Democracias menos liberais são também as mais falidas – A cultura

Leitores que acompanham a série de discussões que tenho feito aqui sobre os motivos da maior ou menor falência dos estados já sabem que toda esta conversar tem um pouco a ver com outro ponto (também explorado aqui): empreendedorismo.

Pois muito bem. Há um grande problema quando se discute “cultura”. Entretanto, os estudos de Claudia Williamson (que descobri graças aos bons economistas austríacos da SDAE) mostram como economistas encaram o tema. Meus orientandos de monografia (os que forem espertos) provavelmente já perceberam que, conforme os temas de seus trabalhos, devem tabular duas bases de dados que a boa autora disponibilizou em sua página. A mais ampla está em seu artigo “Institutional Arrangements and Economic Performance: The Relationship between Formal and Informal Institutions,” 2007. A outra está em: “Securing Private Property: The Relative Importance of Formal versus Informal Institutions”, 2007 .

Avançando um pouco, a profa. Williamson define instituições informais (nossa “cultura”) usando o World Values Survey, criando uma variável a partir dos seguintes componentes: trust, respect, self-determination e obedience. O texto original no qual se baseia é do Tabellini, sobre cultura e instituições na Europa. Grande parte dos valores pode ser pensada como o “estoque cultural” de cada país em 2000. Já falei um bocado sobre o problema de se discutir cultura – um conceito bastante dinâmico – desta forma, mas sigo a boa literatura mundial para que possamos iniciar o diálogo. Antes de prosseguir, e as instituições formais? Para esta, ela usa o famoso ICRG (International Country Risk Guide), comum nos estudos do ramo.

Bem, tentarei matar a curiosidade dos leitores que acompanham as duas discussões com as figuras abaixo.

A variável “formal_minus_informal” é a diferença entre as instituições formais e informais de um país. A profa. Williamson crê que instituições informais sejam mais importantes para o crescimento do que as formais. Nossa primeira figura (a da esquerda) mostra que a falência estatal está relacionada a sociedades mais “formalizadas” por assim dizer, o que é compatível com sua hipótese. Já na figura da direita nota-se uma relação curiosa entre a tal taxa de empreendedorismo do GEM e esta mesma variável. Há menos países na amostra e, como já disse antes, mais empreendedorismo não é, de forma alguma, sinônimo de mais crescimento econômico, per se. É necessário estudar melhor as relações causais entre instituições e empreendedorismo (falávamos de rent-seeking outro dia, não é?).

Para os que acompanham este debate, uma pergunta simples: o que acham do que temos até agora? Comentários? Particularmente, acho que toquei em diversos pontos fracos destes debates. Também acho que várias perguntas surgiram. Tenho vários alunos fazendo monografias em temas correlatos. Creio que, quanto mais gente pensando nestes temas, melhor.

p.s. Sim, o Brasil está em todas as amostras até agora. Tá curioso? Aguarde…

Perguntas do Estadão de Sábado

  • Se só em 12 de março a CPI aprovou requerimento pedindo dados sobre cartões, por que o governo já havia requisitado informações dos ministérios até 11 de fevereiro?
  • Se há motivos de segurança nacional para preservar o sigilo dos cartões da Presidência, como alega o governo, por que foram acessados dados da gestão Fernando Henrique?
  • Se o governo efetivamente reuniu informações sobre as despesas da gestão tucana, de caráter sigiloso, como elas foram parar na imprensa?

Algumas das perguntas de ontem. Certamente, a mais interessante é a segunda. Por falar nisto, a imprensa se esqueceu de continuar cobrando transparência dos gastos do presidente atual ou é impressão minha?

Artigos interessantes

A patota que diz gostar de Finanças – e que foge da Econometria – deveria ler mais.

DEA investment strategy in the Brazilian stock market

Ana Lopes, Edgar Lanzer, Marcus Lima, Newton da Costa Jr

Abstract
This paper presents a multi-period investment strategy using Data Envelopment Analysis (DEA) in the Brazilian stock market. Results show that the returns based on the DEA strategy were superior to the returns of a Brazilian stock index in most of the 22 quarters analyzed, presenting a significant Jensen’s alpha.

Interessante, não?

p.s. DEA não é análise paramétrica, mas os fujões de Econometria normalmente são fujões de Programação Linear (a correlação é elevada).

