processo social) de algum grupo de pessoas que podem até representar uma classe de seres humanos bem-intencionados. Deste raciocínio surge o que eu chamo de vício de engenheiro. Tal vício surge com bastante frequência quando se discute liberalismo com alguns profissionais de formação em Ciências Exatas. Muitos deles argumentam que “se deve consertar estas injustiças controlando estas ações individuais”. Mesmo que não haja um consenso científico, digamos, sobre quem deveria decidir com quem se casar, defendem os viciados, nós, que estudamos mais do que eles e sabemos que pessoas são como tijolinhos, vamos decidir com quem cada um vai se casar.

Daí se segue um discurso até simpático, creditando à suposta Razão Humana (seja lá o que isso for), a capacidade de alterar a natureza a seu favor, gerando progresso, etc. Lembra muito o argumento inicial apresentado neste texto. Não é preciso ler Hayek – embora se você quiser entender o argumento liberal, você deva fazê-lo – para ver que, primeiro, pessoas não são tijolinhos e, segundo, o conhecimento não surge do céu, de alguma Razão Humana que more no Olimpo (ou em algumas faculdades de engenharia, sociologia, direito ou economia, dentre outras) e atinge os seres humanos em cheio.

A realidade é bem mais interessante e complicada de se entender e é por isso que penso que se há um lugar no qual a anarquia sempre nos leva a uma vida melhor, este lugar é na pesquisa científica (e também nas artes em geral). Ninguém sabe melhor do que eu com quem eu devo me casar. Eu posso até estar enganado, mas você não me conhece melhor do que eu mesmo. Da mesma forma, eu não sei se é melhor você não comer hambúrgueres. Você é quem sabe. Vá ao médico, veja suas perspectivas de vida e decida por si. Por que eu deveria decidir por você? Nem que eu fosse eleito!

Interessante como o liberalismo (libertarianismo) nunca prejudica as pessoas por suas crenças. Você é gay? Problema seu. É um islâmico? Problema seu. Desde que você não obrigue ninguém a fazer algo contra sua vontade pelo uso da força física, não há problema. Você pode defender a morte de milhões (como os nacional-socialistas e os socialistas), mas se você encostar o dedo em alguém com esta intenção, os vigilantes da liberdade o levarão para o tribunal.

O liberalismo é bom demais para ser deixado para o passado ou postergado para o futuro. Este sim, é um ponto para se refletir.

Anúncios

Um comentário em “Quem deve decidir com quem você vai se casar?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s