Monetarismo de Mercado e nós

Eu prometi e, mesmo que não tenha feito uma caprichada leitura (não cheguei na metade do livro de Nunes e Cole [Nunes & Cole (2012)] sobre o tema, por exemplo), vou me arriscar a breves comentários.

Primeiro, tenho que agradecer ao Nunes e ao Drunk pelos ótimos links e resumos. Essencialmente, Drunk (e também, como ele mesmo indicou, o Free Exchange) fizeram bons resumos dos principais pontos do que defendem os monetaristas de mercado (doravante, MMs, sem nenhum intenção irônica…mas ficou engraçado, convenhamos).

Nunes me mostrou dois ou três artigos nos quais você encontra alguma microfundamentação para o estabelecimento de metas monetárias. O debate também parece ter um aspecto muito agressivo às vezes, notadamente quando os comentaristas são brasileiros, por conta do velho vício cepalino de achar que Milton Friedman, monetarismo ou Chicago são sinônimos de maldade. O Drunk não chegou a este ponto, mas passou perto. O aspecto ideológico eu vou desconsiderar porque é um debate diferente e que costuma misturar joio (palpitódromo botequeiro) com trigo (críticas científicas).

Agora, há pontos interessantes nos comentários.

1. Drunkeynesian parece um pouco pessimista quanto a choques tecnológicos. Contudo, como nos ensinaram os teóricos de ciclos reais (RBC), choques tecnológicos têm uma conotação ampla. Neste sentido, achei curioso e interessante o Nunes usar o Nasdaq como uma espécie de proxy de choques deste tipo. Para mim, talvez haja mais choques do que a Nasdaq e, assim, eu sou mais cético quanto ao pessimismo de Drunk.

2. Um dos artigos que Nunes citou, o autor resolve explorar o problema teórico com agentes que não são racionais (ou algo similar como: “não são racionais durante algum tempo”, não me recordo direito). Mercados podem demorar a se ajustar, disse o Drunk, por exemplo. É verdade, mas um tipo de rigidez seria esta “não-racionalidade” dos agentes e…neste caso, o modelo dos MMs funciona. Então, o buraco é mais embaixo.

3. Alguém criticou a escolha de indicadores para a oferta de moeda. Honestamente, acho este um problema menor. Não é diferente para a escolha de um indicador para a taxa de juros. A escolha de proxies, a meu ver, não é um problema para os MMs ou para qualquer outra proposta.

4. Sou um pouco ruim em Economia Moetária, confesso, mas acho que esta discussão suscitou uma renovada discussão sobre aquela história dos choques na IS e na LM. Lembro-me que há um texto clássico sobre o tema, mas não o acho aqui. Creio que valha a pena reler este texto e também o clássico The Role of Monetary Policy do Milton Friedman.

Bem, por enquanto é isso.

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O brasileiro selvagem, o trânsito e a liberdade

Descia a rua com calma e, lá embaixo, outro motorista vira e entra na mão oposta. Ao lado dele, espaço para se acomodar. Do meu, nenhum. Vejo que não há muita folga na passagem dos dois carros e, assim, páro e vou lentamente para não arranhar meu carro e nem o do outro motorista. O mesmo não resiste: “- Folgado, heim”? O que este episódio nos ensina? Primeiro, que muitos brasileiros não entendem a educação no trânsito. Quem entra na via não tem a preferência sobre quem nela já está. Em segundo lugar, o episódio mostra que o brasileiro pode ser bem selvagem em situações do mais absoluto cotidiano.

Você deve se perguntar, imagino, sobre como eu vejo um Brasil mais liberal gerando mais prosperidade para todos já que o nível de educação de gente como este motorista beira à selvageria (sem ofensas aos que habitam as selvas). Você pode se perguntar mais: como é que o brasileiro viverá em sociedade se não tem, em média, um nível de educação decente? E o que dizer do nível de leitura: dois livros (contando ebooks) ao ano, segundo uma pesquisa divulgada há algum tempo, com surpreendente baixo nível de estardalhaço, na imprensa?

Geralmente, 90% dos meus amigos mais autoritários começam seu argumento desta forma. Quase posso enxergá-los dizendo: “- E agora, camarada? Este imbecil aí vai aprender o tal liberalismo”? Ou então: “- Eu não te disse? Brasileiro não sabe viver em sociedade. Não tem jeito mesmo”. Daí passam para todo tipo de solução (principalmente se a conversa ocorrer em um boteco…) como: “- Tem que botar este povo na linha com leis mais duras”! Ou: “- Este povo tem que ser obrigado a aprender no chicote. Precisamos de mais “militarismo”!

Os argumentos, digamos, brasilocêntricos, sempre fazem questão de enfatizar a estupidez do povo brasileiro. Por algum motivo mágico, os críticos, também brasileiros, escapam deste estado de burrice e alegam que isto é normal porque “- Eu tenho estudo, eu fiz faculdade”. Bem, infelizmente, muitos destes meus amigos são capazes de furar filas, dirigir como o imbecil acima, etc. Ou seja, não é tanto a educação formal a causa do problema, embora ela seja importante.