Melhor resposta para gente quem pede que outros façam seu trabalho…

Ao invés de fazer o trabalho, joga para outro fazer. Levou a melhor resposta. Se eu pudesse, também teria votado nesta. O engraçado é esta história de votar a melhor resposta. Se a pergunta fosse 2+2 =…e a melhor resposta fosse 3, isto nos diria algo sobre o bom humor do sujeito, mas muito pouco sobre seus conhecimentos…

Valeu, Philipe, pela dica.

Sensacional aula de economia de Russ Roberts

O Ordem Livre faz mais um belo trabalho de educação pública (e gratuita…à primeira vista). Clique no link abaixo para ler tudo.

De onde vêm os preços

por Russell Roberts

Meus três filhos, com idades entre sete e doze anos, sofrem de um distúrbio que já foi descrito pelo economista John Baden como ferronite – a paixão por tudo que seja feito de metal. Eles são fascinados por carros, caminhões, escavadeiras, tratores… enfim, você já consegue ter uma idéia. Outro dia, meu filho do meio sugeriu que meu próximo carro fosse um conversível. Eles são muito caros, respondeu seu irmão e mencionou que um conversível de um modelo em particular custava US$ 10.000 a mais que sua versão comum. Mas por que eles são mais caros, seu irmão perguntou?

É uma boa pergunta. Por que os conversíveis são mais caros do que os não conversíveis? Por que um scotch de 21 anos é mais caro do que um scotch de 10 anos? Por que os pimentões vermelhos são mais caros que os pimentões verdes? Por que os empregados do Wal-Mart ganham menos do que um trabalhador médio nos Estados Unidos? Por que a gasolina é mais cara no verão do que no inverno? Por que a gasolina é mais cara na Europa do que nos Estados Unidos? Por que as rosas são mais caras no dia 12 de junho? Por que a cerveja não é mais cara no domingo do Super Bowl? Por que as casas nos subúrbios de Washington, DC são mais caras que as casas nos subúrbios de Richmond, Virgínia?

Quer ler tudo? Veja o que escrevi lá no alto.

O uso político do Estado

Não, a administração da Silva não será a primeira, nem a última da história a usar a máquina pública para destruir oposicionistas. Mas é espantoso como seus apoiadores achem isto muito natural, até nobre, bonito e tudo o mais. Onde estão os famosos “revoltados”? Cadê o “grito da revolta”?

Talvez o brasileiro não ligue muito para o regime político e sim para a economia. Botou dinheiro no bolso do Juca, pronto, ele nem liga se proíbem João de emigrar. Colocou arroz na marmita da Maria? Pronto, Maria nem liga se a imprensa foi proibida ou intimidada (mesmo a imprensa pró-governo pode se ver em apuros com isto).

Ou talvez o que falte são incentivos sérios (Lei mesmo) que seja auto-aplicável, independente dos advogados pagos pelo PCC ou por outros grupos para rasgar os direitos individuais, perseguir inimigos, ou distorcer o sentido de liberdade privada, etc.

Causa um certo enjôo, né? Mais ainda quando o dinheiro público segue usado para fins os mais privados possíveis, às custas do imposto compulsoriamente recolhido do bolso alheio. O pior é que tem gente que acha que privatizar lucros e socializar prejuízos é coisa de liberalismo. Não devem ter lido nem o famoso Roberto Campos, quanto mais algum liberal mais sério como Hayek, Acton, etc.

Tá certo que, como pesquisador da área, é interessante ver que a administração da Silva colabora um bocado para encher nossas bases de dados (bases de dados mesmo, não dossiês disfarçados, ok?) com fatos novos para entendermos os incentivos que guiam esta gente pelos becos do crime contra a honestidade e outros conceitos “burgueses”. Mas, na pele do cidadão que paga impostos, dá medo ver duas coisas: (a) a curriola se esbaldando; (b) o povo achando tudo lindo, exceto quando os não petistas estão no poder. O duplipensar da ética que esta gente prega nas escolas e na mídia, a cada instante, é algo espantoso.

Pessoas são racionais e aprendem, obviamente. Mas aprender leva tempo e, se bobear, você estará sob um regime ditatorial eleito, há muitas décadas atrás, pelo povo.  É bom aprender logo.

