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Calma lá, Tio Rei!

Voltei!

Como disse mais cedo, Reinaldo Azevedo, uma leitura sempre importante, pisou na bola hoje. Falo de seu comentário sobre o texto para discussão de Rodrigo R. Soares, Joaquim João Mello e Laura Chioda.

Parece que o Tio Rei se exaltou com o resultado do artigo. Vejamos o que diz o abstract do mesmo:

This paper investigates the impact of Conditional Cash Transfer (CCT) programs on crime. Making use of a unique dataset combining detailed school characteristics with time and georeferenced crime information from the city of São Paulo, Brazil, we estimate the
contemporaneous effect of the Bolsa Família program on crime. We address the endogeneity of CCT coverage by exploiting the 2008 expansion of the program to adolescents aged 16 and 17. We construct an instrument that combines the timing of expansion and the initial demographic composition of schools to identify plausibly exogenous variations in the number of children covered by Bolsa Família. We find a robust and significant negative impact of Bolsa Família coverage on crime. The evidence suggests that the main effect works through increased household income or changed peer group, rather than from incapacitation from time spent in school.

Vejamos. O artigo tem um foco: estudar a criminalidade em São Paulo. Por que? Talvez porque tenham acesso à base de dados. É uma hipótese plausível. O objetivo é bem específico – tal como sempre o é em ciência séria – e, veja só, eles encontram que o Bolsa Família tem um impacto negativo no crime e, parafraseando, este efeito se dá via aumento da renda familiar ou mudança no grupo de “companheiros” (do aluno/menino), completo, provavelmente derivado do aumento da renda.

Claro que é difícil estudar um problema como este sem considerar diversas influências sobre a criminalidade. A especificação dos autores é uma relação linear múltipla entre variáveis, numa base de dados em duas dimensões: corte transversal e tempo ou o que chamamos de dados de painel. Talvez Tio Rei estivesse bravo por conta do método econométrico. Poderia, por exemplo, dizer que deveriam ter testado por correlações espaciais (fizemos isso em outro artigo sobre o bolsa-família). Mas ele não se tocou disto, certo?

Mas vamos em frente. A regressão tem como variável dependente o “crime” (vejam a especificação lá no artigo) e, como dependente, uma variável que indica o fato de o sujeito receber o Bolsa-Família (doravante BF). Há, como de praxe, controles, para evitar problemas que poderiam estar ocultos em uma estimação mais simples. Por exemplo, digamos que desejamos estudar a oferta de trabalho de colunistas da Veja em relação ao salário real. É o que sai do livro-texto, certo?

Certíssimo! Mas, vejam só, se cada colunista tem famílias de tamanho diferente, alguns têm esposas que trabalham, etc, então você tem que “controlar” por estes efeitos porque é óbvio que alguém poderia argumentar que o colunista A oferta mais trabalho do que o colunista B porque a mulher dele não trabalha. Entenderam? Então vamos lá.

Tio Rei parece estar invocado com a falta da presença de “policiais/cadeia” no estudo dos autores. É uma boa preocupação mas, antes de mais nada, com a base de dados dos autores, é possível ter alguma variável assim? Os dados são por escolas, Tio Rei. Não dá para ter uma medida destas lá. Isso significa que o argumento do Tio está errado? Não necessariamente. Talvez os autores devessem procurar uma variável como esta. Uma proxy. Mas se não existem policiais na escola, quiçá presídios, né? Aí, veja só, não tem jeito.

Ok, Tio Rei levanta vários argumentos dispersos, interessantes para uma possível revisão de literatura de alguém que deseje falar sobre criminalidade e BF sem se preocupar muito com a formulação científica de hipóteses ou testes.

Agora, vamos lá, Tio. Eu conheço o Rodrigo e já conversei brevemente com o Mello (não o Fernando, mas o Manuel). Não conheço a Laura. Talvez eles tenham objetivos ocultos, talvez um deles (ou ambos) sonhem com o poder. Digamos que fosse o caso (mas, pelo que conheço do Rodrigo, duvido muito!). Mesmo assim, com o trabalho feito, não dá para dizer que eles apenas cuidaram de bajular o governo.

Rodrigo tem alguns trabalhos anteriores e um deles é muito importante, Tio Rei, para se analisar história econômica brasileira. Virou até texto para discussão do NBER, salvo engano. Vejam só, eu poderia dizer que, como não sou da PUC-RJ, o povo lá é bárbaro. Talvez existam bárbaros lá, mas, convenhamos, estamos falando de um departamento com reputação em análise de programas públicos (se há bárbaros lá, não os apresentem a mim, ok?).

Talvez o jornalista do “O Globo” tenha lido incorretamente os resultados do artigo. Já pensou nisto, Tio Rei? Isso sempre acontece comigo em entrevistas com jornalistas. Aí o Tio resolveu pegar a versão de segunda mão (a matéria do jornal) e criticou algo que não foi feito. E aí, Tio? Não vale uma reflexão?

Bem, é isso. Prometi que voltaria para comentar e o fiz. Se há críticas ao trabalho dos autores, vamos fazê-las, mas da forma correta, né?

No mais, um abraço a todos, inclusive ao Tio Rei que, se não é perfeito, ainda é uma leitura relevante no debate político nacional, creio eu.

p.s. Em tempo. Já estive com Tio Rei em um debate sobre quotas, com platéia-claque e me lembro que eu e ele tínhamos opiniões parecidas, embora com algumas discordâncias. Ele me olhou de maneira estranha naquele dia. Será que também achou que eu seria um “deles”?

p.s.2. Eu falei de nosso artigo (Leo, Otavio, Andre, Ari e eu) sobre BF. Eu esperava encontrar o resultado de que o BF era importante para uso político do novo aliado de Paulo Maluf, o sr.da Silva. Entretanto, não encontramos isso. Outros pediram nossos dados e refizeram a pesquisa com metodologia distinta (outros nunca nos mandaram suas críticas, mas também publicaram artigos, ou seja, não estavam lá muito interessados em fazer um debate, mas apenas em publicar seus resultados) e acharam que o BF teria ajudado na reeleição do sr. da Silva. Ah sim, junto com o Nakabashi e a Ana, fizemos algo similar sobre a eleição da Dilma. Outro dia eu conto dos resultados, ok?