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A importância do capital humano no Japão e da falta que ele faz na selva

Excelente entrevista no Estadão de hoje, mostrando que o comportamento civilizado dos japoneses não é fruto de algum “DNA” próprio, mas sim do bom e velho – mas sempre negligenciado no Brasil, por vários – capital humano. Trecho:

Não me surpreenderia com uma manifestação de ira aguda em relação ao modo como certos aspectos da crise nuclear estão sendo administrados. Mas por hora as críticas estão silenciadas e prevalece um sentimento, um pacto social de manter a ordem e a calma. O interessante de observar é que esse comportamento não está impresso no DNA da cultura japonesa, não é uma característica milenar. É fruto de um aprendizado social. No último meio século os japoneses assumiram um compromisso com a ordem no país, processo esse diretamente ligado a um projeto educacional do governo no pós-guerra. No final dos anos 40 os índices de criminalidade e delinquência em Tóquio eram altos. Existia também uma disputa política hostil e brigas no Parlamento eram muito comuns. Muitos outros períodos da história do Japão também são marcados pela desordem. Há registros do começo do século 20, quando os carros foram introduzidos na capital, que retratam as ruas de Tóquio como cenas urbanas de caos e destruição, com carros desgovernados se chocando violentamente uns contra outros. Hoje, é espantoso ver a organização das estações de metrô. O trem chega e as pessoas estão organizadinhas em fila indiana, respeitando as inscrições no chão da plataforma que indicam o espaço para esperar em cada porta do vagão. Essa sociedade que vemos agora, com esse jeito ordenado de se conduzir, é uma conquista relativamente recente.

O que há para se aprender sobre os japoneses? Bem, há, obviamente, algumas características culturais que não podemos ignorar, mas estes são “azares/sortes”  históricos(as). A lição mais importante talvez sejam os incentivos corretos. Com recursos escassos, os brasileiros e sua elite que pára em fila dupla no trânsito sempre que pode, deveriam pedir menos esmolas e mais educação. Infelizmente, o povo tem sido ensinado pelos sucessivos governos que o que importa é ganhar uma “bolsa família” e que não há problema algum em roubar porque “a culpa é da sociedade”. Mendigar, para os (s)ociólogos (thanks, mais uma vez, Gaspari), não é um ato vergonhoso, mas “uma manifestação do indivíduo contra o capitalismo burguês”.

Enquanto não abolirmos a conversa mole das propostas de políticas públicas, não iremos muito longe. E não me culpe por ser economista e não prever a crise. As hordas de (s)ociólogos, cientistas políticos, etc, não conseguiram prever nada no Oriente Médio, desde sempre. Físicos também não conseguem nos dizer mais do que: “use o paradigma de Newton aqui e o de Einstein ali”. Médicos, por sua vez, não se penitenciam em público por não conseguirem evitar as mortes por esta ou aquela doença.

Quem protesta contra a “falta de competência de X em prever a crise Y” é justamente quem pensa com um neurônio ou não entendeu o que é ciência. Talvez por muita doutrinação (s)ociológica e id(iota)eológica dos militantes que não estudam, mas sonham em compensar seu analfabetismo com uma revolução cultural que ignora o Khmer Vermelho e insiste em dizer que o socialismo soviético não desmoronou pelas suas próprias imperfeições (viva Hegel!).

Eis aí um mapa de como escapar da má qualidade do ensino.

p.s. Em um palpite paralelo, se Celso Furtado tivesse incorporado o capital humano em suas análises, teria entendido melhor a realidade brasileira e o Japão. Infelizmente, ele morreu sem fazer isto.

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