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Eugênio Gudin leu Jared Diamond e William Easterly!

Por incrível que pareça, a leitura do pequeno livrinho, hoje, está me dando alegria após alegria. Senão vejamos:

Até hoje parece ainda não ter havido no Brasil um Govêrno que compreendesse o fato de que AO PASSO QUE A TÉCNICA INDUSTRIAL PODE SER FACILMENTE IMPORTADA DO ESTRANGEIRO, A TÉCNICA DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA, TROPICAL E SUB-TROPICAL, NÃO TEM DONDE SER IMPORTADA E HÁ DE SER FORJADA AQUI, POR NÓS MESMOS. [Eugênio Gudin, “Agricultura, a Enjeitada” in Inflação, importação e exportação, café, crédito, desenvolvimento, industrialização. Agir Editora, 1959]

Não é fascinante? Se os economistas brasileiros tivessem prestado mais atenção a Gudin, talvez tivéssemos desenvolvido as modernas hipóteses do desenvolvimento econômico de Easterly e demais há anos. Eu tinha boa expectativa quanto a este senhor, mas não sabia que ele era tão bom assim…

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Lei Seca – um argumento sutil

Diz o Cisco:

A redução do limite de álcool terá outro efeito perverso no futuro próximo, assim que as pessoas perceberem que suas conseqüências serão quase nulas (ou seja, que ainda moram no Brasil): quem antes beberia um ou dois copos de cerveja agora pensará “se me pararem, ter bebido um ou cinco é a mesma coisa, então por que não beber cinco?” Na margem, é possível que o consumo de álcool por parte dos motoristas aumente. Por ora, creio que um dos efeitos positivos é que as pessoas estão indo beber mais perto de casa e em locais que sabem que não passarão por blitzes no caminho de casa.

Isto é bem possível. Marcos Mendes, em um estudo feito em 2002, mostrou evidências de que, no longo prazo, as pessoas se ajustam ao que Cisco chama – correta e realisticamente – de “morar no Brasil”. Talvez eu não concorde com o pessimismo do Cisco, em termos de magnitude, mas acho razoável o argumento. Por falar em estudos, outro interessante, da minha amiga Daniela, mostrou que lombadas salvam vidas. A diferença da lombada para o guarda de trânsito é óbvia: lombada não aceita suborno. Radar também não aceita suborno.

Esta é a diferença que passa despercebida por muita gente boa (e muita gente ruim também) na hora de avaliar a Lei Seca.

Veja bem, leitor, será que a lei foi aprovada por causa dos benefícios líquidos evidenciados em estudos científicos? Se isto fosse verdade, então a pena de morte também deveria ser aprovada. Se você acha isto horrível vá ler o “Mais sexo é sexo seguro” do Landsburg, um livro bom e útil para quem gosta de discutir políticas públicas seriamente, mas em linguagem coloquial. O autor mostra como os estudos – diversos – geralmente mostram quedas de crimes ligadas à pena de morte (sim, a polêmica é tão grande quanto a da Lei Seca mas, espere, você nem pensou em polemizar sobre a lei seca…porque mudaria pesos e medidas para a pena de morte?).

Chamo sua atenção para isto: a lei não foi aprovada pensando em você. Políticos raramente fazem isto, embora digam que sim. Pprovavelmente muita gente bem intencionada gostou da lei, mas isto não significa que a mesma tenha sido aprovada por motivos altruístas por parte dos políticos, certo?

A lei foi aprovada por algum outro motivo e eu aposto que pouco foi analisado em termos de seus benefícios econômicos. Houve algum estudo de custo-benefício? Pouco provável. Aposto nisto, mesmo sabendo que há gente boa na assessoria da Câmara ou do Senado. Aposto porque os fatos me dizem que devo estar certo. Afinal, até hoje, não foi citado um único estudo em todos estes discursos. Somente vimos a estranha ciência (ciência?) dos políticos que é: “passa a lei primeiro, depois a gente vê se funciona”.

