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MPB, Jovem Guarda e alguns conceitos econômicos usados de maneira imprecisa (ou incorreta)

“O mito da ‘ameaça’ da Jovem Guarda, que até hoje é rememorado por alguns analistas, parece não ter sido historicamente efetivo. A MPB se revelou um produto mais dinâmico, não só do ponto de vista criativo, como do ponto de vista comercial. A consagração artística e comercial de Chico Buarque de Hollanda, em fins de 1966, representou um enorme alento comercial para a MPB que, na época, chegou a rivalizar, em termos de vendagem de discos do que os gêneros mais populares. Mesmo vendendo, no geral, menos discos do que os gêneros mais populares, a MPB era o setor dinâmico da indústria fonográfica, permitindo agregar valor ao produto musical”. [Ribeiro, A.P.G.; Sacramento, I. & Roxo, M. (orgs) História da Televisão Brasileira – do início aos dias de hoje, Editora Contexto, 2010, p.96]

O trecho começa com uma frase promissora, mas vira uma tautologia em seguida. Primeiro, os “gêneros populares” não são “dinâmicos” (1. o que é “dinâmico”? 2. por que o popular é “menos dinâmico”?). Em seguida, fala-se que Chico Buarque fez sucesso e a MPB vendia menos, mas, num passe de mágica, a MPB “agrega valor” ao produto musical. (1. como a comparação de vendas seria uma evidência de maior “dinamismo” da MPB? 2. o que significa “agregar valor” neste caso e, mais ainda, como é que a MPB “agrega mais valor” do que os “gêneros populares”, se o número de venda é tanto quanto ou maior para os últimos?)

Este tipo de trecho que mostra a evidência de que é preciso ser mais cuidadoso com a análise científica. A impressão que se tem é que o(s) autor(es) gostam de Chico Buarque, mas são lúcidos a ponto de reconhecer que o “mito” da Jovem Guarda não foi algo realmente efetivo. Entretanto, não são tão lúcidos para mostrarem evidências em favor de sua tese.

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