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Sobre a não-matemática

Eis aqui o Juliano e eu. Prometi não alongar muito o – já longo – post anterior que resume o debate. Bem, vamos lá:

Em resposta ao Shikida.

Inicialmente, Kirzner fala em todas as suas obra sobre assimetria informacional, mas procurei encontrar algum trecho que ele se dedique exclusivamente a isso. Alguem deveria traduzir Kirzner para o inglês. Um pequeno trecho do livro Competição e Atividade Empresarial na página 48,49 e 50 falam sobre o assuto. Estou olhando ainda no How Market Works porque la tem uma explicação mais completa e clara do assunto.

Você fala em traduzir para o português, não? Mas eu acho que o ponto principal é: será que o que Kirzner fala de assimetria informacional é o mesmo que eu e 99% dos economistas entendem por tal? Os austríacos, muitas vezes, em suas tentativas de se dizerem “não-ortodoxos” costumam inventar novos nomes para velhos conceitos (quando não criam conceitos novos) e…instala-se a confusão. Como Kirzner e Baumol ensinaram na mesma New York University, suspeito que haja algum diálogo entre ambos, o que me fez dizer que a teoria empresarial de Baumol deve ter algo a ver com Kirzner mas, honestamente, nunca vi – que me lembre – um citar o outro. Também nunca vi, por exemplo, Kirzner falar de rent-seeking, algo que, para mim, deveria ser central em qualquer teoria da atividade empresarial.

Aqui Juliano me cita (fico em negrito, para diferenciar o meu texto do dele, sempre em itálico):

Por exemplo, eu me incomodo com gente que critica a “concorrência perfeita” porque ela é “irrealista”, notadamente […] velhinhos (Marshall?) da época pré-Mises e, claro, de seus contemporâneos.

Esse é um ponto que cedo ou tarde os economistas do mainstream vão fazer concessões a EA. Competição é um processo, não um estado e não existe praticamente nada que diferencia um mercado com uma ou vinte empresas. Caso não exista uma barreira a entrada de novos competidores, o mercado permanece competitivo. O único caso de monopólio natural na visão austríaca é o monopólio de recursos, mas ele é obtido através de um processo competitivo. Como por exemplo uma empresa que tem a totalidade de um recurso, pantentes (esse não é um monopólio artificial, mas dado o costume, é melhor classifica-lo como natural), obras de arte, livros e etc. Se monopólios devem ser combatidos, então deveriamos começar por estes para nã sermos inconsistentes.

Eu não entendi bem o ponto do Juliano aqui. Competição é dinâmica? Ok, um economista da área de Organização Industrial passa boa parte do seu tempo ensinando – quando é empregado de faculdades – diversas imperfeições de mercado, bem como tópicos como economia do marketing ou da inovação. Se não há barreiras, o mercado é competitivo? Sim, se você supor que as pessoas podem competir em uma ou outra margem. No conceito de competição perfeita – o moderno, não o que Mises criticava – como eu disse, até com dois competidores pode haver competição perfeita. Mas uma coisa é dizer que não há barreiras à entrada, outra bem diferente é dizer que haverá competição….em termos de preços. Se esta fosse uma crítica razoável em 1930, hoje não cabe: passo semestres ensinando que competição pode se dar em qualidade, quantidade, preços, etc. Não vejo tanto charme assim em dizer: “ah, os economistas falam do equilíbrio embora reconheçam o desequilíbrio; enquanto os austriacos falam do desequilíbrio embora reconheçam a existência do equilíbrio”. O estudo dinâmico (otimização dinâmica) da economia me parece algo que Böhm-Bawerk aplaudiria com entusiasmo.

Aliás, a título de curiosidade, sabia que Böhm-Bawerk errou no seu clássico livro? Errou mesmo. Fez conta errada. Isto eu descobri, por acaso, há alguns anos, quando procurava um texto de Jack Hirshleifer. Em um de seus primeiros artigos ele mostra como Böhm-Bawerk errou um limite e tirou conclusões, portanto, incorretas. É uma curiosidade histórica, eu sei, mas será que todos os entusiastas do velho austríaco sabem disso?

Novamente, Juliano me cita:

Concordo que há muitos insights interessantes na heterodoxia – sim, Kirzner tem um ponto – mas também não vejo como a diversidade de pensamento na economia deva se tornar um alicerce para a construção de centenas de cursos com diplomas distintos – parece brincadeira, mas alguns heterodoxos propuseram isto recentemente (aproveitando o momento bolivariano na atmosfera latino-americana, mesmo em termos de ensino).

