Uncategorized

A prática econômica – uma homenagem a Sargent e Sims

O dia em que Mauro André deixou de pensar como um bocó

The problem of identifying a structural model from a collection of economic time series is one that must be solved by anyone who claims the ability to give quantitative economic advice. [Lucas, R. E. & Sargent, T.J. After Keynesian Macroeconomics]

Afinal, pergunta Mauro André, quem se importa com este problema de identificação em um sistema de equações macroeconômico? Não seria isto uma simples diversão para economistas “acadêmicos”? O ambiente no bar é de alegria. Mauro André não via seu amigo João Maurício há anos, desde que este partira para a grande capital dos negócios.

Infelizmente, para Mauro André, o mundo que ele pensa  ser real é apenas uma caricatura do verdadeiro mundo real. Ele não enxerga o verdadeiro mundo real porque está sedado por uma percepção errônea, fruto de sua própria preguiça, de julgamentos incorretos e da dificuldade de superá-los dados seus preconceitos.

Ao contrário de Mauro André, João Maurício, que trabalha no mercado, sabe que o problema de identificação é importante. Quando mais novo, João Maurício trabalhava em sua cidade, uma na qual não existem grandes bancos e com um setor financeiro pouco desenvolvido. Naquele tempo, ele podia até chutar valores para previsões de inflação que o simples fato de ele ter um diploma percebido como sinal de qualidade no mercado lhe servia de chancela. Muito bocó comprou suas previsões “chutadas” como previsões verdadeiramente sólidas.

Colegas de João Maurício e de Mauro André que tiveram aulas em outras faculdades também se davam bem, mesmo não sabendo nada destes problemas econométricos porque seus professores, acostumados com a baixíssima concorrência, passaram, até, a culpar o método (econométrico) pela falta de rigor dos compradores de previsão, numa curiosa inversão da lógica causal. Havia até um grupo de professores que dizia explicitamente que o que ensinavam não servia para nada. Alguns deles perderam seus empregos ao dizer isso para alunos, claro! Outros, em empregos públicos, falavam absurdos mas, claro, mantinham-se em seu emprego (quando não inventavam mais moda e conseguiam cargos políticos por aí).

Mas um dia, João Maurício, ambicioso que era, migrou para uma cidade com um setor financeiro desenvolvido, a chamada ‘grande capital’. Lá ele percebeu que esta história de “economista acadêmico” e, seria correto dizer, seu oposto, o “não-economista acadêmico” era apenas uma farsa que sobrevivia no ambiente de competição primitiva de sua cidade. Em sua nova cidade, ao contrário, ele precisava fazer previsões muito bem fundamentadas porque a pajelança à qual estava acostumado não era bem-vinda. Os profissionais daquela cidade usavam a ciência e vendiam previsões bem mais rigorosas do que as de João Maurício.

João Maurício teve que esquecer o papo de seus amigos de que ciência era um capricho burguês e foi forçado a encarar a realidade de um trabalho em um ambiente mais competitivo e sério. Ele teve que se preocupar com o problema de identificação e também outros problemas econométricos mais sofisticados. Após algum tempo, o ambicioso e inteligente João Maurício alcançou o nível mínimo de qualidade de seus novos colegas. Não foi difícil para ele engolir seu orgulho e seguir em frente, mas ele me confessaria, anos depois, que esta evolução lhe deixaria, em muitos momentos, chateado. Afinal, toda miragem desfeita traz consigo a desagradável sensação da realidade.

E Mauro André? Bem, Mauro André teve sorte na vida. Seu pai mal lhe cobrava os boletins e ele, percebendo isso, passou a “administrar” seu desempenho na faculdade. Até a crise de 2008, Mauro André achava que seu futuro seria simplesmente esperar pelo cargo que seu pai lhe daria em seu pequeno negócio de venda de piscinas. Seus amigos, que estudavam em uma faculdade pública, até incentivavam-no. Diziam-lhe: “Maurinho, este papo de econometria é coisa de ‘acadêmico’, seu mané! A Economia é muito mais do que isso. É humana, é sociológica! A práxis é o que importa e a matemática é apenas algo que inventaram para mascarar a realidade (além de ser um pé no saco!).”

Mauro André não percebia que o mercado local é que era pequeno e que qualquer charlatão – isso mesmo, c.h.a.r.l.a.t.ã.o. – poderia ganhar dinheiro com consultoria vendendo um nabo sujo como uma varinha de ouro para alguns empresários que, por sua vez, tendo nascido e vivido apenas na mesma região, sequer tinham idéia de que poderiam estar pagando muito por nada. Um ou outro empresário, claro, tinha noção das coisas e não caía nestas armadilhas criadas pela combinação de um mercado pequeno, pouco desenvolvido com um discurso falso de que “fulano de tal, sim, é O especialista (com “o” maiúsculo mesmo) de previsões da cidade”, como se o limite geográfico de uma cidade fosse um muro de um castelo feudal…

Foi assim que, ao encontrar João Maurício, seu antigo colega de faculdade, agora chefe do departamento de economia de um grande banco, ele se deu conta de quanto estava errado. Então, aquelas histórias de que modelos não eram apenas bobagens e a tal história de que as pessoas não precisam de teoria para ganhar dinheiro no mundo real eram apenas falácias vendidas como verdadeiras por alguns. Como alguém poderia vender tal asneira foi uma pergunta que ele percebeu quando conversou com João Maurício naquele dia.

Ao lhe contar sua história na nova cidade, João Maurício deu-lhe todas as dicas: “- Mauro André, meu caro, a competição é um fato da vida. Você acha mesmo que eu quero mais competição? Quem aprendeu, aprendeu. Quem não aprendeu, que pague o preço. Se eu fosse você, pararia de falar e fazer besteiras. Começa logo a estudar tudo de novo. É, sozinho mesmo. Você perdeu seu tempo e o dinheiro do seu pai naqueles quatro anos de faculdade, né? Chegou atrasado, não estudou, nunca fez uma lista de exercícios e passou raspando nas provas sem se preocupar em aprender nada. O que você queria agora? Que sua suposta ‘prática’ lhe rendesse muito? Ora, meu amigo…”.

Mauro André sentiu aquele frio na espinha. A sorte, é que, numa improvável lembrança que lhe veio à mente em meio as massivas recordações de festas e bebedeiras, ele se deu conta de que pessoas são racionais e que, portanto, sempre podem corrigir seus erros. Bastaria, claro, tomar a iniciativa sozinho, como qualquer homem digno. Seu futuro poderia ser melhor.