A política fiscal e os multiplicadores

Em diversas ocasiões, aqui e em outros blogs, reclamei da falta de atenção dos economistas brasileiros com o que fazem. O problema típico é o do sujeito que torce para o governo como se torce para o Vasco da Gama: ele defende o PAC, mas não mostra uma única evidência de que o mesmo melhora o bem-estar geral.

A questão dos multiplicadores é, no mínimo, o baseline do argumento para se discutir a eficácia da política fiscal. Em tempos de crise e de medidas similares a um estímulo fiscal, tais estimativas se tornam muito mais importantes. Lembre-se, leitor: vários destes economistas torcedores acusavam (com razão) a equipe econômica do governo Collor de decidir o mínimo a ser bloqueado nas aplicações com base, supostamente, em um sorteio. Hoje no poder – ou com alguma grana de uma consultoria paga pelo mesmo governo – nem se dignam a fazer uma estimativa de livro-texto de um mísero multiplicador fiscal.

Não apenas eles, mas muitos críticos do que faz o governo também nada fazem. Gente que pede subsídios e isenções fiscais também não avança muito o argumento, mantendo o cômodo baixo nível no debate sobre a eficácia das políticas públicas. Talvez seja o medo de encarar o problema de se encontrar evidências de rent-seeking nas políticas públicas, ou talvez seja a falta de vergonha de jogar uma partida ruim para obter um empate. Nunca se sabe. Estudassem um pouco de história da maneira certa e pelo menos o problema era menor…

Por isso é que eu vejo sem nenhum espanto este relatório indicado pelo Menzie Chinn. Ele mostra que, ao menos no mundo desenvolvido, os economistas justificam seus salários quando o assunto é debater uma crise econômica. Alguém – de maneira muito impensada – já disse que não é preciso enviar nossos economistas para uma pós no exterior porque (muito supostamente) nossos cursos já seriam de excelente nível. Eu poderia listar várias evidências muito simples contrárias a esta pretensão terceiro-mundista que mais lembra a arrogância dos militares e dos terroristas do Araguaia nos anos 70: ambos se achavam com o rei na barriga quando o assunto era discutir economia.

Entretanto, a simples falta de discussão similar na grande imprensa já basta. Note-se, de passagem, que o que se vê diz respeito a um curioso festival de arrogância na qual economistas brasileiros se reúnem para debater o fim ou a crise da teoria econômica, embora sejam incapazes de responder a mais simples pergunta de todas: de quanto aumenta (diminui) o PIB se o gasto do governo aumenta (diminui)?

p.s. Sim, outros temas de pesquisa são relevantes, não apenas a crise. Contudo, o que espanta é a falta de capacidade de muitos capas-preta de mostrarem alguma competência no que diz respeito ao mínimo necessário a um bom argumento: a parte “suja” que “sinhá” e “nhonhô preto velho”, escravos, fazem bem aos opulentos e folgados senhores de engenho…a parte prática.

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