PCC é a empresa que mais cresce no Brasil

O crescimento dos lucros da organização é atestado em contabilidade apreendida em 28 de fevereiro com Wagner Roberto Raposo Olzon, o Fusca, tesoureiro da facção. Ali, é possível verificar que, em 7 de janeiro, a facção fechou seu caixa dos 30 dias anteriores com R$ 4,89 milhões arrecadados. Em 2005, quando policiais civis apreenderam a contabilidade da cúpula nas mãos de Deivid Surur, o DVD – que, mais tarde, foi obrigado pela facção a se matar na prisão -, as contas somavam R$ 800 mil mensais e preenchiam 18 páginas de caderno escolar. Agora, ocupam 33 páginas – 4 em forma de planilha.

Onde está nosso Levitt quando se precisa dele?

UPDATE: e não é que são internacionalizados? Durante estes oito anos, o PCC evoluiu, heim? Seria mais um triunfo do governo atual? Ou agora vão dizer que é herança maldita?

Mostra sobre globalização

Direto do blog do Fórum da Liberdade:

Fórum terá mostra cultural sobre o tema Globalização, Comércio e outras Histórias

Buscando atingir sua missão de lançar idéias e instigar a reflexão, o Fórum da Liberdade apresenta, além do ambiente de palestras, uma mostra histórico-cultural com o tema Globalização, Comércio e outras Histórias. A mostra estará exposta a partir das 17h do dia 7 de abril, no prédio 41 da PUCRS, ao lado do auditório onde serão realizadas as palestras do XXI Fórum da Liberdade.

O objetivo da mostra é expor estes conceitos de maneira criativa e diferenciada, para que sejam usados como ferramentas que, somadas às percepções e experiências individuais, levarão cada visitante a extrair suas próprias conclusões do que está sendo proposto.

Neste ano, tendo como pano de fundo a globalização, a mostra se fundamentará na filosofia, na sociologia, na economia e na história e se utilizará de espaços de contemplação e experimentação para criar um estimulante ambiente de meditação acerca do tema.

A mostra terá quatro momentos/espaços distintos:

I – Do livre comércio;

II – Da divisão global do trabalho;

III – Da tolerância e da congregação dos povos;

IV – Dos indicadores do mundo.

Eis aí uma interessante forma de se pensar a globalização de forma crítica. Já começou bem porque fugiu da mesmice das salas de aula brasileiras onde as pessoas são normalmente enganadas sobre os efeitos da globalização em suas vidas (enganadas mesmo, já que 99.9% dos professores estupram os princípios básicos da economia e os dados com pregação ideológica quase que descarada).

É neste sentido que este blog vale a pena: ele ajuda a desmistificar certas besteiras. Mesmo que o sujeito venha aqui e fale uma besteira no comentário (quando é mal educado, nem aparece, porque não usamos roupa suja em público), pelo menos ele já reagiu. O futuro brilhante normalmente ocorre com uma reação educada (mesmo que contrária). Para os candidatos a Australopitecus Semi-Erectus, claro, sobra a reação raivosa, instintiva, assim, digamos, quase vegetal.

Mas, por sorte, a maior parte do que chega aqui em termos de comentários é coisa fina, que mostra ao jovem Cláudio que existe esperança para o Brasil enquanto que, para o velho Cláudio, existe esperança de melhora de qualidade em nosso fluxo emigratório…

Divulgação cultural: Mais um Encontro Liberal

Programa do Encontro Liberal em Goiânia

Segue a programação do Encontro de Pensadores Liberais que irá ocorrer na Universidade Federal de Goiás, no sábado, dia 12 de abril de 2008. Em breve estaremos divulgando a sala em que o Encontro será realizado.13:30 horas: Inscrições (gratuitas)14:00 horas: Abertura14:10 às 16:00 horas: O Caminho da Servidão, uma discussão sobre Estado e Liberdade16:00 às 16:15 horas: Intervalo

16:15 às 18:15 horas: Crise Americana: Falta ou Excesso de Estado?

18:20 às 18:30 horas: Encerramento

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Bem, bem, se você não sabe, isto é obra do Adolfo e é com ele que você deve conversar se quiser se inscrever. Novamente, sem um único tostão dos auto-proclamados promotores da cultura – nem os privados, nem os públicos. Eu já penso em fazer um em Belo Horizonte, na tradição deste do Adolfo.

Eis aí minha idéia: uma versão belorizontina do encontro liberal do Adolfo. Coisa de um dia. Posso pedir uma ajuda da instituição em que trabalho para reservar uma sala para o encontro. Imagino que tenhamos umas doze ou treze pessoas. Caso a idéia vingue, posso até repensar o espaço.. Bem, vamos começar do zero: quem tiver interesse, mande-me um email.

