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Eu era feliz e não sabia…

Hoje estava a conversar com o Pedro (o famoso Homo Econometricum e também sempre um convidado articulista deste blog) sobre esta estranha frase. Geralmente não é estranha, mas fiquei imaginando como seria a vida de alguém que sempre chega na conversa com os amigos e diz que “era feliz e não sabia”.

Como alguém poderia se comportar desta forma? Pensando na racionalidade econômica que se aprende no início do curso de Economia, este tipo de comportamento é estranho. Entretanto, com alguma criatividade e muito esforço, podemos modelar este nosso sujeito pessimista.

Antes de mais nada, é bom estar ciente de que não refletimos profundamente sobre o tema e, claro, gente, isto aqui é um blog, não uma tese de doutorado. Posto isto, vamos lá.

Imagine uma função utilidade com “n” períodos do tipo U(c1, c2, …, cn) = u(c1) + u(c2) +… + u(cn). Note que estou simplificando e dizendo que a taxa de juros, r, é igual a zero.

Agora, este nosso amigo maximiza U(.) sujeito a uma expectativa de renda  que envolve, para cada período, um termo permanente e outro transitório. Ou seja, y* = E( yp +alfa*yt). O “alfa”, no caso, é uma distorção que o faz enxergar erradamente o tamanho do termo transitório da renda (ok, eu sei que deveríamos endogeneizar…). Assumimos que alfa > 1 e que as expectativas são adaptativas.

O que eu e o Pedro discutimos foi mais ou menos assim: suponha que a renda mude em seus dois termos, mas o cara não apenas não consegue separar o sinal (yp) do ruído (no caso, yt). Digamos que a renda permanente caiu e a transitória aumentou, de forma que, no líquido, houve uma queda da renda corrente, levando-o para um nível de utilidade mais baixo.

Como ele tem expectativas adaptativas e sobreestima o efeito da renda transitória, ele achará que está melhor. No período seguinte, ele percebe que está, na verdade, pior. Neste caso, ele “era infeliz e não sabia”. Agora imagine o efeito oposto: renda permanente aumenta, renda transitória cai, de forma que há um aumento da renda corrente, mas ele se confunde e acha que está pior. No momento seguinte, ele corrige o erro e percebe que…”era feliz e não sabia”.

Obviamente, deve haver um jeito mais simples de modelar isso (ou alguém já fez um modelo mais interessante do que este). Mas a graça da coisa está em pensar na melhor forma de se investigar um comportamento tão bizarro como o destas pessoas que insistem em dizer “que eram felizes e não sabiam” o tempo todo.