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Political arguments crowd out serious economic arguments

Eis um artigo de Bruno Frey que vai ao limite do debate sobre o que é a ciência econômica e qual sua relevância no mundo.

Frey é um sujeito cheio de insights, logo, vale a pena ler seus textos. Entretanto, este dá pano para manga para brigas com quem não leu (ou leu, mas não conseguiu entender) o que ele tem escrito nos últimos anos. Logo, cuidado na leitura. Frey não vive em um ambiente como o brasileiro no qual o nível do debate se revela na estranha mudança do grau de exigência, fartamente debatido na blogosfera, do último concurso do IPEA (por exemplo, aqui, aqui, aqui e aqui).

Esqueça, por enquanto, suas preferências ideológicas. A relevância da economia deve ser sujeita ao confronto com a realidade, seja na forma de teste de hipóteses numa abordagem mais tradicional (Friedman), ou sob a forma de estudos específicos (Coase) ou, ainda, no formato de algum tipo de simulação como curte o pessoal – hoje – de DSGE

Será mesmo? O argumento de Frey toca nestes pontos sensíveis. Por exemplo, muitos usam o discurso econômico apenas para maximizar a chance de obter um favor político, sem tanta preocupação com o cálculo do custo e do benefício de sua proposta para a sociedade. Isto já foi apontado, para o Brasil, pelo velho Bulhões e tem sido reiterado por alguns críticos recentes (como Pedro Cavalcanti, em sua querela com os defensores da política industrial a qualquer custo). Neste sentido, argumentos políticos geralmente expulsam/diminuem a influência (mas não a importância) dos argumentos econômicos, como eu disse no título, traduzindo uma frase citada no texto original de Frey (um exemplo seria, talvez, este).

Diga-se de passagem, este trecho do texto de Frey resume muito do que eu penso ocorrer no Brasil:

The demand for economists is partly produced by the economics profession itself. Economic theories favouring government intervention increase the demand for economists in public advisory boards and within the public administration. According to Friedman (1986, pp. 8–9), one reason why Keynesian theory became accepted so quickly was that “. . . it opened up such wonderful opportunities for employment and influence by economists . . . the New Deal was the greatest employment programme for economists that ever existed“. In the 80s, the policy of privatisation and deregulation also increased the demand for economists in the private sector.

A citação é boa: ela mostra que há incentivos para que economistas se afastem das proposições positivas e se aproximarem das normativas não por conta de algum apelo vagamente preocupado com a sociedade e o mundo real, como querem alguns, mas apenas por interesse próprio. 

Assim, veja bem, devemos estudar o processo de produção acadêmica. Embora muitos colegas não-economistas concordem comigo, é difícil encontrar algum que se submeta a uma investigação dentro de sua própria área. Touché! Sabemos que o telhado de vidro de médicos, biólogos, físicos, sociólogos, etc etc etc, é tanto quanto ou mais frágil que o nosso. Aliás, este é um dos motivos pelos quais eu gosto da Ciência Econômica: há a possibilidade de uma investigação científica sobre a honestidade de nossos próprios membros. Gera alguma bronca? Claro, mas a compreensão da realidade não avança sem que se pise em patas de ruminantes ou mesmo que se enfrente mamutes…

No Brasil, o debate econômico tem uma dimensão interessante gerada, penso eu, em algum momento do nossa vida sob o padrão-ouro. Em algum ponto daquela época (trata-se de um simples palpite a escolha do final do século XIX, mas há algo aí…creio), o debate se tornou uma bravata ideológica contra a teoria econômica que resultaria em discussões pouco elaboradas com um ou outro insight interessante.

A construção da Ciência Econômica no Brasil tem lá seus aspectos ideológicos, mas também tem seu elemento de capital humano (veja meu post imediatamente anterior a este). Ou seja, enquanto a criação da formação universitária em nossa área prosperou no mundo e gerou externalidades positivas, aqui a dificuldade de suplantar os discursos vazios, mas de bela retórica, parece ter sido uma barreira importante à construção do pensamento econômico baseado em uma forte análise da realidade brasileira. Penso, por exemplo, na imensa diferença de qualidade entre o debate econômico na imprensa/blogosfera brasileira e na de qualquer país desenvolvido.

É quase inevitável não lembrar dos apelos representados pelo currículo proposto por Gudin para o curso e as queixas de Mircea Buescu contra as interpretações econômicas de nossa história que, propositalmente ou não, ignoravam a simples análise estatística dos dados (já citei isto antes, várias vezes, aqui): economistas –  tal como entendo o termo – no Brasil dos anos 50 lutavam para que seus colegas, ao menos, estudassem estatística! Nossa história econômica, digo, nossa historiografia econômica, por exemplo, poderia ser infinitamente melhor se as pessoas não lessem Celso Furtado de joelhos, em frente ao altar, mas sim com a mesma atitude crítica que um estudante tem ao estudar qualquer autor, qualquer teoria ou qualquer coisa.

Entender a produção acadêmica e sua relação com os grupos de interesse é um projeto de pesquisa interessante para os próximos anos. Não para os EUA ou para a Inglaterra, mas para o Brasil. Faz parte da compreensão da história de nossa ciência no país e também, claro, de sua relevância para a economia atual. Até que ponto geramos mais benefícios do que custos é uma questão em aberto. 

Amontoado de textos sobre o tema e/ou quase sobre o tema: este, do Gustavo Franco. Sobre a pesquisa econômica no Brasil, este do Walter Novaes e este, de alguns autores mais ou menos conhecidos aqui sob a aba: “Economic Incentives in Academy”. Se alguém se lembrar de algum outro, por favor, use os comentários abaixo.

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A persistência das más idéias

Leo Huberman pode ser bom em despertar em qualquer um o sentido de revolta. Mas não entende nada de economia. Em resumo, assim se pode ver seu livro mais famoso. E, novamente, nosso amigo Tambosi reclama da persistência aparentemente irracional de muitos em adotarem seu livro no século XXI.

Este é um tema muito interessante na história da ciência: sabe-se que o sujeito errou, mas persiste-se no erro maior de divulgá-lo como correto. A adoção de idéias estranhas pode ocorrer por má formação de quem as lê (nível baixo de capital humano) ou por algum outro mecanismo no qual o custo de se acreditar em bobagens seja baixo para o crente

O resultado disto, para mim, é que a ideologia passa a exercer um papel muito maior no receituário que a pessoa pensa ser adequado para entender/resolver algum problema do que o raciocínio científico normal (erro-e-tentativa). Minha leitura – ainda li pouco, sei disso, sobre este tema – sobre a ciência na Alemanha nazista e na Rússia soviética (pense em exemplos mais recentes, leitor) – mostra que é o que acontece: gente absolutamente sem preparo assume o poder por conta de lealdade ao regime muito mais do que por conta de algum conhecimento científico (geralmente até o tem, mas é menor do que a maioria dos pares) e tudo é resolvido por ideologia. 

Note que o caminho da ideologia não é exclusivo desta ou daquela corrente de pensamento. O sinal de que a canoa virou ocorre quando o sujeito começa a negar que sua teoria tenha falhas. Ou ela é “científica” e as outras não o são, ou ela é perfeita e definitiva. Mais ou menos o contrário do que se propõe para a empreitada científica. Simplesmente: se você acha que sua teoria é definitiva, então deve investir apenas em divulgação ideológica (e não em desenvolvê-la já que não há porque desenvolvê-la).

Se fizermos um estudo empírico simples sobre isto no Brasil, o que será que encontraremos?