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Por que não sou um economista austríaco brasileiro

Nunca achei que fosse escrever isto. Quem me acompanha neste blog sabe que já fiz várias invocações aos bons jovens liberais brasileiros que, como eu, gostam de Hayek e alguns insights  da economia austríaca.

Falarei do ponto de vista da Teoria Econômica e o argumento, aqui, não é elaborado o suficiente para se dizer um artigo científico, ok? 

Primeiro, continuo a achar que os austríacos são a “heterodoxia ignorada” da academia brasileira. Sempre achei que havia um certo preconceito por conta do liberalismo inerente ao pensamento austríaco mas, após o tom de certas respostas que tive em uma discussão recente, lá no Ordem Livre, percebo outra deficiência dos auto-proclamados austríacos brasileiros.

Vamos a ela.

O que se segue, novamente, pretende ajudá-los a pensar sobre o próprio destino. Longe de mim dizer o que é bom para eles. Sou hayekiano: eles que descubram o que é melhor para si. Juliano, Joel e demais participantes da ala “educada do debate”, tomem isto como um palpite bem-intencionado e nada mais.

No debate em questão, um comentário muito infeliz foi: “apesar do Ph.D. o fulano disse algo que eu acho estúpido”. Em seguida, a afirmação com a qual concordo: “ph.d.’s estúpidos podem dar aula em Yale, Stanford, etc”. Concordo mesmo. Deve mesmo existir alguns Ph.d.’s estúpidos em Yale, George Mason, New York University, Stanford, Auburn University, Chicago, Boston, etc. 

Notou? A ironia do argumento é que sua defesa do obscurantismo leva à própria auto-destruição. Obviamente eu não acho que é estúpido um argumento que vai contra o que penso, mas para quem nisto acredita, que aceite o contra-argumento. 

Mas eu falava da fraqueza austríaca na academia. É certo que gosto do insight austríaco sobre o funcionamento do mercado e aprendi muito – mas muito mesmo – sobre economia austríaca com o pragmatismo de Peter Boettke, um sujeito realmente sério no que tange à promoção dos insights austríacos na academia.

Ainda que não concorde com tudo o que ele diz (não sou seguidor de religiões austríacas que se dedicam a interpretações do misticismo de algum economista austríaco, sou cientista), vejo em seus pupilos notáveis talentos com boas idéias, argumentos logicamente construídos e sem nenhum dogmatismo. 

Há no Brasil gente séria que estuda economista austríaca?

Há lá um Jorge Soromenho na USP que fala sobre Hayek e ciclos , e o Fábio Barbieri (não me lembro onde, mas também em SP) e, claro, nenhum deles nunca é citado pelos austríacos brasileiros (refir0-me aos que me cretinizaram na discussão). Por que será? Talvez porque tenham Ph.D (de fato, ambos são, pelo menos mestres, senão doutores, em economia). Ou será que os próprios bons economistas já perceberam a cretinice de certos debates? 

Os austríacos brasileiros prometem mas, por enquanto, não querem um debate científico. Não publicam no Review of Austrian Economics. Entendo que não queiram publicar na American Economic Review, ou nas nacionais como Economia Aplicada, Revista Brasileira de Economia, etc. Mas nem um único artigo no Journal of Libertarian Studies? E o Quarterly Journal of Austrian Economics? Nem um único artigo? O que será que falta para dar este passo? Talvez alguns queiram (acredito em gente séria, claro, como os sempre citados aqui), mas ainda lhes falte estudos (ou um…titulozinho de ph.d.?).

É este o ponto que tenho insistido em meus diálogos com os austríacos brasileiros. Reproduzir panfletagem norte-americana traduzida funciona até certo ponto. Gosto muito do Helio Beltrão Jr. e em respeito a ele vou dizer o que penso: é preciso escrever sobre a realidade nacional. Mas não é preciso apenas escrever. Não é só inverter o sinal de “A Causa Operária” e sair em passeata por aí. Precisamos de análises minimamente científicas. Ok, não precisa usar econometria, mas tem que fazer o trabalho de estatística básica com o mínimo de profissionalismo. 

Hélio não tem nada a ver com o debate, mas parece que foi de seu instituto, o Instituto Mises Brasil, que vieram os ataques “cretinos” aos Ph.D.s que fazem alguma crítica (ainda que tópica) a um único pensador austríaco. Se é uma posição oficial do Instituto, Hélio, boa sorte, mas, como dizem por aí, não conte comigo. Estou fora. 

Estou ao lado do austríaco brasileiro que deseja publicar seriamente. Talvez eu devesse dizer “para além da panfletagem” ou “por um movimento austríaco adulto no Brasil”. Quero ler gente que publique no nível de Peter Boettke, Daniel Klein, Roger Garrison, Peter Leeson. Não quero e não tolero o obscurantismo do economista austríaco brasileiro e de seus militantes seguidores que desejam apenas desfazer do estudo acadêmico que custou muito tempo e horas com a família para gente como os austríacos sérios nacionais que citei acima.  Quero ter o prazer de dialogar com gente que publica em periódico de gente grande, acadêmico, como os citados acima. 

Que tenham ou não gostado da referência de Mises no debate, neste momento, é algo que não me importa mais. Creio que as ponderações (as educadas, digo) dos debatedores me ajudaram bastante. As outras me convenceram: quero mais é continuar aproveitando o que eu achar útil nos escritos austríacos. Ou seja, não sou um economista austríaco brasileiro médio e nunca serei. E agradeço a Hayek por isso. Minha ignorância ainda me motiva a seguir em frente. 

Para este post, leitor, não abriremos comentários. Agradeço sua atenção e compreensão.

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