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FMI elogia a administração da Silva: e você com isso?

Valor: O Brasil cresceu 5,4% em 2007 e há sinais de que a atividade econômica continua forte no começo do ano. O sr. acha que esse nível de crescimento é sustentável?

Singh: Fundamentalmente, a economia brasileira está aproveitando os benefícios de políticas bem-sucedidas de estabilização, das reformas estruturais, da abertura externa crescente e da redução das vulnerabilidades. Em especial, uma administração macroeconômica adequada contribuiu para reduzir a inflação para níveis baixos, diminuir a relação dívida pública/PIB e melhorar o seu perfil e permitir uma forte queda dos juros reais e prêmios de risco, que eram historicamente altos. Houve uma mudança surpreendente no desempenho econômico do Brasil nos anos recentes. Como resultado, o crescimento aumentou. A economia ganhou impulso nos trimestres recentes, principalmente refletindo a força da demanda doméstica, incluindo um considerável crescimento do investimento privado, impulsionado pelos elevados preços de commodities e grandes fluxos de investimentos estrangeiros diretos. Os números mais recentes do PIB, como o resultado do quarto trimestre de 2007, são outra indicação da continuidade da força da economia brasileira. Números parciais mostram que o crescimento se manteve robusto nos primeiros meses de 2008. As perspectivas econômicas de curto prazo são em geral favoráveis, embora sujeitas ao ambiente externo, e o Brasil está certamente construindo capacidade para sustentar um crescimento elevado no médio prazo. Um fator-chave para essa última questão é promover melhoras adicionais no ambiente de investimentos, em infra-estrutura, na intermediação financeira e na eficiência da política fiscal.

Até hoje há gente que compra o discurso do partido do presidente da Silva de que o FMI é um grande vilão. Eu penso um pouco diferente. Do ponto de vista das instituições, o FMI nada tem a ver com a microeconomia de um país. Por isto você consegue ver um elogio às políticas fiscais brasileiras, com quase ou nenhuma análise microeconômica sobre o jogo político que ocorre por aqui. Neste sentido, o FMI pode elogiar até o governo cubano, caso o mesmo siga o seu receituário.

Uma crítica completamente diferente é se o receituário do FMI é bom ou não. O presidente da Silva, há anos, faz o discurso de que, sim, é bom seguir o que diz o FMI. Em outras palavras, é fácil, macroeconomicamente, seguir o que diz o FMI. Outra coisa é culpar o FMI pelo mensalão e outros escândalos que surgiram na administração atual, com o envolvimento de gente importante no partido do presidente. Não é possível culpar as políticas do FMI como herança maldita.

Gente da esquerda gosta de socializar a culpa e privatizar os benefícios gerados por outros fatores e, por isto, você vê tanta ênfase em termos de marketing político como: “herança maldita”, “FMI e os imperialistas” ou “o economicismo frio e malvado”. Trata-se de uma estratégia de tentar se desvincular da própria responsabilidade em ser o governo que aumenta a carga tributária e jogar a culpa nos outros. Claro que esta é facilmente perceptível por quem tem algum grau de instrução (não de doutrinação).

Mas a outra crítica, a dos não-liberais da direita, é a que mais se mostra confusa. Ou se diz que o presidente da Silva capitulou, ou se diz que ele faz um ajuste fiscal para gerar recessão e…implantar o socialismo. Uma coisa contradiz claramente a outra. Aqui é “claramente” mesmo porque em uma das críticas o ajuste fiscal é o “mocinho” e, na outra, o “vilão”.

É importante diferenciar bem estas coisas. Primeiro, estudos de cientistas políticos sérios mostram que os governos não-liberais de FHC e da Silva não são idênticos. Segundo, o fato de um déficit primário estar próximo de zero não significa que o mesmo é obtido sempre de uma única forma. Terceiro, as circunstâncias externas que FHC enfrentou e as que o presidente da Silva enfrenta são muito diferentes sendo que, no último caso, herdou-se uma política macroeconômica muito mais adequada ao momento atual (câmbio livre e política monetária razoavelmente mais independente) do que em outros períodos de transição de nossa história.

Do ponto de vista liberal, sem dúvida, nem FHC, nem da Silva foram presidentes liberais. A confusão está, na verdade, entre os não-liberais, que ora criticam, ora elogiam o presidente atual…e sempre pelos mesmos motivos. Por isto eu insisto sempre nos tags “socialismo real” e “bolivarianismo”: as pessoas precisam aprender a dar nomes aos bois e, mais do que isto, explicar o que são os bois, de jure e de facto.

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