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Guia Politicamente Incômodo da História do Brasil

O livro mais interessante que li nestas férias – ele realmente não é um livro muito extenso – foi o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil de Leandro Narloch.

Há algum tempo, lendo um pouco mais sobre a Guerra do Paraguai, eu havia notado que centenas ou milhares de professores de História continuam sofrendo de um mal que não deveria atingir gente da área: a falta de pesquisa. O fato é que o presidente do Paraguai era um ditador, mas nossos professores sonham com um Solano Lopez socialista (utópico?) que teria implantado um falanstério gigante na América Latina. Nada mais distante da realidade segundo…a própria pesquisa histórica.

Pois bem, este é um dos temas do livro.

Faz tempo que eu me incomodo – e reclamo – da falta de substância em certas críticas ao bolivarianismo brasileiro. Ok, os bolivarianos são sujeitos que, proposital ou ingenuamente, adoram versões wishful thinking da história. Acham que o que pensam é – ou foi – história. Seus críticos, contudo, raramente fazem diferente, quando não bradam apenas chavões sem fundamento. Poucos são os que se livram dos rótulos ideológicos para fazer a crítica.

A realidade brasileira, contudo, é auto-evidente: 10 entre 9 (isso mesmo) professores de história são de esquerda. Logo, o livro de Leandro incomoda quase que a totalidade dos bolivarianos que doutrinam no emprego errado (pois deveriam ensinar), o que tem gerado críticas estranhas. Li em um blog que o autor “usava” a pesquisa histórica para “avançar” a agenda imperialista. Em outras palavras: quando alguém mostra que você está errado com base em pesquisa séria, mostrando-lhe que você doutrina e não ensina, então você é acusado de doutrinar. Um primor de argumento, não?

O livro incomoda, na verdade, a todos. O pessoal da ala nacionalista bolivariana certamente reclamará das evidências de que Santos Dumont não teria sido, realmente, o “pai da aviação” (embora estivesse próximo do título, digamos, em terceiro lugar). Focos de pensamentos racistas em Gilberto Freyre, bobagens vindas de José de Alencar ou Jorge Amado garantem ao menos uma esperança de que o leitor menos idiotizado (lembre-se do ridículo Idiocracy) pare para repensar alguns cânones de pés de barro. Dizer que Zumbi era um escravocrata nem é mais novidade, embora o movimento afro-brasileiro sofra do mesmo mal que os doutrinadores bolivarianos (de direita e esquerda).

Enfim, é um livro altamente recomendável. A honestidade intelectual dos burocratas da educação que pensam realmente saber que livros didáticos são melhores para os outros deveria levá-los a repensar algumas de suas escolhas. O livro de Narloch está fundamentado em resultados de trabalhos científicos, não em críticas raivosas e vazias. Não se pode acusá-lo de pretender doutrinar alguém ou de apresentar críticas sem sentido. Felizmente, não é o caso.

Recomendo a todos os estudantes do ensino médio e básico. A iconoclastia, quando bem fundamentada, é sempre um remédio contra o autoritarismo e o totalitarismo. Antes de falar em “direitos humanos” e usar um lado do espectro político da história para condenar o outro, leia sobre como gente supostamente séria usou de sua autoridade para escrever falsidades que viraram verdades históricas por simples falta de crítica.