Assim, pode até ser que, no final, venhamos a agradecer por esta lei e alguns economistas farão trabalhos interessantes mostrando que sabem muito bem falar sobre o que já aconteceu mas continuam mancos na discussão prévia das políticas públicas (isto mudou nos últimos anos, eu acho, mas sou pessimista). Contudo, aposto que o político que votou favoravelmente à Lei Seca comportou-se de forma similar ao que já disse no e-book do Sachsida, atirou no que viu e acertou no que não viu.

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Frases que eu gostaria de ter dito

Anísio Teixeira diz, com sua habitual acuidade, que a legislação trabalhista em nossa terra trata o operário como uma criança e como um burocrata. Criança, porque nunca o reconhece como um adulto capaz de reagir e de se defender por seus próprios meios; burocrata, porque lhe garante os meios de ganhar a vida sem trabalhar. [Gudin, E. “O Estado Providencial” in Inflação, importação e exportação, café, crédito, desenvolvimento, industrialização. Agir Editora, 1959]

Genial, não?

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Artigo apropriado para o momento

Strategic Interactions between an Independent Central Bank and a Myopic Governmentwith Government Debt

Resumo:

We analyse optimal discretionary games between a benevolent central bank and a myopic government in a New Keynesian model. First, when lump-sum taxes are available and public debt is absent, we show that a Nash game results in too much government spending and excessively high interest rates, while fiscal leadership reinstates the cooperative outcome under discretion. Second, we show that this familiar result breaks down when lump-sum taxes are unavailable. With government debt, the Nash equilibrium still entails too much public spending but leads to lower interest rates than the cooperative policy, because debt has to be adjusted back to its pre-shock level to ensure time consistency. A setup of fiscal leadership does not avoid this socially costly outcome. Imposing a debt penalty onto the myopic government under either Nash or fiscal leadership raises welfare substantially, while appointing a conservative central bank is less effective.

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Francisco Rodriguez e a Economia Política do Fracasso Bolivariano

Francisco Rodriguez é um economista com o qual eu conversei uma única vez, em 1999. Depois disto, ele voltou à Venezuela e trabalhou para o Congresso sob o domínio de Hugo Chavez. Ou seja, ele sabe do que fala quando critica a crise venezuelana atual.

Os admiradores do bolivarianismo devem se sentir à vontade para tentar desmentir cada um dos artigos do citado economista.

Eis o resumo de um deles (preste atenção no que diz aí embaixo. Isto é exatamente o que urnas eletrônicas facilitam). É incrível como vários de nossos formadores de opinião (e eleitores) achem razoável votar num sujeito como Chavez.

During 2002-2004, the identities of millions of Venezuelan voters who signed petitions to recall President Hugo Chávez or opposition politicians from office was made public by the government. We match these petition signers to manufacturing firm owners and household survey respondents to measure the economic price of political expression. Put simply, do individuals who join the political opposition pay an economic price? We find that proopposition individuals see a fall in their income and disproportionately leave public sector employment, while pro-government individuals leave private sector employment. In addition, Pro-opposition firms have falling profits, less access to foreign exchange, and rising tax burdens (possibly due to selective audits), while the marginal products of capital and labor in progovernment firms decreased. The misallocation of resources associated with political polarization after 2002 contributed to a 5% decline in TFP in our sample of firms.

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Dissecando Keynes

Eis um artigo muito interessante. Keynes, como se sabe, escreveu um bocado de coisas além do confuso (mas importante) Teoria Geral do Emprego, Juros e da Moeda. O que Lee Ohanian se propõe a fazer aqui é ver se as “previsões” de Keynes se concretizaram. Veja o resumo:

This article analyzes Keynes’s Economic Possibilities for our Grandchildren an essay presenting Keynes’s views about economic growth into the 21st century from the perspective of modern growth theory. I find that the implicit theoretical framework used by Keynes to form his expectations about the 21st century world economy is remarkably close to modern growth models, featuring a stable steady-state growth path driven by technological progress. On the other hand, Keynes’s forecast of employment in the 21st century is far off the mark, reflecting a mistaken view that the income elasticity of leisure is much higher than that of consumption.

Eis aí o tipo de estudo em história do pensamento econômico que eu gosto. Nada de idolatria. Keynes acertou? Talvez. Errou? Talvez. Então vejamos o que ele dizia do futuro e o que ocorreu depois dele. Exegético, mas bacana.