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Ops, foi mal…meu exemplo não é bom

Eu não conhecia este divertido artigo do McCallum e co-autores. Eis o resumo: 

ABSTRACT: For introductory presentation of issues involving identification and estimation of simultaneous equation systems, a natural vehicle is a model consisting of supply and demand relationships to explain price and quantity variables for a single good. One would accordingly expect to find in introductory econometrics textbooks a supply-demand example featuring actual data in which structural estimation methods yield more satisfactory results than ordinary least squares. In a search of 26 existing textbooks, however, we have found no such example—indeed, no example with actual data in which all parameter estimates are of the proper sign and statistically significant. This absence is documented in the present paper. Its main contribution, however, is the development of a simple but satisfying example, for broiler chickens, based on U.S. annual data over 1960-1999. Some discussion of the historically notable beef example of Tintner (1952) is included.

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As editorias de redação que não dialogam

Na manchete: jovens endividados. Logo abaixo: “crise, que crise?” Não fica óbvio que há uma relação? Talvez não sejam os mesmos jovens endividados os que vão ao carnaval durante a crise. Mas é, no mínimo, uma piada involuntária.

Claro que uma crise não se faz sentir simultaneamente em todos os setores da economia. Nem é razoável que o sujeito que gastou uma grana no abadá jogue tudo fora agora (a lição básica de economia envolve os conceitos de sunk costs e custo de oportunidade).

Mas sem detalhar a óbvia estrutura dinâmica dos fenômenos econômicos, fica a piada do dia por conta de um grande jornal de Minas Gerais que estampou estas manchetes em sua capa.

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Por que ninguém fala de Frederic Mishkin nestas horas?

Em qualquer profissão existem dois tipos de gente: os que avançam e os que apenas reproduzem o conhecimento. Para vender pipocas ou computadores, geralmente não é necessário avançar o conhecimento, claro. Mas, como nos ensinou Adam Smith, a divisão de trabalho é a melhor forma de se melhorar nossa vida. Principalmente se a mesma for diretamente relacionada com a demanda e a oferta em vários mercados. 

Assim, é bom que haja alguém estudando este ou aquele aspecto da realidade para melhorar nosso conhecimento da mesma. Em 1994, com o Plano Real, o brasileiro médio, conhecedor ou não de Economia, viu o que o avanço tecnológico pode fazer: hordas de doutores em economia formados no exterior trouxeram a tecnologia da política econômica moderna para um país no qual, como bem destacou Joseph Love (“A Construção do Terceiro Mundo”, Paz e Terra), o debate econômico limitava-se a honrar argumentos ridículos, baseados apenas na autoridade do sujeito sem qualquer critério científico.

Vá lá que seu Tomás de Aquino disse que temia um homem de um livro só. Eu também temo, mas porque o obscurantismo deste sujeito pode ser boçal. O verdadeiro significado – creio eu – do que disse o grande religioso, é simplesmente que o homem de um livro só foca seu estudo, parte do básico que leu e avança criticamente em direção ao futuro sem medo de criticar seu próprio passado.

É assim que vejo a ciência (sem qualquer pretensão maior do que a de um post na internet).

Isto tudo para dizer que, ao pesquisar alguns artigos hoje pela manhã, trombei, literalmente, em dois antigos de Frederic Mishkin (conhecido no Brasil pelo seu livro excelente de Economia Monetária), no qual ele estuda a recessão norte-americana dos anos 70 e alerta para o problema do mercado imobiliário. No maior deles, do Brookings Institute (com vários co-autores), lê-se, na conclusão:

One moral that emerges from the analysis presented here is that infor- mation on the balance-sheet positions of American households should be used in constructing stabilization policies. Furthermore, policymakers should analyze a wider range of monetary phenomena beyond interest rates and the stock of money before embarking on certain policy paths. In particular, movements in prices of common stock should be studied because of their possibly potent effects on aggregate demand.

Como ele chegou nisto é algo que não depende de preferências políticas ou de apriorismos circulares. Geralmente este tipo de discussão não ajuda em nada aquele que realmente precisa de entender os artigos científicos para aplicações práticas. Pois Mishkin faz um belo resumo do estado teórico da época – relativo à importância dos balanços dos consumidores (o que inclui as posições dos mesmos no mercado de ações e também no mercado de imóveis, dentre outros) – e parte para uma bateria de testes econométricos. 

O outro artigo, no Journal of Economic History, temos:

This paper focuses on changes in household balance sheets during the Great Depression as transmission mechanisms which were important in the decline of aggregate demand. Theories of consumer expenditure postulate a link between balance-sheet movements and aggregate demand, and applications of these theories indicate that balance-sheet effects can help explain the severity of this economic contraction. In analyzing the business cycle movements of this period, this paper’s approach is Keynesian in character in that it emphasizes demand shifts in particular sectors of the economy; yet it has much in common with the monetarist approach in that it views events in financial markets as critical to our understanding of the Great Depression.

Ou seja, o artigo nos dá um entendimento mais detalhado dos mecanismos de transmissão prevalecentes na economia durante a Grande Depressão, de maneira, digamos, mista entre uma visão unilateral keynesiana ou monetarista. 

Ambos os artigos são terrivelmente atuais e me alertam para um ponto que não tenho visto no Brasil, em termo do debate da crise: a abordagem de Mishkin não tem tanta popularidade.

Aqui, ao que parece, a imprensa se vê presa no que chamarei de paradoxo de Love: com todo o avanço do conhecimento econômico, só se noticia um debate primitivo, entre “keynesianos” e “não-keynesianos”. Embora este seja um exemplo didático para leigos, já temos muito mais a oferecer aos jornais em termos de hipóteses. 

Talvez não tenhamos tantos doutorandos trabalhando com, digamos, a hipótese de Mishkin, no Brasil. Talvez o governo atual tenha se deixado levar demais pela ideologia em suas escolhas de economistas para pesquisas. Talvez os economistas mais preparados tenham percebido a irrelevância do governo em decisões que envolvem o desenvolvimento do conhecimento econômico. Talvez alguns de nós, economistas, que não estudaram muito mas conseguiram um espaço no jornal de sua cidade, dediquem-se a criar barreiras à entrada, qualificando qualquer pensamento distinto do seu (e também os cientificamente mais consistentes) de heresias. 

Finalmente, claro, talvez eu tenha exagerado minha leitura de Mishkin. Mas o bom da internet e da curiosidade humana é que você mesmo, leitor, pode checar isto. Vá lá e dê uma olhada nos artigos. 

p.s. a impressão que tenho é que muitos economistas se vendem à imprensa com rótulos muito primitivos e a imprensa, claro, compra isto barato demais. 

p.s.2. eu não conheço o que Roubini escreve. Talvez ele seja a resposta. Alguém sabe se existe alguma abordagem científica nos argumentos do “Dr. Doom”? Se sim, é parecida com a de Mishkin? Vai que eu não li algo importante…

Referências (quase nas normas da ABNT, quase…)

The Household Balance Sheet and the Great Depression, The Journal of Economic History, Vol. 38, No. 4 (Dec., 1978), pp. 918-937

What Depressed the Consumer? The Household Balance Sheet and the 1973-75 Recession, Brookings Papers on Economic Activity, Vol. 1977, No. 1 (1977), pp. 123-174