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O maior inimigo da Escola Austríaca, frequentemente, é o Economista Austríaco, também seu melhor amigo. Como assim?

“Nada de dogmatismos, meus caros”. É o que digo aos amigos austríacos sempre. Primeiro, eu acho que é importante notar os artigos da RAE. Temos aqui Horwitz & Lewin usando derivadas, Cowen baseando-se em literatura “neoclássica”, Mulligan usando somatórios e derivadas, Levy & Peart usando previsões para discutir um interessante problema de metodologia, McCabe usando economia experimental (dados, dados, dados!) para falar de bons insights austríacos e, finalmente, Wagner & Oprea fazem uma crítica do livro de Roger Garrison, Time and Money, no qual se vê que bons economistas austríacos estão longe da idolatria (Rothbard nunca errou, Mises está sempre certo, Hayek é um Deus, Kirzner é um gênio), mesmo que esta seja uma perigosa armadilha para os austríacos (que podem transformá-los em pterodoxos, como a muitos “heterodoxos” brasileiros):

If Austrians wish to join the discussion of contemporary macroeconomics, they must let contemporary macroeconomics join the Austrian discussion. This means necessarily that the Austrian tradition will be subject to transformations as it grows, incorporates the better ideas of modern macroeconomics and becomes more robust to its critics. If the tradition is viewed as a fort, this transformation will be viewed as a corruption. But if the tradition is viewed as a town, it will be viewed as healthy infusion of new ideas. This is both the price and reward of participating in a living tradition.

Creio que a jovem blogosfera austríaca tem todo o potencial para fazer algo como Horwitz, Boettke e Garrison, ou seja, levar os insights austríacos para a Teoria Econômica sem medo ou necessidade de rótulos (“se não se chamar austríaco, não brinco”).

Em homenagem ao meu austríaco preferido, Hayek, reproduzo a nota de rodapé 2 do texto de Caplan – um sujeito que gosta de Rothbard, Mises, Hayek e outros, mas não os idolatra – cujo link fiz acima.

While modern admirers of Hayek often present his work as a radical alternative to mainstream economics, there is little evidence that Hayek thought this. Contrast Mises and Rothbard’s stringent rejection of mathematical economics with Hayek’s desire to “…avoid giving the impression that I generally reject the mathematical method in economics. I regard it as indeed the great advantage of the mathematical technique that it allows us to describe, by algebraic equations, the general character of a pattern even where we are ignorant of the numerical values determining its particular manifestation. Without this algebraic technique we could scarcely have achieved that comprehensive picture of the mutual interdependencies of the different events in the market.” (F.A. Hayek, “The Pretense of Knowledge,” in F.A. Hayek, Unemployment and Monetary Policy (Washington, D.C.: Cato Institute, 1979), p.28.

Hayek é como Minas, para os mineiristas radicais que adoram este amontoado de minério, queijo, goiabada e políticos estranhos: Hayek são muitos. Confio na capacidade intelectual dos jovens economistas austríacos brasileiros como confio em minha própria capacidade: com muita (auto-)crítica.

p.s. claro que se formos discutir filosofia com base em insights austríacos, estou muito pouco qualificado. Só posso falar da (ir)relevância de idéias austríacas na teoria econômica.

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3 comentários em “O maior inimigo da Escola Austríaca, frequentemente, é o Economista Austríaco, também seu melhor amigo. Como assim?

  1. Claudio, eu pretendo um dia estudar na GMU, pois é a universidade que dá maior ênfase na escola austráica, mas cabe ressaltar que nem todos lá são austríacos, e que eles tentam trazer a EA mais para perto do pensamento do mainstream.

