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O tal Bolsa-Família

Ok, eu gostei da matéria do Estadão. Meus poucos amigos jornalistas sabem que admiro jornalista que realmente trabalha. Estes aí, do jornal de São Paulo, trabalharam. Cruzaram informações. Já é muito. Querer uma regressão múltipla, sim, seria querer demais (exceto se o cara tiver feito um MBAzinho decente).

A questão do Bolsa-Família é sempre polêmica. Falei disto para 50 cabeças de estudantes no início do semestre que ora se desenvolve. Alguns me olharam com um ar de indiferença, outros acharam interessante, alguns palpitaram e outros continuam a falar muito sem entender as implicações disto para suas vidas.

Há um artigo que eu, Leonardo Monasterio, André Carraro, Otávio e Ari escrevemos sobre a existência ou não do impacto deste programa social sobre a reeleição do sr. da Silva. O debate é importante, inclusive, do ponto de vista metodológico. Há um outro artigo, com uma base de dados diferente, que afirma ser um ponto crítico ao nosso. Ambos foram submetidos ao último encontro nacional da ANPEC, mas apenas o outro foi escolhido. Imagino se a tradição dos debates na ANPEC sucumbiu a outros fatores, já que ambos os artigos falam do mesmo tema, com metodologias e bases de dados distintas, o que é sempre um prato cheio para o aprofundamento do conhecimento do tema.

Mas a matéria do Estadão desperta em mim meus mais primitivos instintos científicos, para citar o ex-aliado do presidente da Silva, o sr. Roberto Jefferson. Pergunte ao seu professor:

  • Qual a melhor forma de se medir o fenômeno: “bolsa-família no município”? Este é um debate que você encontrará em nosso artigo e é muito relevante para se começar a discutir o tema. O outro artigo citado também sofre deste problema, creio, em um grau mais forte, já que usam dados estaduais.
  • Se existe impacto do bolsa-família sobre a votação do atual ocupante da Granja do Torto,  sem a correspondente melhora na escolaridade das crianças, isto ocorre por conta de fatores externos ao programa? Ou o programa é mal formulado? Ou a má formulação técnica oculta uma bela formulação política, com fins eleitoreiros?
  • Por que alguns governos preferem gerar mais empregos do que usar mecanismos de transferências (ou mesmo de “criação estatal de empregos”)? Por exemplo, otimistas radicais quanto a este tipo de receita (transferências) são os socialistas e Cuba ou Coréia do Norte seriam os melhores exemplos de “sucesso” deste tipo de política (inclusive com reeleições maciças dos ditadores destes campos de trabalho gigantes). Isto significa que toda transferência é ruim do ponto de vista da manutenção das liberdades individuais? Radicalizo: dar esmola é algo que deveríamos evitar sempre, independente do estado de saúde aparente do pedinte?
  • Países que adotam políticas mais liberais geram mais empregos, suponha apenas para fins da pergunta (mas olhe os dados!). Posto isto, pode-se dizer que liberalismo é um conceito absolutamente contrário, oposto ou radicalmente contra o de caridade? É possível um sujeito ser liberal e caridoso? Posto de outra forma: pode um sujeito não-liberal ser caridoso? Até que ponto o controle social da vida das pessoas (o bordão preferido dos não-liberais) é, de fato, um ato compatível com a melhoria de suas vidas?
  • Viver como um animal no matadouro sendo alimentado com ração de primeira é a melhor opção de um sujeito muito pobre? Discuta as implicações disto no curto e no longo prazos. Elabore, em linhas gerais, um programa de incentivos que seja o mais imune possível à manipulação eleitoreira e aos interesses dos apaniguados (que jamais desejarão tirar a mão do vil metal…).

Eis aí muito material para análise. Ah sim, o povo do Banco Mundial é fascinado com este tipo de programa. Pesquisa o site deles (www.worldbank.org) e enriqueça sua discussão. A única dica de leitura adicional é aquele famoso livro do William Easterly, cuja tradução estranhíssima do título é: “O Espetáculo do Crescimento”.

Um comentário em “O tal Bolsa-Família

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