E emenda:

Esse é um ponto ideal para o uso do seu conceito de mercado de idéias. O mercado vai definir o que as faculdades ensinaram, e provavelmente quando todas elas forem privadas, teremos diversas linhas de ensino, mas com certeza alguma terá um maior destaque. O que esses bolivarianos querem é transformar as universidades públicas em celeiros do socialismo.

Ok, porque é que “alguma terá um maior destaque”? Eu compartilho da antipatia quanto aos bolivarianos, mas não entendi a citação nesta frase, nem também o fatalismo sobre a faculdade highlander (he, he, he).

Novamente sou citado e Juliano segue:

Então, você ainda aposta nos austríacos, Cláudio?” – alguém poderia perguntar. Claro. O que me incomoda […] avançar em seu programa de pesquisa individual fazendo, de fato, ciência, e não apenas repetindo idéias?

Maior popularidade não é indicação de qualidade ou verdade. Carros populares vendem muito, mas grande parte das pessoas sabem que um porsche ou uma mercedes tem mais qualidade. Então uma explicação ser mais aceita não quer dizer que ela é a mais correta. No caso do embate EA vs Maistream, é importante notar o custo para se tornar um economista austríco, que é mais importante na maioria das vezes que a possibilidade de contato com a escola.

É inegável que o mercado demanda economistas do mainstream, então sem sombra de dúvida a escolha mais racional para um agente é focar nessa linha de pensamento. Geralmente, professores não gostam de serem questionados,e isso inibe muitas vezes o debate, assim como é mais um ponto negativo em ser austríaco. Se considerarmos a EA como uma empresa, é muito difícil uma nova empresa derrubar uma empresa já estabelecida com maior poder de fogo. Isso não é impossível porque os keynesianos perderam depois de algum tempo de embate, mas não vejo possível uma substituição de uma escola pela outra atualmente, vejo a continuidade de duas linhas separadas com com uma troca cada vez maior entre as linhas, como o pessoa da George Mason e NYU vem fazendo. É delírio achar que a matemática deixará de ser usada na economia, mas também acho exageiro alguns entusiastas que exergam matemática em tudo o que olham.

No caso da EA brasileira, os que conheço estão muito mais para o meio termo como Boettke do que para louvadores dos escritos sagrados. As vezes parece o contrário devido a mistura com o Libertarianismo. Rothbard foi um economista mediano, mas é extremamente importante em relação a ideologia libertária, e é natural que alguns não-economistas não separem as coisas. Os economitas da EA brasileira que conheço entendem muito de matematica e dos neoclássicos e não ficam presos a algum conceito porque fulano ou ciclano disse que isso não pode. Richard Sylvestre por exemplo sempre mostra que as duas escolas não são irreconciliáveis (no primeiro texto eu queria dizer isso mas ocorreu um erro de digitação). Até brinco que a sexta geração da EA será brasileira, e acho que isso pode sair da brincadeira. No meu caso a EA foi uma coisa negativa e positiva ao mesmo tempo. Caso eu não tivesse descoberto a EA eu seria um excelente economista matemático, pois acreditava que tudo era passível de matemática. O lado negativo é que gasto muito tempo em uma batalha interna entre o que fazer e até aonde ir. O lado positivo é que considero a EA mais lógica e real e meu compromisso com a verdade está acima do meu sucesso profissional.

Primeiro, vou reforçar o que já disse aqui: impressionante como Juliano conhece tanto de Economia, notadamente a austríaca, em um ambiente adverso como é o da academia brasileira. Ainda que tenha lido apenas livros e – pelo que noto – poucos artigos em journals, é de se admirar sobre como ele chegou até aqui.

Mas Juliano fala da busca da verdade e da vida. O mercado de idéias, como em outros mercados, tem suas imperfeições. Juliano fala de gostos e qualidades. Mises achava ótimo que o mercado trouxesse a diversidade e talvez repreendesse Juliano de leve, lembrando-o disto. Mas nem Mises foi capaz de dizer – embora usasse o exemplo do “bom gosto” e do “mau gosto” das massas em ascenção, como classificar alguns gostos de bons, outros de ruins. Talvez isto não caiba.