    Concordo que algumas pessoas tem verdadeira crença em alguns autores; Rothbard é um dos preferidos dos “religiosos” austríacos, mais devido ao libertarianismo do que a suas contribuiçôes a EA, que foram poucas. Hayek tem um retrospecto de inconsistência durante toda a sua carreira, então se você pegar um livro de um período e depois pegar de outro, verá pontos de vista completamente diferentes – mas Hayek na minha opinião é o maior intelectual do século XX. Eu não entendo porque o Kizner não é aceito facilmente pelo mainstream, já que a teoria dele é bem próxima com a deles – acho que deve ser desconhecimento pelo sua trabalho. No caso do Mises, esse eu sou fâ assumido, pois compartilho em muito sua visão, e muitas coisas antes de conhece-lo; mas não deixo de fazer um exame crítico de suas obras, mas o único ponto que discordo dele é a sua concepção de que o estado pode ser mínimo. Creio que ele teve conhecimento durante sua vida de alternativas ao estado e não deve ter as levado muito a sério, mas não sei qual o real motivo, e nem vejo ninguém comentando isso.

    O Rafael Guthmann – que é autor do preço do sistema – já disse várias vezes que seu objetivo é matematizar a teoria austríaca para que o mainstream possa entende-la; é uma tarefa dura, mas a escola austríaca tem muito a ganhar em popularidade e reconhecimento.

    Quanto a irrelevância do pensamento austríaco, creio que seja a falta de conhecimento da existência do paradigma, mas com o tempo isso se resolve e ai podemos ter um melhor debate de idéias.

    Duas perguntas, você já leu os livros do Kirzner? O que acha do Ação Humana?
    Abraços

  2. Kirzner: já li um livro e alguns artigos. Só recentemente comecei a pensar mais no assunto, mas empreendedorismo não é minha área.

    Mises: Ação Humana é muito chato. Já li quase todo, mas, honestamente? Cansei. Mises tem um estilo que não me agrada muito. Gosto muito do “A mentalidade anticapitalista” e de “Liberalismo”. Mas Ação Humana eu já achei um livro melhor. Prefiro, mesmo, Hayek.

    Juliano, é em você e nos seus amigos da blogosfera que eu confio. Que discordem ou não de mim, mas que avancem este programa de pesquisa e transformem-no em algo palatável, viável e respeitável. Principalmente aqui, no Brasil. Eu mesmo já tentei isto (veja aqui: http://works.bepress.com/claudio_shikida/).

    Abração

    Claudio, o auto-crítico chato.

  3. O que parece acontecer, ao meu ver, é que muitas vezes se concentra em discussões metodológicas ou normativas, deixando a economia um pouco de lado. Não que estas não sejam questões importantes, mas um esforço polivalente exigiria um talento no mesmo nível.

    Acho complicado discutir questões metodológicas e se privar de discutir a literatura relevante de filosofia da ciência. Da mesma forma, discutir questões normativas sem entrar nos detalhes das obras principais da filosofia moral/política ou discutir direito sem adentrar na filosofia do direito. Por mais que se tenham insights nessas áreas, uma apreciação crítica das mesmas exigiria um aprofundamento ao qual muitas vezes não se dedica.

    Nas últimas semanas estive lendo Menger e Böhm-Bawerk, pode-se ver claramente que o interesse dos mesmos é o estudo da economia. Muito embora os mesmos estejam conscientes de seguirem uma linha própria, nenhum deles está muito preocupado em se perceberem como distintos, mas sim em responder diretamente à teoria econômica do seu tempo de modo a buscar um melhor entendimento da realidade econômica.

    Jogar pedra no vidro é fácil até se tornar vidraça. É verdade que anos e anos de ostracismo no debate econômico pode ter ajudado a sedimentar uma certa dureza do discurso. Mas que precisa ser vencida, de alguma forma.

    Resumindo, nem toda controvérsia econômica se resolve por divergências metodológicas ou normativas. Austríacos e mainstream, embora todas as divergências, possuem vários conceitos-chave em comum que podem ser utilizados para uma crítica local de vários pontos da teoria econômica. Até porque a teoria econômica ‘ortodoxa’ é muito mais um resultado da disputa de várias escolas concorrentes do que propriamente uma teoria coerente defendida por alguém ou um grupo de economistas.

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