Por que brasilocêntrico? Bem, porque não é verdade que comportamentos assim não ocorram em outros países. Por exemplo, os suíços podem portar armas e não saem por aí matando gente em escolas. Logo, dizer que desarmar as pessoas soluciona o problema da violência no Brasil não é uma afirmação lá muito sólida. Outro exemplo interessante e triste é o do estupro de mulheres. Nenhuma lei impediu, até hoje, que o fenômeno terminasse em qualquer lugar do mundo. Entretanto, parece ser correto dizer que – voltando à Suiça – haja menos estupros neste pequeno país europeu do que no Brasil (mesmo que façamos as costumeiras normalizações como “estupros por 10 mil habitantes”). Então, nada de brasilocentrismo (ou jabuticabismo).

Sabemos, graças a pesquisas as mais diversas, que há algumas características impressas em nosso DNA por conta do processo evolutivo (e lembre-se que macacos podem ser tão ou mais violentos que os seres humanos). Por outro lado, nossa evolução também nos faz criar instituições que prolonguem nossa sobrevivência. Tais fatos valem para brasileiros e não-brasileiros, claro. Não é difícil se aceitar que nossa sobrevivência tenha uma relação positiva e forte com a renda per capita (ou da renda familiar), o que nos leva, para a tristeza dos que odeiam a economia, à inevitável necessidade de entender que tipo de instituições geram mais ou menos renda per capita (e, eventualmente, que instituições geram sociedades menos desiguais).

Sobre esta questão, os economistas têm trabalhado um bocado e, claro, sabemos pouco ainda. Nosso conhecimento parece indicar alguns fatos surpreendentes e outros nem tanto. Por exemplo, sabemos que algumas instituições geram maior renda para as famílias do que outras porque estas instituições foram moldadas (geralmente por ninguém em particular ou como resultado inesperado de alguma medida tomada por alguém, no governo ou não) de maneira a incentivar as trocas voluntárias entre pessoas.

Sabemos também que há ambientes que poderíamos chamar de “cultural”, no sentido de certos valores que alguém poderia chamar de “base moral” que levam ao desenvolvimento. Por exemplo, sabemos que pessoas que valorizam matar outras pessoas não são lá muito propensas a trocas voluntárias e preferem o roubo. Este não é um bom valor em termos das trocas voluntárias mas, surpreendentemente, pode ocorrer de o roubo gerar, de forma não-intencional, instituições pró-desenvolvimento. É possível imaginar que a abundância de terras em um vasto continente norte-americano no início de sua colonização tenha gerado pouca demanda por direitos de propriedade privados. Não-intencionalmente, o crescimento demográfico torna a terra mais escassa e, portanto, esta demanda pode mudar.

Que valores são os “melhores” para gerar uma sociedade próspera e pacífica é algo que não sabemos responder ainda. Por outro lado, parece mais interessante pensar que sua descoberta é um processo de tentativa e erro que pode acertar seu alvo se não for tolhido por instituições ruins. Por exemplo, ao proibir os moradores de um bairro de passearem com seus filhos numa praça, estará o governo gerando pessoas enclausuradas com todas as consequências que daí advém (boas ou más).

grafico_mortes_liberdade

O tema é, sem dúvida, polêmico e cheio de arapucas ao longo do caminho. Entretanto, percebo que até mesmo o pobre motorista sem noção de educação básica pode aprender a dirigir melhor em uma sociedade mais liberal do que em uma sociedade autoritária. Aliás, países mais livres (tomando apenas a dimensão econômica) também parecem ser países com menos fatalidades no trânsito (veja o gráfico acima). Pura correlação ou há uma conexão causal? Será que a liberdade econômica gera infra-estrutura melhor e, portanto menos acidentes? Ou será que a liberdade econômica é compatível com uma atitude menos violenta e, portanto, há menos acidentes?

Não tenho a resposta, mas imagino que o leitor tem muito a ganhar se pensar neste problema e, claro, cuidado com o trânsito: motoristas mal-educados e violentos ainda não são a exceção neste país…

Fonte dos dados: Wikipedia (verbete: List of countries by traffic-related death rate) e http://www.freetheworld.com.

Por que ninguém marca o casamento pelo Facebook?

Muito simples. Porque o Facebook/Twitter/afins causa uma queda no custo de oportunidade de se dizer “sim, eu vou” e…não ir. E o mercado funciona, tanto que a maioria (eu diria: a esmagadora maioria, mas não tenho dados) não marca sua festa de casamento pelas redes sociais.

Radical? Então pense em palestras cuja inscrição se dá online. Se não houver preço a ser pago, é fácil dizer sim e pular fora.

Para entender isto, você tem que entender um pouco de bem público e ação coletiva, conceitos que um bom professor de Economia certamente ensinará.

