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A Economia política e os grupos de interesses nas Olimpíadas

O Renato mandou um comentário com esta matéria. Há vários problemas aí. Primeiro, o resultado de uma competição não é apenas fruto do esforço do atleta brasileiro, mas sim do total de competidores na disputa. Uma das formas de se pensar isto é modelar a probabilidade de sucesso do sujeito como o seu esforço sobre a soma dos esforços (Pi = ei/(ei+ej), para dois competidores). Esta é a famosa expressão utilizada por Gordon Tullock em um antigo artigo sobre rent-seeking.

Mas não é só isto.

O resultado em uma competição também é função de fatores aleatórios e, claro, tudo isto depende de quanto dinheiro se investe e como. Esta, aliás, é a tônica da matéria no Contas Abertas. Entretanto, as críticas apontadas lá não me parecem muito sólidas. Reclama-se, por exemplo, que o esporte deveria não apenas tornar os praticantes mais eficientes, mas também transformá-los em “cidadãos”. Péssima idéia. Se você quer alocar recursos para esportes, faça-o da forma mais eficiente. Se quer alocar para a educação, idem. Mas juntar dois objetivos com uma mesma verba é dar um tiro no pé. Ao final, nem cidadão (seja lá o que isto for, já que não há uma definição disto na matéria), nem desportista.

A matéria fala de rediscutir prioridades de investimentos e esta é a eterna desculpa de todos. Perdi a competição? A culpa é da má alocação. Você perdeu e eu ganhei? Claro que foi mérito meu (e da boa alocação), enquanto você dirá que a culpa é da má alocação dos recursos. É óbvio que um critério técnico para a aplicação dos recurso é necessário, por mais que o governo se enfronhe mais do que nunca na regulamentação dos esportes. Aliás, o argumento exposto na matéria é engraçado. Veja:

Segundo diversos especialistas, como José Cruz, da editoria de esportes do Correio Braziliense, embora não se pretenda que a política esportiva do Brasil seja dirigida apenas para a formação de atletas – o prioritário é que a educação esportiva ajude na formação do cidadão, na saúde e na inclusão social – a ampliação “da base da pirâmide” do esporte de alto rendimento depende da estreita relação entre o esporte e a educação, assim como acontece nos Estados Unidos, na China e em Cuba (apesar de não ter sido destaque em Pequim).

Então ganhamos poucas medalhas porque gastamos mal os recursos mas, veja, Cuba também não foi grandes coisas, mas alocou bem os recursos. Entre os dez primeiros países, em total de medalhas, temos Austrália, EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Coréia do Sul e Itália (mais a China, com o enclave de Hong Kong livre, Ucrânia e a Rússia). Será que o exemplo está em Cuba?

Eu gosto do argumento dos “cidadãos formados”. Só que, para mim, estes cidadãos têm melhor formação quando vivem em países com instituições mais favoráveis à livre expressão – inclusive de seus talentos nos esportes – à livre troca, etc. É verdade que medalhas podem ser conquistadas por países cujos governos possuem instituições horrorosas, mas a questão é o que você quer fazer após ganhar as medalhas: voltar a um país no qual o burocrata pensa saber melhor do que você o que é um “cidadão” ou voltar a um país no qual sua cidadania possa descoberta por você mesmo?

Assim, mais calma nestas críticas. Há muito o que se discutir sobre metas, instrumentos, recursos e resultados e, certamente, a resposta não se encontra em modelos ditatoriais (aliás, alguém se deu ao trabalho de ver o desempenho da Venezuela na tabela acima? Vale a pena). Há muitos grupos de interesse envolvidos na alocação de recursos para esportes no Brasil, tal como em outras áreas. Se a crítica é apenas a de que se deve aumentar a arrecadação e distribuir os recursos para mais grupos, o problema não será resolvido. Pode até piorar.

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Um comentário em “A Economia política e os grupos de interesses nas Olimpíadas

  1. Caro compatriota tão moralmente abalado.

    Gostaria de fazer um comunicado importante: redigi uma proposta (brilhante, por sinal) ao Comitê Olímpico Brasileiro… caso eles gostem, pode ser apresentada mais seriamente ao COI… Antes de enviar minha reinvindicação, gostaria da sua opinião…

    coloquei a proposta no seguinte endereço: http://queridobunker.wordpress.com/2008/08/21/proposta-esportiva/

    Sabemos que com os brasileiros apoiando esta idéia, podemos fazer muito mais pelo esporte.

    Desde já agradeço a atenção.

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