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Mais livros…

Agora chegaram mais uns livros, dentre os quais o excelente Power and Plenty dos ótimos Ronald Findlay e Kevin H. O’Rourke. Para quem gosta de história econômica e economia política, nada mais apetitoso. Claro que é uma abordagem um pouco diferente, por exemplo, daquela que vemos nos livros de Douglass North e co-autores. Entretanto, eu diria que são materiais complementares.

Outras leituras – para diversão – são uma biografia de Laura Ingalls Wilder, esta notável personalidade, e a edição comemorativa de Chimpanzee Politics, cujo resumo na Amazon me deixou bem curioso. No fim, se você pensar bem, tem um sentido nestas compras todas: a busca pelo conhecimento sem ignorar a curiosidade em assuntos paralelos.

Acho que a esquizofrenia vai pegar… ^_^

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Brincando com a escravidão colonial

“Por uma série de leis e portarias, culminando com o último Regimento, o de 2 de agosto de 1771, foi estabelecida a norma segundo a qual o escravo que delatasse o tráfico de diamantes pelo amo ganharia a liberdade e ainda uma parte dos bens confiscados do acusado”. [Gorender, J. O Escravismo Colonial, 5a ed 2011, p. 479]

Interessante, não? Mas, sem apresentar dados, Gorender sustenta sua incredulidade quanto ao efeito desta lei sobre as alforrias. O argumento apresentado é o de que o escravo poderia ser “subornado” pelo amo, de forma que ambos dividiriam o lucro do tráfico.

Parece razoáel? Digamos que o produto do tráfico é de 20 unidades (de valor). Digamos também que haja apenas um amo e um escravo e que, em caso de ameaça de denúncia, o amo divida o produto igualmente e que esta divisão é tal que o montante recebido pelo escravo é suficiente para lhe compensar pela abdicação da denúncia (convenhamos, isto pode ser uma hipótese muito forte, mas podemos pensar que o estigma social fosse muito elevado para ex-escravos, principalmente os que denunciavam seus amos…).

Pensando em um jogo estático, simples, é como se fosse a clássica escolha entre “cooperar” e “não cooperar”. Para ambos, “cooperar” significa dividir o lucro do tráfico. Não cooperar, entretanto, significa que a divisão é assimétrica (considere que o senhor invista parte do ouro na alimentação do escravo). Talvez possamos pensar na seguinte matriz:

Senhor

Coopera               Não coopera

Coopera                       (10, 10)                    (2, 18)

Escravo

Não coopera             (20, 0)                       (2, 18)

Se o senhor (“amo”) não coopera, ele trata o escravo como…escravo e apenas lhe paga a subsistência e isso significa que não importa o que o escravo faça, ele o tratará com rigor. Já no caso da lei citada por Gorender, o escravo fica com todo o montante do tráfico e o senhor fica sem nada (20, 0). Obviamente, uma das soluções a solução (o equilíbrio de Nash) do jogo sem incerteza e simultâneo é que nenhum deles coopere (a outra é que o escravo coopera e o senhor, não). Entretanto, não Não é um dilema dos prisioneiros pela própria lógica do jogo (para um resumo da tipologia de jogos simples como este, ver Tsebellis, G. (*)).

Evidentemente que esta modelagem é algo arbitrária e não considera diversos aspectos (aprofundamento do estudo das instituições vigentes, dinâmica, etc), mas não deixa de ser um bom início para se pensar no argumento do autor. Como não foram apresentados dados, fica difícil saber se a previsão deste modelo simples é compatível com o fato histórico.

Como diria o Cristiano Costa: e aí, o que acham?

Eu, particularmente, acho interessante organizar um pouco as idéias com modelos econômicos. Por mais imperfeitos que sejam, não são menos imperfeitos que a metodologia histórica, o marxismo, a física mecânica, etc, pelo simples fato de que todos são construtos da mente humana, imperfeita e imprevisível. A moral da história é que é melhor ter algum modelo do que nenhum. O resto é discussão sobre metodologia da ciência e não vou debater questões de racionalidade por aqui (haja paciência para ouvir besteiras…). Quem quiser aprender um pouco, recomendo o Understanding The Process of Economic Change, do Douglass C. North, Princeton, 2005, principalmente a parte I do livro).

É isso aí. Até.

(*) Tsebellis, G. (1998). Jogos Ocultos. Edusp, cap.3.

p.s. Não sou muito bom em formatações html, mas quem já estudou Economia deve entender minha tabela sem muita dificuldade. Sorry for this, pals.