O mercado é realmente uma coisa interessante. Ele funciona até com os que não acreditam no mercado: muitos deles usam as redes sociais e se queixam dos “bolos” levados…

Ser colônia é sempre ruim…o tempo todo?

Claro que não, para a tristeza de alguns fanáticos “anti-colonialistas”. Ser colônia é uma porcaria, eu sei, mas nem tudo que ocorre no período colonial – inclusive por conta de políticas da metrópole – é ruim. Eventualmente, algumas coisas melhoram.

Ok, para entender isso melhor, devemos sair do discurso retórico e investigar as correlações e causalidades de diversas variáveis. Neste aspecto, a antropometria histórica dá uma mão e tanto!

Market Monetarism

Acho que já citei o termo uma vez por aqui. O Drunkeynesian fez um bom resumo (crítico) e eu acabei por comprar o e-book de dois autores da área. Um deles, o Marcus Nunes, tem um blog (aqui) no qual trata do tema.

Comecei a ler o livro, mas confesso que eu gostaria de ver duas coisas com mais frequência neste debate: (i) o modelo teórico microfundamentado (ou não) e como ele se diferencia, por exemplo, dos tradicionais IS-MP e IS-LM nas proposições de políticas e (ii) testes empíricos sobre o modelo (ok, é meu viés querer isto).

Os testes empíricos, eu sei, podem ser um problema se nenhum país segue a meta do PIB nominal preconizada pelos autores, mas sempre há como tentar algo. Quanto à parte teórica, talvez eu não tenha procurado o suficiente. Mas eu esperava ter encontrado algum gráfico analítico no início do livro. Bem, vamos ler mais e ver no que dá.

p.s. no post do Marginal Revolution acima citado há algumas outras críticas ao tema.

Market Monetarism

Um livro bem barato em formato Kindle com uma boa introdução ao que seus autores denominam Market Monetarism. Para quem gosta de política monetária, o debate é interessante. Os autores: Marcus Nunes e Benjamin Mark Cole.

Comprado e na fila para ser lido juntamente com o The Taylor Rule and the Transformation of Monetary Policy (cuja leitura está pela metade…).

Fascinante este mundo da história econômica e da política monetária…

Terrorismo e economia

Tem gente que implica comigo quando tento mostrar óbvios aspectos econômicos em áreas que  – aparentemente – não são alvo de análise econômica. “- Você usou um argumento de autoridade”, berram.

A despeito das barreiras à entrada que todos os profissionais adoram criar (notadamente, os não-economistas adoram acusar os economistas de “invasores”, enquanto defendem um tal “pluralismo”…só para economistas, não para si próprios), o fato é que qualquer ação individual é baseada no conceito de custo de oportunidade. Assim…

Um bom exemplo é o terrorismo. A notícia publicada hoje no Estadão mostra como Bin Laden se comportou como um autêntico empresário gerenciando (ou tentando gerenciar) um grupo de filiais no melhor estilo “eu amo muito tudo isso”. Caso você tenha lido o Freakonomics e tantos outros livros similares, isso não é novidade. Mas sempre é bom lembrar que muita gente desinformada…

Alguns bons…

Estatísticas para entristecer seu final de semana

Em 1910, nos EUA, temos a estimativa de 355 (thoousands) alunos em universidades. No Brasil, na mesma unidade e ano, 8.8. Dados do International Historical Statistics de B.R. Mitchel.

Capital humano faz a diferença? Faz. E não adianta dizer que a culpa é dos ingleses porque levaram o ouro. Poderíamos dizer que a culpa é dos portugueses que assinaram acordos com ingleses ou que a culpa é dos indígenas que não cuidaram de se desenvolver como nação e viviam brigando. Ou a culpa é do Papa, que criou o Tratado de Tordesilhas.

O fato é que a política educacional no Brasil, como já mostrou o prof. Thomas Kang, nunca foi aquela coisa.

Violência

Um texto mais antigo, mas pertinente, no qual explico o que, de fato, é a Ciência Econômica. Por que “de fato”? Porque, mesmo hoje em dia, algumas pessoas pensam na Ciência Econômica como algo limitado à esfera dos “negócios ordinários da vida”, ou seja, aqueles que envolvam, diretamente, o uso de um único meio de troca: o dinheiro.

Mas o fato é que a Ciência Econômica evoluiu, tomou vários caminhos, e sua análise incomoda áreas do conhecimento vizinhas que, nem sempre, acham interessante a interdisciplinaridade que, ironicamente, pregam. Não importa: o movimento de vários cientistas buscandos seus próprios interesses é que vai determinar o resultado  disto a não ser que algum autoritário imponha sua vontade…

Desacordos, discussões, etc

Este é o único artigo que já vi – e bem interessante – sobre esta história de que a gente está discutindo porque cada um quer, realmente, buscar alguma suposta verdade. Claro, Robin Hanson e Tyler Cowen, dois grandes autores geralmente muito citados na blogosfera, mas pouco lidos e, eventualmente, nem sempre corretamente entendidos.