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Meus alunos são babacas, diz o presidente – II

Prezado sr. da Silva,

Há muito tempo não tinha a oportunidade de lhe escrever. Veja bem, leciono em uma faculdade privada, destas que o senhor provavelmente pensa estar cheia de alunos babacas. De fato, há muita babaquice aqui. Muitas vezes eu me pergunto sobre a origem da mesma. Após tantos anos de ensino, não apenas por vocação ou desejo, mas também porque tenho minhas contas a pagar, cheguei a algumas conclusões, sr. da Silva.

Há muita babaquice entre nossos alunos porque os mesmos se esqueceram das responsabilidades. Sabe, não é a riqueza que traz babaquice. Sempre vi alunos pobres bem babacas também. Fazem o discurso do “sou coitado, ajude-me, mesmo que eu seja um asno”. Este discurso não é diferente dos ricos babacas. Ele mostra uma falta de consciência com relação ao mais rico tesouro que um ser humano pode ter: sua própria individualidade, seu direito de errar e acertar por conta própria.

O senhor assistiu a um filme de Kurosawa chamado “Madadayo”, sr. da Silva? Alugue e o assista. Vou resumir um pouco da história: é uma ficção sobre um professor e sua relação amistosa com um grupo de fiéis alunos que o admiram. Em determinado momento, talvez o clímax do filme, ele, já idoso, numa das festas em sua homenagem que os alunos anualmente promovem, chama os netos dos alunos e lhes diz ter um tesouro. O senhor sabe, sr. da Silva, tal como em política, há metáforas em belos filmes. O “tesouro”, ao qual se refere o velho professor, é uma lição simples: “ao acharem algo de que gostem, agarrem-se profundamente ao mesmo porque aprenderão a valorizar a luta por ideais que lhe agradem”. Veja bem, uma busca na qual errarão ou acertarão, inevitavelmente.

A lição não diz respeito apenas a uma luta. Ela pressupõe uma possibilidade maior, a de que cada um busque seus objetivos. Estamos falando da liberdade de ser feliz, sem depender dos outros. Não é ser babaca e dizer que a culpa é de fulano ou beltrano, porque você mesmo corre atrás do que gosta. O senhor já deve ter visto discurso assim, mas provavelmente seus assessores devem ter pensado nele como um “discurso individualista”.

Nada mais enganoso.

Mas falávamos da babaquice, não é? Aqui na faculdade privada, é verdade, nem todo mundo que entra é tão inteligente assim. Antes havia uma diferença maior com relação a alunos de universidades públicas mas, sabe, de tanta destruição, os ensinos médio e básico pioraram muito. Aí, sr. da Silva, a diferença diminuiu. Tem muito babaca lá também. Agora, os meus alunos ricos sabem de suas deficiências e não desprezam uma ajuda de um monitor ou de uma bibioteca. Sim, eu sei, há muito babaca que não aproveita esta chance, mas nos meus tempos de universidade pública não era diferente. Ou era, mas aí a arrogância de alguns era tão grande que provavelmente eu possa dizer que há mais humildade aqui do que na universidade pública.

É babaquice dizer isto? Talvez.

Talvez, sr. da Silva, o babaca seja o professor. O professor que só quer saber de doutrinar, que pensa no aluno como uma massa de modelar para seus desejos ideológicos pervertidos. Seria muita babaquice ensinar menos matemática e mais música ou filosofia? Ou seria babaquice criar um falso “consenso social” para perseguir, isto sim, as minorias que discordam da visão dos neo-coronéis formados nas escolas “de formação social” de certos partidos? Quanta babaquice, não é?

Tenho e já tive alunos babacas, senhor presidente. Alguns, provavelmente, elegeram-se para cargos públicos. O senhor deve conhecê-los ou, quem sabe, já não dividiu o palanque com algum deles? Psicanaliticamente, talvez o senhor sempre divida o palanque com um babaca. E eu também, babaca que sou, por estar aqui, pensando em meus alunos – tanto os babacas como os não babacas – e tentando lhe mostrar que a origem da babaquice não está na “riqueza”, mas no berço.

Aliás, alguém lá no seu governo, acho que no IPEA, divulgou uma pesquisa antiga que dizia que a classe média estaria aumentando no Brasil. O senhor sabe, talvez isso ocorra porque muita gente está enriquecendo. Ou seja, mais babacas pela frente.

Eu sei que o senhor e seus assessores se preocupam com isto. Uma solução, quem sabe, é uniformizar o ensino e estatizar ao máximo a educação, simultaneamente a uma regulação feroz para o setor privado. Será isto uma babaquice, senhor presidente? Para alguns, é. Para o senhor, só o senhor, sem assessoria, também o é? Acho que não. Mas, claro, pode ser que isto tudo seja babaquice minha, mesmo não tendo metade da renda de muitos de meus alunos.

Sim, eu sei. Babaca é não puxar saco de político. Babaca é falar de capitalismo. Babaca é falar de mercado. Babaca é valorizar a liberdade. Será mesmo? Talvez babaquice seja dizer o contrário. O senhor já pensou nisto? Aproveite enquanto o sistema de ensino brasileiro valoriza a diversidade intelectual porque, quando a hegemonia chegar, o senhor verá a babaquice no real sentido da palavra.

Eu quero ser rico, mas não quero ser babaca, sr. da Silva. É possível seguir a pesquisa de seus amigos do IPEA sem me tornar um babaca maior do que já sou? Espero que sim, ainda que em toda minha babaquice, algo me diga que pode ser que a lógica que governa a sociedade brasileira seja uma lógica muito babaca.

Um Abraço

Claudio

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Meus alunos são babacas, diz o presidente

Prezados babacas, o sr. da Silva não me permite maiores considerações. Se vocês se acham babacas, lembrem-se de que a vantagem da democracia é que asseclas de gente assim e os próprios mandatários podem ser derrotados por um esforço de gente babaca.

Aliás, babaca é a …

p.s. o discurso diz mais sobre o que pensa o sr. da Silva sobre o estudante do que muita atividade “extra-classe”… Quanta babaquice.