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O espancamento da liberdade

Um constante argumento – notadamente no Brasil – contra os princípios liberais é que eles, supostamente, causam mais mortes do que a ação estatal. Argumentos como: “vai deixar ele morrer de fome?”, “quando cada um tiver uma arma, ocorrerão mais mortes, acidentais ou não”, “olha a liberdade de fumar causando câncer!” ou “a liberdade de escolha gera mais acidentes causados por alcóolatras”são trombeteados nos botecos, bares e reuniões familiares.

Quem ouve, até pensa que um liberal só pode ser um sujeito desumano, amante da morte. Enquanto alguns ecologistas fanáticos (e eles não são poucos) quase defendem a extinção humana para preservar uma gaia-bom-selvagem (poderíamos chama-la de “Gaia Rousseauniana”) sem encontrar a mesma indignação, o liberal sofre para convencera as pessoas de que nem sempre o que parece óbvio é melhor para a sociedade.

Agora mesmo defende-se que um sujeito que toma um copo de cerveja é examente igual a um bêbado, para fins de arrecadação por meio de multas. Mesmo que se aceite esta polêmica hipótese, podemos nos perguntar sobre a existência de ônibus e táxis suficientes para substituir os que desejam manter sua qualidade de vida com happy hours ocasionais. Afinal, por que pagamos impostos? Não é, como disse alguém, “o preço da civilização”?

Poderíamos pensar também no problema das armas. Embora todos saibam que o problema está no comércio ilegal de armas, diz-se que todos devem se desarmar. Ok, a segurança privada será “abdicada” em prol do poder estatal. Mesmo que aceitemos a hipótese heróica que iguala a vontade de um pai defender seu filho a de um policial defender o filho previamente citado (não o dele, mas o do pai que agora se desfez de sua arma), podemos verificar que o poder público não é capaz de garantir a segurança. Com muita dificuldade sobem às favelas e, em alguns casos, dizem-se incapazes de cumprir regras básicas como coibir a poluição sonora após algum horário.

Um liberal não pode dizer que “o mundo não é perfeito e falhas existem” que já vira vítima de xingamentos os mais diversos. O mesmo não ocorre quando um anti-liberal usa o mesmo argumento. Entretanto, a imprensa, em sua esmagadora maioria, não apresenta críticas a questões relevantes como: não existem acidentes com armas de fogo de policiais? Existe transporte público suficiente? Os motoristas de ônibus dirigem seguindo as normas de trânsito? Eles respeitam a sua faixa nas vias urbanas? E quantos crimes reportados foram resolvidos, com punição dos culpados, pelo poder público? São estes aí que vão garantir sua segurança?

Pois o mundo não é perfeito e falhas existem. Alguns gostariam, neste ponto da discussão, dizer que o que importa são os “valores”. Um anti-liberal dirá: há policiais que se descontrolam e atiram em um inocente porque “falhas existem”. Alguém pode lhe negar a concordância com esta obviedade? Creio que não. Mas, seguindo esta mesma lógica, podemos dizer que “há pais que se descontrolam e atiram em um inocente porque “falhas existem”.

Chegamos, então, a um ponto muito interessante do discurso anti-liberal que acha correto obrigar as pessoas a terem menos liberdade para que o problema seja minimizado. Imagino um pai de família anti-liberal aplicando sua solução a si próprio. Imagine o caso em que ele esteja em casa, sofrendo com crianças barulhentas e, como todo ser humano, perca a paciência e dê uma bela bronca nas crianças.

Seria coerente da parte dele aceitar que a denúncia de um vizinho sobre “suspeitas de agressão à crianças no apartamento ao lado” com boa vontade. Talvez até deveria agradecer ao vizinho pela atenção dispensada no que diz respeito à vida alheia. Caso a polícia resolva, junto com uma assistente social, que os filhos não devam ficar com ele, a coerência anti-liberal o levará, muito provavelmente, a entregar os filhos graciosamente.

Da mesma forma, um pai que ensine ao menino que “é importante que sua liberdade não seja usada para tirar a liberdade de outro(s)” poderia ser acusado, por uma comissão de pedagogos de tendências anti-liberais, de incutir um conceito “burguês” (porque o conceito seria burguês ou errado  é algo que realmente me escapa, exceto se eu estiver fortemente alcoolizado) a uma criança que mal sabe escolher. A solução, portanto, seria proibir os pais de educarem os filhos. Já que pais “falham” (porque o mundo não é perfeito) em educar seus filhos, mesmo que não o façam de má fé, deveríamos entregar as crianças para um internato público, com professores certamente letrados nas ideologias adequadas para se ensinar a uma criança.

Os dois exemplos acima são aterradores para um liberal (se você se sentiu assim, cuidado, você pode ter o germe do liberalismo em algum lugar de sua mente), mas perfeitamente aceitáveis por um anti-liberal. Entretanto, já expliquei estes exemplos para meus amigos não-liberais e eles insistem que eles devem educar seus filhos, embora reconheçam que, para problemas alheios, a solução deveria ser parecida com as expostas acima. É interessante como a questão de quem carrega o ônus da prova muda quando o interlocutor percebe o que realmente significa um princípio universal.

Na verdade, os anti-liberais são sempre os maiores defensores das discriminações. Outros são liberais, mas, por problemas de história pessoal, ignorância ou qualquer outro motivo, acham terrível se perceberem como pessoas liberais (libertárias). Talvez seja verdade que a propaganda ideológica tem papel essencial em enganar as pessoas. Entretanto, nada disso é importante e o que os anti-liberais querem mesmo é espancar a liberdade, principalmente a alheia. Quando as proibições os atingem, aí surgem os interessantes argumentos “exclusivistas”: “no meu caso é diferente”, “eu conheço um amigo que não se enquadra”, “eu tenho curso superior”, etc.

O espancamento da liberdade é cruel porque, geralmente, é feito sem que o espancador perceba o que está fazendo. Claro, depois poderá ser tarde demais.