Uncategorized

Frases que eu gostaria de ter dito

Richard McKenzie e Dwight Lee são dois professores de Economia relativamente desconhecidos no Brasil para os que não acompanham a literatura de Escolha Pública (Public Choice). Recentemente comprei seu livro Microeconomics for MBAs e tive o prazer de ler alguns trechos para – como sempre – buscar melhorar meus cursos para os próximos semestres.

Sabemos que os cursos de MBA’s brasileiros possuem a fama de terem turmas de alunos com um problema sério: heterogeneidade. Na verdade, a riqueza de uma turma como esta é justamente a sua fraqueza quando a direção cede aos pedidos populistas de alguns (“menos matemática, menos matemática…”). Veja bem, leitor, não estamos falando de matemática que o sujeito tem que aprender em Finanças, mas algo bem mais simples que envolve tão somente gráficos e uma álgebra equivalente à do pré-vestibular. Microeconomia é expressa em linguagem matemática, goste-se ou não disto. Obviamente, no caso de Finanças, a matemática tem que ser um pouco mais complexa, não tem jeito.

Mas observe só esta genial demonstração de conhecimento da maravilhosa divisão do trabalho que os autores descrevem no prefácio, quando discutem o perfil dos alunos do MBA:

(…) We figure that our fortes are thinking, studying, and teaching – not doing – business and then writing about what we have been thinking, studying, and teaching.

If our courses were primarily, if not exclusively, supposed to be about doing business, should we not change places with our students? They should come up to the lectern, and we should take their seats and listen to what they have to say. After all, they are actually doing business and know more about doing it than we could ever hope to know.

(…)

In a literal sense, the class is a world apart from the world of business, and intentionally designed that way for one strategic purpose: to take a look at how business is done from a broad perspective without the clutter of details that our students deal with day in and day out”. [p.xxi]

Perceba o significado do conhecimento. Um sujeito não precisa ir à escola para aprender a cortar madeira. Mas se vai, não é porque deseja ensinar, e sim aprender. Agora, existe uma diferença muito óbvia entre teoria e prática que é normalmente caracterizada por uma capacidade necessária em qualquer aluno: abstração (ou generalização, para os mais chegados em Lógica e Matemática).

Sobre isto não há o que discutir. Sabemos de gente que entra em salas de aulas em cursos como este desejando não fazer o menor esforço para abstrair porque “no mundo real, onde eu trabalho, não é assim”. Ora, isto é obviamente verdadeiro e, se você pensa assim, não precisa realmente ser um aluno em um curso que se pretenda “de nível superior”, mesmo que seja um simples MBA e não um mestrado ou doutorado acadêmicos.

Vale a pena refletir sobre o parágrafo acima. É sobre isto que se discute – dentre outras coisas – quando se fala da importância da qualidade da educação brasileira, uma discussão inelutável neste século. A administração Cardoso teve o mérito de criar incentivos para encher as salas de aula. A administração da Silva herdou e – espertamente – manteve a política. Entretanto, se isto é melhor que nada, ainda é longe do ótimo e não me venha com o “ótimo é inimigo do bom” porque, uma vez alcançado “o bom”, parte-se para o “ótimo”.

A hora da discussão sobre a qualidade do ensino chegou. Estudantes de economia que conhecem o conceito de sinalização e gostam de discutir sobre o papel do capital humano no desenvolvimento não devem temer o debate.

2 comentários em “Frases que eu gostaria de ter dito

  1. Perfeito, Grande Post!!!

    Muito sensata as suas colocações Shikida, vc já percebeu outro grande obstáculo a ser superado por nós. Porém sem clichês nem pieguices e nos levando a exorcizar o sentimento de inferioridade. Bem colocado e num momento bastante propício, com muito equilíbrio e profundidade.
    Muito Obrigado!
    Marcos Paulo
    Aluno de Economia-DF

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s