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Por que ninguém fala de Frederic Mishkin nestas horas?

Em qualquer profissão existem dois tipos de gente: os que avançam e os que apenas reproduzem o conhecimento. Para vender pipocas ou computadores, geralmente não é necessário avançar o conhecimento, claro. Mas, como nos ensinou Adam Smith, a divisão de trabalho é a melhor forma de se melhorar nossa vida. Principalmente se a mesma for diretamente relacionada com a demanda e a oferta em vários mercados. 

Assim, é bom que haja alguém estudando este ou aquele aspecto da realidade para melhorar nosso conhecimento da mesma. Em 1994, com o Plano Real, o brasileiro médio, conhecedor ou não de Economia, viu o que o avanço tecnológico pode fazer: hordas de doutores em economia formados no exterior trouxeram a tecnologia da política econômica moderna para um país no qual, como bem destacou Joseph Love (“A Construção do Terceiro Mundo”, Paz e Terra), o debate econômico limitava-se a honrar argumentos ridículos, baseados apenas na autoridade do sujeito sem qualquer critério científico.

Vá lá que seu Tomás de Aquino disse que temia um homem de um livro só. Eu também temo, mas porque o obscurantismo deste sujeito pode ser boçal. O verdadeiro significado – creio eu – do que disse o grande religioso, é simplesmente que o homem de um livro só foca seu estudo, parte do básico que leu e avança criticamente em direção ao futuro sem medo de criticar seu próprio passado.

É assim que vejo a ciência (sem qualquer pretensão maior do que a de um post na internet).

Isto tudo para dizer que, ao pesquisar alguns artigos hoje pela manhã, trombei, literalmente, em dois antigos de Frederic Mishkin (conhecido no Brasil pelo seu livro excelente de Economia Monetária), no qual ele estuda a recessão norte-americana dos anos 70 e alerta para o problema do mercado imobiliário. No maior deles, do Brookings Institute (com vários co-autores), lê-se, na conclusão:

One moral that emerges from the analysis presented here is that infor- mation on the balance-sheet positions of American households should be used in constructing stabilization policies. Furthermore, policymakers should analyze a wider range of monetary phenomena beyond interest rates and the stock of money before embarking on certain policy paths. In particular, movements in prices of common stock should be studied because of their possibly potent effects on aggregate demand.

Como ele chegou nisto é algo que não depende de preferências políticas ou de apriorismos circulares. Geralmente este tipo de discussão não ajuda em nada aquele que realmente precisa de entender os artigos científicos para aplicações práticas. Pois Mishkin faz um belo resumo do estado teórico da época – relativo à importância dos balanços dos consumidores (o que inclui as posições dos mesmos no mercado de ações e também no mercado de imóveis, dentre outros) – e parte para uma bateria de testes econométricos. 

O outro artigo, no Journal of Economic History, temos:

This paper focuses on changes in household balance sheets during the Great Depression as transmission mechanisms which were important in the decline of aggregate demand. Theories of consumer expenditure postulate a link between balance-sheet movements and aggregate demand, and applications of these theories indicate that balance-sheet effects can help explain the severity of this economic contraction. In analyzing the business cycle movements of this period, this paper’s approach is Keynesian in character in that it emphasizes demand shifts in particular sectors of the economy; yet it has much in common with the monetarist approach in that it views events in financial markets as critical to our understanding of the Great Depression.

Ou seja, o artigo nos dá um entendimento mais detalhado dos mecanismos de transmissão prevalecentes na economia durante a Grande Depressão, de maneira, digamos, mista entre uma visão unilateral keynesiana ou monetarista. 

Ambos os artigos são terrivelmente atuais e me alertam para um ponto que não tenho visto no Brasil, em termo do debate da crise: a abordagem de Mishkin não tem tanta popularidade.

Aqui, ao que parece, a imprensa se vê presa no que chamarei de paradoxo de Love: com todo o avanço do conhecimento econômico, só se noticia um debate primitivo, entre “keynesianos” e “não-keynesianos”. Embora este seja um exemplo didático para leigos, já temos muito mais a oferecer aos jornais em termos de hipóteses. 

Talvez não tenhamos tantos doutorandos trabalhando com, digamos, a hipótese de Mishkin, no Brasil. Talvez o governo atual tenha se deixado levar demais pela ideologia em suas escolhas de economistas para pesquisas. Talvez os economistas mais preparados tenham percebido a irrelevância do governo em decisões que envolvem o desenvolvimento do conhecimento econômico. Talvez alguns de nós, economistas, que não estudaram muito mas conseguiram um espaço no jornal de sua cidade, dediquem-se a criar barreiras à entrada, qualificando qualquer pensamento distinto do seu (e também os cientificamente mais consistentes) de heresias. 

Finalmente, claro, talvez eu tenha exagerado minha leitura de Mishkin. Mas o bom da internet e da curiosidade humana é que você mesmo, leitor, pode checar isto. Vá lá e dê uma olhada nos artigos. 

p.s. a impressão que tenho é que muitos economistas se vendem à imprensa com rótulos muito primitivos e a imprensa, claro, compra isto barato demais. 

p.s.2. eu não conheço o que Roubini escreve. Talvez ele seja a resposta. Alguém sabe se existe alguma abordagem científica nos argumentos do “Dr. Doom”? Se sim, é parecida com a de Mishkin? Vai que eu não li algo importante…

Referências (quase nas normas da ABNT, quase…)

The Household Balance Sheet and the Great Depression, The Journal of Economic History, Vol. 38, No. 4 (Dec., 1978), pp. 918-937

What Depressed the Consumer? The Household Balance Sheet and the 1973-75 Recession, Brookings Papers on Economic Activity, Vol. 1977, No. 1 (1977), pp. 123-174

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Um comentário em “Por que ninguém fala de Frederic Mishkin nestas horas?

  1. hmm esse híbrido é muito interessante. Quando resolvi comparar algumas abordagens clássicas com as keynesianas, achei certas discussões muito pobres, para não dizer meio bobas. Por exemplo, a Lei de Say, de que “a oferta cria a demanda”… Parece-me correta, mas não é a “lei da gravidade”. A refutação de Keynes faz sentido, é possível arrumar contra-exemplos, não chega, porém, a ser uma “teoria da relatividade”, com uma implicação profunda no nosso conhecimento sobre tempo-espaço, digo, oferta e demanda.

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