Da mesma forma, a busca da verdade é algo extremamente polêmico. Primeiro, existiria uma única verdade? Alberto Oliva, meu filósofo brasileiro favorito, tem vários livros sobre esta questão. Uma das coisas que aprendi é que há questões que não se prestam à ciência e sim à religião (ou a outro meio não-científico de investigação). Da mesma forma eu me pergunto se a “verdade”, muitas vezes, não se confunde com o método adotado? Poderíamos fazer a mesma crítica dos austríacos contra eles: “a excessiva falta de matemática não induz a uma verdade só compatível com uma linguagem 100% verbal”?

Robin Hanson e Tyler Cowen têm um texto interessante (e algo esotérico, para mim) sobre a questão das discordâncias. Eis um trecho da conclusão:

A literature started by Robert Aumann, and spanning several decades, has explored the finding that, on matters of fact, honest disagreement is problematic. We have reviewed this literature, and found Aumann’s initial result to be robust to many permutations, though not to introducing rationally differing priors. We reviewed arguments about which prior differences are rational, and found that the controversy surrounding this topic makes it difficult to determine whether typical disagreements are rational.

We can, however, use the rationality standards that people seem to uphold to find out whether typical disagreements are honest, i.e., are in accord with the rationality standards people uphold. We have suggested that when criticizing the opinions of others, people seem to consistently disapprove of self-favoring priors, such as priors that violate indexical independence. Yet people also seem to consistently use such priors, though they are not inclined to admit this to themselves or others.

We have therefore hypothesized that most disagreement is due to most people not being meta-rational, i.e., honest truth-seekers who understand disagreement theory and abide by the rationality standards that most people uphold. We have suggested that this is at root due to people fundamentally not being truth-seeking. This in turn suggests that most disagreement is dishonest.

Isto tudo para dizer que talvez a busca da verdade não seja a melhor maneira de se comparar o sucesso de hipóteses concorrentes sobre como a economia funciona. Sou ruim em tópicos metodológicos, mas arrisco a dizer que talvez seja melhor ter um objetivo mais modesto como “tornar menos complicada e clara o entendimento do funcionamento de X ou Y” ao invés de “saber o verdadeiro funcionamento de X ou Y”. Claro que em, econometria, por exemplo, buscamos – via amostras – inferir algo sobre a população, mas daí a ser tão confiante quanto à própria capacidade me parece difícil (e eis algo em que a matemática e a estatística ajudam: criam mais humildade do que qualquer verborragia…).

Outro ponto: são os austríacos brasileiros menos doutrinários? Não creio. Conheço poucos austríacos brasileiros e boa parte deles ainda me parece muito presa a convicções. A evidência é que raramente vejo um único artigo de algum economista austríaco em periódicos científicos. Quando o suposto cientista – no sentido não-necessariamente natural e sim social do termo – só escreve livros (que não se sujeitam à crítica dos pares) e larga os artigos (que, bem ou mal, passam por críticas antes de sua publicação) – o sinal emitido é claro: não quer diálogo.

Veja bem, eu mesmo escrevi um artigo com Ari e Jocka mostrando que há o que se criticar neste processo de avaliação científica (veja aqui), mas ainda acho que é o menos pior dos métodos de se construir o auto-conhecimento.

Complementando, não custa lembrar o que disse Coase uma vez: “a ciência não tem objetivos, cientistas sim”. Portanto, mais uma vez, o teste das idéias é importante, senão fruto dos próprios interesses dos cientistas (mesmo dos que afirmam não ter interesse, como se, parafraseando um famoso trecho de um artigo de Buchanan: “eunucos intelectuais fossem…”). Assim, a busca da verdade, como objetivo, ainda é a busca do auto-conhecimento ou da construção da própria sabedoria. Bem, nada que Adam Smith ou Juliano Torres neguem…

De qualquer forma, Juliano, você deve ser o segundo aluno de graduação – nos meus mais de dez anos de ensino – que consegue me fazer parar meus estudos (em um feriado, neste caso) para ler algo escrito (pelo aluno). O outro é o Fábio Pesavento, sujeito muito bom de História Econômica que sempre me surpreende com seus artigos. Vejamos se você iguala o Fábio no futuro. ^_^

Ainda que de forma desorganizada e sem revisão, meu comentário é este.

p.s. ah sim, em Teoria dos Preços, claro, você terá que usar matemática comigo, goste ou não. Risos.

Um comentário em “Sobre a não-matemática

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