Simon Bolivar: um empresário vítima da insegurança jurídica

Os bolivarianos adoram citar Bolívar. Mas o que sabem de sua vida? Provavelmente nada. E o mais irônico: o texto faz a ligação entre nossa discussão sobre empreendedorismo e, claro, o bolivarianismo (só que o verdadeiro, não o falso). Aliás, parafraseando Hayek, a gente poderia começar aqui uma série de posts contra os revisionistas (estes que negam o genocídio e estes que chamam Bolívar de socialista) chamado: “Bolivarianism: true and false”.

Leitura recomendada

Várias vezes citei aqui este texto do Hayek. Com a biblioteca virtual do HACER, finalmente, tem-se o acesso ao texto, ainda que em espanhol. Recomendo-a principalmente para economistas porque muitos de nós, entre um e outro momento da vida, ficamos com aquela impressão de que economia é só matemática ou que economia é só verborragia e toda aquela história toda que discuti ontem no Ordem Livre.

Não sou professor de Filosofia ou de História do Pensamento Econômico, mas se fosse, certamente promoveria um debate somente sobre este texto, em sala de aula. Trata-se de um notável exemplo de como um economista pode pensar ser um liberal enquanto, na verdade, é quase um fascista/socialista…e vice-versa. Há muitas nuances nesta história de chamar alguém de “individualista”. Muita gente boa recebe péssima educação de doutrinadores escolares e, por falta de acesso a alternativas (e eles é que dizem que “um outro mundo é possível”…), perde-se em confusões das mais loucas.

Pois o texto de Hayek é um pingo de mel em meio a esta loucura. Trata de dois conceitos de individualismo, que ele chama de “falso” e “verdadeiro”, com muita propriedade. Se você gosta de ter uma opção de leitura para aquela viagem de ônibus ou para um intervalo entre as batalhas do seu dia-a-dia, eis um bom texto.

Após sua leitura, garanto, você repensará várias coisas que já ouviu.

Cultura e economia

Para ajudar os leitores que acompanham nossas conversas sobre empreendedorismo, eis o que é aceitável, para mim, em termos da definição de “cultura”. Não é fácil, como já disse aqui antes, definir isto. Afinal, cultura é algo que muda a cada segundo, a cada nova criação humana (chego a pensar, muitas vezes, que este papo de preservar patrimônio histórico é coisa de gente com sonhos de monopólio nas preferências artísticas dos outros).

De qualquer forma, é necessário entender corretamente (ou pelo menos operacionalmente) o conceito antes de jogá-lo no lixo ou adotá-lo nos estudos. O debate sobre empreendedorismo (use a caixinha de busca aí ao lado) que segue aqui, obviamente, não foge à regra.

Relações Internacionais para dummies – I

Diz o Selva:

A Irrelevância do Itamaraty

Está claro que os governos europeus estão se esforçando em barrar a invasão de imigrantes brasileiros ilegais. Todo mundo vê isso, com a óbvia exceção dos barbudinhos delicados do Itamaraty, ocupados em proteger os terroristas das FARC e em comprar perfumes caros e roupas de seda. Vejam este caso na Irlanda em que o governo irlandês simplesmente ignora a embaixada brasileira. Se tivéssemos um governo responsável, com um pingo de vergonha na cara, teríamos um ministério das relações exteriores que não fosse motivo de gozação e ridículo internacional.

Aguardo ansiosamente por mais uma retaliação inteligente do nosso governo, provavelmente com a tal reciprocidade (que não vale quando o assunto é FARC, claro). O que será que mais incomoda os nossos bons diplomatas no governo atual?

Então você quer ser federalista, né?

Federalismo é um belo nome para um balaio de gatos. O governo brasileiro se diz federalista. O dos EUA também. E o da Suíça. Não faltam federalismos na praça. Mas o da Suíça, quero crer, funciona de fato.

Um tema que me intriga é o seguinte: 100% dos economistas no mundo falam dos benefícios da competição entre governos subnacionais, inclusive em termos de impostos menores. Mas, no Brasil, eu raramente ouço algum tipo de proposição similar. Aliás, sempre ouço o oposto (refiro-me à tal “guerra fiscal”). Na minha opinião, o problema passa pela discussão da não-rigidez da restrição orçamentária, mas posso estar enganado.

Palpites?